Colunista
15/11/2007 - Copyleft

Criollos, mazombeiros e reis, por que não se calam?



Ao mandar, aos gritos, o presidente venezuelano se calar, quando ele chamou José Maria Aznar de fascista por ter apoiado a empreitada golpista de 2002, o rei Juan Carlos deslocou o debate do campo político e promoveu o retorno de algo que o passado histórico insiste em recalcar: a perversão colonialista.

O ¿por que não se cala?" é uma clara realização de desejos adormecidos em tempos de império. Não é apenas a irritação de um chefe de Estado com o presidente que lhe diz verdades incômodas; é muito mais que isso. É a raiva de um Bourbon contra mestiços e camponeses que ousam promover levantes contra o jugo espanhol. É um recado póstumo a José Antônio Galan e sua Revolta dos Comuneros, em 1871. É a reiteração da impossibilidade de êxito na luta pelo fim da servidão do trabalho indígena.

O anjo da história de Juan Carlos também está voltado para o passado. Mas ao contrário do Angelus Novus, da tela de Paul Klee, interpretada brilhantemente por Walter Benjamin, ele não vê escombros. Não gostaria de se deter e despertar os mortos. Pelo contrário, ele quer a certeza que o corpo de Tupac Amaru II permanece inerte em Cuzco. O sinal permite que sua representação simbólica fique clara: Por que não se calam Chávez, Morales, Ortega, Michelle Bachelet e Rafael Correa? Acaso não sabem que o comércio entre colônias está proibido? Ignoram que habitam o Vice-Reino da Prata e a lógica absolutista não lhes reconhece direitos? Então, por que não se calam de uma vez por todas?

O regozijo com a determinação da realeza se fez presente no imaginário de distintas elites da América Latina. Não foram apenas os "criollos" hispano-americanos que explicitam seu encantamento. Os nossos conhecidos " mazombeiros" também não pouparam munição.

Para o cientista político Cândido Mendes ¿as palavras impacientes do rei Juan Carlos falaram por um sentimento internacional generalizado quanto à escalada do ego de Chávez, confundido com a busca da alternativa ao modelo neocapitalista vindo no bojo da hegemonia americana"(...) Quem sabe podem dar um basta ao desmando da revolução bolivariana levada ao grotesco por sobre o ímpeto de sua primeira esperança". Eis um texto que prima tanto pelo estilo prolixo quanto pela desencanto suspeito. Algo comum na literatura política nacional que busca, em formulações áridas, o disfarce para o seu habitual arrivismo.

A direita parlamentar de Pindorama também se manifestou. O senador Demóstenes Torres (Demo-GO) escreveu para um conhecido blog jornalístico: "O presidente plenipotenciário da Venezuela, Hugo Chávez, finalmente tomou merecida carraspana. Chávez chegou saliente à 17ª Cúpula Ibero-Americana e saiu do Chile com cara de cachorro de rua. Coube ao rei da Espanha, Juan Carlos, como um pai impaciente com desajustado e incorrigível filho, mandar que ele se calasse" Sem querer, tocou em questão sensível para o monarca espanhol.

O rei de Espanha é produto do fascismo de Franco. Foi criado por ele, à sua medida e semelhança. Jurou as Leis Fudamentais do Regime, embora não tenha jurado a Constituição de 1978 que institucionalizou a monarquia em um sistema parlamentarista. Para chegar ao trono, foi cúmplice do ditador que exigiu a renúncia de seu pai.

Os momentos e movimentos da história espanhola registram insólitos arranjos de filiação que, sem dúvida, não prescindem do olhar psicanalítico.Se o retorno do recalcado é a volta do que ficou reprimido em nome do pacto com a figura paterna, a reação de Juan Carlos ao ouvir Chávez dizer que Aznar é fascista, não deixa dúvidas quanto ao pai escolhido.

Como destacou Mauro Santayanna em artigo recente, antes de se pronunciar pela "legalidade democrática", o rei silenciou durante a tentativa de golpe de Estado na Espanha, em 1981. Para FHC, no entanto, sua posição no episódio ¿foi absolutamente fundamental para a democracia¿. A história, inegavelmente, comporta várias leituras, mas para ¿criollos" e "mazombeiros" uma versão eurocêntrica cai bem melhor.

Sobre estes últimos, escreveu Anísio Teixeira: "na definição de Viana Moog consiste (o mazombismo) na ausência de determinação e satisfação de ser brasileiro, na ausência de gosto por qualquer tipo de atividade orgânica, na carência de iniciativa e inventividade, na falta de crença na possibilidade do aperfeiçoamento moral do homem, em descaso por tudo quanto não fosse fortuna rápida, e, sobretudo, na falta de um ideal coletivo, na quase total ausência de sentimento de pertencer o indivíduo¿. (*)

Há 45 anos, portanto, em publicação conceituada, estava definido o estado de espírito que norteia a oposição brasileira. Aquela para quem o rei de Espanha ensina democracia. Antevisão ou premonição? Mais uma vez, toda solidariedade a Chávez.

(*) Valores proclamados e valores reais nas instituições escolares brasileiras, Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.37, n.86, abr./jun. 1962. p.59-79