Colunista
21/11/2008 - Copyleft

A transição de Obama



A transição de Obama já emite alguns sinais do que será o início de seu governo. Nos Estados Unidos, as transições são momentos especiais. Pelo menos é assim desde as transições de Truman para Eisenhower e de Eisenhower para Kennedy. O assunto ganhou notoriedade com os estudos de Richard Neustadt, um especialista em governo e presidência, figura-chave nestas duas transições.

Todavia, mesmo sendo um país acostumado às transições e sabedor de sua importância, causou certa surpresa a rapidez de Obama em tirar do colete os nomes de sua equipe de transição, quase imediatamente após o anúncio de sua vitória. Para quem transformou a palavra ¿mudança¿ em um slogan exaustivamente repetido, o novo presidente não apenas quer, mas precisa agir rápido e, desde o início, lançar propostas capazes de provocar imediata sensação de mudança.

O início quase instantâneo da transição foi possível porque Obama já havia se preparado para este momento antes mesmo de ser eleito. Sua escolha permaneceu em segredo até onde pôde. Quando o jornal Financial Times a revelou, faltava apenas 4 dias para a eleição. Conseguiu-se, assim, um duplo feito: como candidato, evitou a crítica de que já estivesse com a idéia do ¿já ganhou¿ na cabeça; como eleito, ganhou um tempo precioso em sua contagem regressiva até o dia 20 de janeiro, quando toma posse efetivamente do cargo de presidente.

Em contraste, Clinton só começou a pensar em sua transição com o governo de Bush-pai após ter sido declarado eleito. Sua transição foi modesta, sediada no Arkansas, e os resultados pífios comprometeram os importantes 100 dias do início de seu Governo.

Obama deu sinais de que sabe muito bem que os 100 primeiros dias de qualquer governo são uma espécie de cartão de visita. Se a primeira impressão é a que fica, é preciso acrescentar que, para governos, ela não dura muito mais que os 100 primeiros dias.

A escolha de John Podesta, ex-chefe de gabinete de Clinton e que até hoje decora o escritório com uma foto do ex-presidente, pode dar margem a confusões e exagero sobre a influência de Clinton sobre a administração Obama.

O poder dos Clinton foi testado ainda na campanha, quando havia pressão para a aceitação de Hillary para compor a chapa de Obama. Na escolha do vice, prevaleceu a opção do candidato, que preferiu arriscar. Descartou Hillary e escolheu o veterano senador Joe Biden. Seu recado claro: não queria que o ¿clã¿ dos Clinton lhe fizesse sombra.

Neste sentido, Podesta entra, sobretudo, para cumprir a tarefa que assumiu no Partido Democrata a partir do final do governo Clinton: a de estreitar o contato com os centros de pensamento (conhecidos como ¿think tanks¿). Os ¿think tanks¿ são essenciais no processo conhecido na política como ¿formação de agenda¿: o elenco dos temas que devem ser considerados prioritários, sua defesa por um time de renomados especialistas e sua capacidade de conquistar espaço na imprensa. A imprensa americana é particularmente sedenta pela opinião de especialistas que contam com prestígio no meio político e que são capazes de apresentar diagnósticos comprimidos em números e gráficos; visões claras e contundentes recheadas com pesquisas e a indicação cirúrgica de uma lista de prioridades. Tais opiniões poderão ser a antecipação de propostas que o presidente terá sobre sua mesa, prontas para serem transformadas em decisões com uma simples canetada.

As duas outras escolhas para a equipe, Valerie Jarrett e Pete Rouse, são colaboradores de Obama de longa data. Fazem parte daqueles que têm sua absoluta confiança pessoal . Além do trio (Podesta, Jarrett e Rouse), há inúmeros outros colaboradores. Até que ponto as contribuições dos colaboradores serão aceitas dependerá justamente deste trio. Ele servirá de filtro para que a montanha de sugestões e estudos não venha a parir um rato nos primeiros 100 dias.

Uma das tarefas do período de transição será o anúncio da equipe de Governo. Vários nomes estão cotados, mas chama a atenção a escolha do deputado Rahm Emanuel. Embora a escolha tenha sido vista como um sinal contrário ao espírito anunciado por Obama - que se pretende mediador de conflitos -, a escolha, na verdade, é significativa sobretudo da relação do futuro presidente com o partido democrata. Emanuel é deputado do tipo de ¿hard-nosed¿ (¿nariz duro¿), ou seja, um farejador pragmático, um operador hábil e experiente, mas também com fama de ter estilo ¿tropa de choque¿. Demonstra a disposição do presidente eleito em manter a coesão partidária, necessária para tomar decisões duras e rápidas. Para tal, precisa que seu partido aja disciplinadamente no Congresso e aproveite a condição de maioria, evitando revezes, como os sofridos por Bush, que teve oposição dentro de seu próprio partido em alguns assuntos centrais ¿ o próprio candidato republicano, John McCain, foi um dos exemplos dessa indisciplina. Ou seja, o pit-bull deve estar sobretudo com a tarefa de morder os calcanhares dos próprios correligionários de Obama.

Para quem tem diante de si o desafio de montar uma equação capaz gerenciar duas guerras (Afeganistão e Iraque) e enfrentar a maior crise econômica do capitalismo, desde 1929, pelo menos por enquanto Obama deu mostras de estar minimamente preparado para responder às expectativas e deve usar munição pesada em seus primeiros 100 dias.