Colunista
16/02/2007 - Copyleft

Crônica de Joanesburgo (2)



Prosseguindo a crônica anterior, em que relatei a chegada minha e de Marcel Gomes numa Joanesburgo em que o centro é a ¿periferia¿, na de hoje finalizarei minhas observações sobre nossa passagem pela cidade, pondo fim também a estas jornadas em terras africanas, feitas pela Carta Maior.

Depois de subirmos no Carlton Center, descrito nos folders locais como ¿the top of Africa¿ (mas não era o Kilimanjaro?, perguntei) por ser o edifício mais alto do continente, com 50 andares, fomos visitar uma fábrica de cerveja. Apesar dos resquícios da presença inglesa (por exemplo, no tráfego contra-mão), a cerveja em Joanesburgo é servida bem gelada, e bastante boa, havendo os tipos mais e os menos encorpados.

Na fábrica há toda uma mostra sobre a história da cerveja, em primeiro lugar. Ali tomamos contato com a deusa egípcia a cujo culto se atribui a origem do precioso líquido: Hator, uma deusa guerreira, sensual, e de gênio difícil. Há quem atribua a origem da bebida a uma outra deusa, Ninkasi, dos Sumérios. A cerveja teria sido introduzida no Egito para satisfazer os mais pobres, que não podiam pagar pelo vinho, a bebida de mais prestígio. Certamente a mídia da época, sempre alerta como a nossa, atribuiu essa introdução da cerveja no país dos Faraós a alguma política populista por parte dos deuses, algo assim como um cerveja-família, ou o programa cerveja-para-todos, de algum Faraó Tutankalula, ao fim do século IXX d. FHC.

O certo é que, como Noé é o primeiro homem de quem se sabe que tomou um porre, depois dos 40 dias na arca (também pudera, coitado), Hator é a primeira deusa de quem se sabe que tomou uma bebedeira federal. Diante de uma revolta dos humanos, seu pai, o deus Rá, enviou-a para castigar os petulantes. Hator não estava para brincadeiras, e resolveu exterminar os atrevidos. Rá, arrependido por tê-la enviado, recorreu a um estratagema: mandou servir a Hator 7 mil litros (!) de cerveja. Esta, como se sabe, não era loura, mas avermelhada e escura: Hator pensou estar bebendo sangue, e aplacou sua sede de vingança.

Também tomamos contato com Gambrinus (nome de um simpático restaurante no Mercado Público de Porto Alegre, fundado em 1890, e de um em Lisboa, fundado em 1936), legendário rei de Flandres e de Brabante lá pelos anos de mil e alguma coisa, a quem se atribui não só uma paixão especial pela cerveja, mas também a invenção do gesto de brindar. Passaram também um filme explicando como tribos faziam e ainda fazem uma cerveja rústica nas selvas e savanas. Provamos um pouco: cerveja amarga, de baixo teor alcoólico (2,5%), mas muito encorpada.

Dali nosso chofer, Mr. Simon, nos conduziu pela cidade através do centro, e dos bairros muçulmano e indiano até o legendário Soweto. Uma surpresa para a minha ignorância. Soweto não é uma favela. É um bairro onde há favelas. Mas há inúmeras ruas e casas de classe média. É que Soweto fica numa municipalidade, Orlando (dividida em Leste e Oeste), construída especialmente para os negros morarem lá pela década de 30, quando as leis do apartheid começaram a endurecer. Na região de Joanesburgo os negros só podiam morar lá, tanto os de classe média como os pobres e miseráveis. (Não havia uma burguesia negra). Embora os negros tenham a pele bem escura, característica do povo dominante na região, os zulus, o conceito de ¿negro¿ na África do Sul seguia a tradição da gota de sangue, ¿onde drop of blood¿. Em Nairóbi entrevistei uma militante sul-africana da Via Campesina que tinha olhos verdes, cabelo louro-escuro e pele mais clara do que a minha, em que ressaltam ao lado dos genes portugueses, italianos, alemães e bávaros, os herdados de tradições guarani, charrua e africana. Eu, crestado ao sol africano, fiquei com fama de etíope. Pois ela, que perto de mim parecia vir do planalto de Santa Catarina ou do Paraná, era definida como negra na África do Sul, e tinha de seguir as leis discriminatórias do apartheid, coisa que, ela me disse, lembra sempre para seus filhos. Notáveis são tanto os requintes do preconceito reificador quanto a fibra e a capacidade de resistência daquela mulher admirável.

Em Soweto há de tudo. Nossa visita em detalhe começou pela única rua do mundo em que estão as casas de dois ganhadores do prêmio Nobel, Nelson Mandela e o bispo Desmond Tutu. Uma está em frente a outra. Há uma visitação a casa que foi (ele não mora mais lá) a residência de Mandela e de sua família depois de sua prisão. É uma casa simples, tipo sala-comedor-quarto-cozinha, hoje recheada de lembranças, fotos de antes de depois da prisão, mensagens a ele dirigida, títulos honoris causa e prêmios recebidos. É muito interessante. A entrada custa 20 rands, três dólares, e vale a pena. Do lado de fora, nos fundos, simpáticos repolhos ornam o jardim.

Depois Mr. Simon nos conduziu a um Memorial, dos mais tocantes e bem feitos que já vi. É o Hector Pieterson Memorial, na Khumalo Street. Hector Pieterson foi a primeira criança a morrer no dia 16 de junho de 1976, numa esquina que se avista do Memorial. A foto de seu corpo agonizante e baleado, nos braços de um outro jovem negro que corria desesperado, ao lado da irmã de Hector com o rosto contorcido pela dor e pela angústia diante do irmão ensangüentado, correu mundo naquela época.

Hector e centenas de estudantes estavam concentrados naquele 16 de junho para se juntarem a outros milhares e marcharem até a coordenação de ensino da região. Protestavam contra a obrigatoriedade, introduzida naquele ano, de estudarem em afrikaaner, a língua dos brancos locais, e não em inglês, como faziam até então. As escolas sul-africanas até hoje são muito competitivas, e naquele ano a nova medida provocou uma queda geral no rendimento dos estudantes.

Uma tropa de soldados e policiais enviada para contê-los, se viu envolvida pela massa de jovens, que começaram a apedreja-los e a gritar palavras de ordem. Até hoje não se sabe muito bem como saiu o primeiro tiro.

Um policial de má fama, Rooi Rus, codinome de Thems Swanepoll, morto em 1998 de câncer, reivindicou para si a ¿glória¿ de ter dado essa ordem. Mas atenção: pode ser uma bravata, pois essa reivindicação, diante dos mentores do apartheid, podia render pontos, favores e recompensas. Rooi Rus era conhecido torturador nas prisões de Joanesburgo e, em todo caso, se não deu, era capaz de dar uma ordem dessas.

O oficial comandante do destacamento depôs em inquérito posterior que a ordem não partira dele, e que ordem não houvera, o que pode levar à suposição de que algum ou alguns soldados, pressionados e despreparados para enfrentar a situação, achando que iam apenas enfrentar um bando de jovens e não o resultado de séculos de desigualdade e opressão inomináveis, tenham começado a atirar.

O primeiro atingido foi Hector, que caiu, ainda vivo, diante dos olhos aterrorizados de sua irmã, Antoinette Sithole. Um jovem mais velho, Mbuyisa Makhubo, que por ali passava, juntou o corpo e correu com ele mais Antoinette a seu lado em direção a uns carros. Um deles, de uma jornalista, abriu a porta para acolher o corpo e leva-lo a uma clínica próxima, onde o jovem já chegou sem vida. Antes disso, o fotógrafo Sam Nzima, do jornal The World, único que estava próximo, bateu a famosa foto que correu o mundo, testemunha de acusação contra um dos regimes mais brutais que a história já conheceu.

O que se seguiu foi horripilante. A tragédia de Hector só fez aumentar os protestos em Soweto e a repressão foi brutal e implacável. Não só houve uma repressão por parte de destacamentos abertamente enviados, e que passaram a recorrer sistematicamente às armas de fogo. Policiais, sem medo de serem fotografados, tal era a sensação de impunidade real, passaram a percorrer o bairro dentro de carros, atirando a esmo, mas sempre para matar, e visando especialmente os jovens.

Os protestos e a matança duraram três dias, e se estenderam por várias outras comunidades negras do país. Ao fim, só em Soweto havia cerca de 600 mortos, todos negros e quase todos jovens secundaristas. No total, mais de um milhar de mortos, ninguém sabe ao certo.

O fotógrafo Sam Nzima passou a ser vigiado e perseguido pela polícia do regime sul-africano. O jornal para que trabalhava, The World, foi fechado alguns meses depois. Nzima refugiou-se em territórios rurais ao norte da África do Sul, onde vive até hoje. Somente depois do fim do apartheid, em 1996, quando uma nova rede de imprensa comprou o espólio do The World e de outros jornais, é que teve reconhecidos os direitos autorais de suas fotos.

O jovem Mbuyisa Makhubo, que carregou o corpo ferido e depois morto de Hector, também foi perseguido pela polícia. Fugiu primeiro para Botswana, depois para a Nigéria, onde foi visto pela última vez. Sua mãe disse que ele desapareceu. É possível (penso eu) que viva incógnito, de nome trocado.

A jovem Antoinette mora em Soweto, onde trabalha em organização humanitária.

Tudo isso o Memorial evoca, em painéis e vídeos da época, e muito mais. Toda a história do apartheid e de Soweto é ali evocada, com uma simplicidade que só uma grande concepção arquitetônica e histórica pôde conceber. Ao final da visita há uma espécie de ¿jardim¿ interno, espaçoso e todo envidraçado. Mas é um jardim especial. O chão é dessas pedrinhas de construção, que servem para fazer a massa de cimento que faz o piso intermediário das estradas. E sobre elas estão jogados pequenos tijolos de granito vermelho, com o nome das vítimas e as variadas datas de nascimento, que contrastam com as poucas datas de morte: 16, 17, 18 de junho de 1976.

Além do belo e anti-retórico Memorial, Mr. Simon, nosso chofer, também ajudou a rememorar aqueles acontecimentos. Ele tinha 19 anos na época (Hector tinha 12) e estava nas marchas. Foi preso com milhares de outros jovens e militantes, interrogado, espancado, mantido por algum tempo numa solitária e depois solto sem maiores explicações. Contou-nos que depois do fim do apartheid muitos dos policiais que participaram daquela matança procuraram bispos e padres para se confessar e reconhecer as atrocidades cometidas.

Com esta menção à memória daqueles jovens que, como tantos outros, devem ser lembrados não como vítimas inermes, mas como combatentes da liberdade, encerro estas crônicas da visita à África realizada pela equipe da Carta Maior em janeiro de 2007, para a cobertura do VII Fórum Social Mundial.






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