Colunista
06/02/2009 - Copyleft

Dentro da noite veloz: um balanço do FSM de Belém



A relevância de se realizar um Fórum Social na Amazônia

Sendo uma das mais importantes metrópoles da Pan-Amazônia, Belém se despontou como um lugar estratégico para a realização da IXª edição do Fórum Social Mundial, a Amazônia e a questão ecológica devendo se encontrar no centro dos debates, ao lado de outras questões na ordem do dia, como a crise da economia mundial, a posse de Obama, os massacres de Gaza e os 25 anos do MST. A intenção primeira era chamar a atenção do mundo para a importância da maior floresta do planeta, contendo a maior biodiversidade existente, para o equilíbrio da Terra. Significativamente, a Amazônia lança diariamente na atmosfera cerca de 20 bilhões de toneladas de água em forma de vapor.

Tratava-se também de colocar em evidência que a Amazônia que vemos hoje é longe de ser uma floresta homogênea, um espaço desocupado, uma mata virgem, mas que ao contrário é resultado de séculos de intervenção social. Ali viveram, de maneira exemplarmente sustentável e harmoniosa, sociedades agrícolas, proto-Estados com sofisticada rede de comércio com os Andes e a Meso-América. Ao que parece, também foi palco de um vasto império tupi-guarani, que se alastrava do Equador ao Paraguai. No espírito do FSM, um pouco da incrível diversidade humana e cultural da região pôde ser apreciado na ¿cidade morena¿, como também é conhecida Belém: índios de 46 etnias participaram do evento, propondo atividades ligadas às suas culturas e interagindo com a juventude vinda de 142 países para pensar coletivamente a construção de um outro mundo.

Apesar da grande diversidade de assuntos abordados e discutidos no Fórum, um consenso parecia atravessar a maior parte das discussões: a grande crise financeira que se abateu sobre o mundo deve ser pensada conjuntamente às crises energética, climática e alimentar. Tratar-se-ia antes de tudo de uma crise de sustentabilidade, que refletiria a crise terminal à qual chegou a civilização burguesa. Hoje já consumimos 30% a mais do que o planeta é capaz de suprir. Com muito custo começamos a entender que a Terra não é algo inerte, com recursos ilimitados, mas algo vivo, que reage, muitas vezes de forma violenta, à prolongada intervenção predatória em larga escala.

Nesse contexto, a noção de ¿desenvolvimento sustentável¿ é um descabimento. Como lembrou Leonardo Boff, trata-se de uma trampa, um engodo do sistema, que se reapropria do discurso ecológico para continuar sua expansão devastadora. Na verdade, a ideia de desenvolvimento, sustentável ou não, é em si mesma um engodo, pois supõe um quadro de normalidade capitalista que não resiste à menor confrontação com a realidade. Com efeito, o que dizer da barbaridade em que se transformaram as sociedades chinesa e indiana, essas máquinas infernais de crescimento rápido através da exploração máxima de recursos naturais e mão-de-obra barata?

O problema não é o consumo, mas a produção
¿Não podemos consumir os recursos do mundo sem considerar os efeitos¿, disse Obama no discurso de posse. Não obstante, afirmava no mesmo discurso: ¿Não vamos nos desculpar por nosso modo de vida, nem vamos esmorecer em sua defesa¿. Traduzindo: as mais de 700 bases militares estadunidenses implantadas mundo afora continuarão a garantir o modo de vida individualista e ultraconsumista que é marca dos EUA e pobre de quem discorde. Tal contradição no discurso do novo presidente estadunidense coloca em evidência que o que falta não é só ¿consciência e vontade política¿, como afirma um dos organizadores do FSM. Tome-se como exemplo a questão ecológica. Há três décadas se chama a atenção para os perigos do aquecimento global e da depredação sistemática da natureza; há três décadas se sabe que uma hora ou outra os recursos terrestres chegariam ao fim e a capacidade do planeta de se regenerar também se esgotaria. E no entanto, o que foi feito a respeito? De significante, nada.

Achar que a tomada de consciência, a mudança de ótica e de modo de vida bastem para se mudar o curso desastroso do mundo é sintomático de um ponto cego da crítica altermundialista. Melhor dizendo, em sociedades esclarecidas os modos de funcionamento da ideologia mudam de figura; não é mais questão de falsa consciência como nos tempos de Marx, mas, como dizia Althusser, da repetição de rituais materiais: sabemos o que fazemos e no entanto continuamos a fazê-lo. Numa palavra: a ilusão ideológica se dá no nível do fazer, não do saber. Nesse sentido, faltam à crítica altermundialista análises consistentes das disposições subjetivas, da dinâmica conflitual dos processos de socialização do desejo no interior das mais diversas esferas de interação, no interior da estrutura familiar patriarcal em vias de desintegração, das instituições educacionais completamente voltadas para o mercado e por isso mesmo degradadas, do destroçado mundo do trabalho, dos complexos industriais de divertimento dirigido, do aparato de controle político-econômico... Salvo engano, nos anos 50 e 60 estávamos relativamente mais avançados nesses quesitos; pelo menos a questão se punha de forma articulada com uma reflexão sobre a práxis de transformação social.

Não se trata aqui de ressuscitar velhas fórmulas, mas de sublinhar que hoje a lógica de reprodução mercantil do capital, que procura alimentar o fluxo contínuo de equivalências em campos sociais cada vez mais ampliados, tem por elemento central a incitação contínua ao gozo. Filósofos como Slavoj ¿i¿ek e Vladimir Safatle vêm colocando em evidência o fato de que o atual imperativo superegóico ao puro gozo, vazio que é de determinações ou conteúdos normativos privilegiados, faz com que possa ser realizado pelos sujeitos no mau infinito do consumo ilimitado dos objetos. A sociedade da mercadoria tem de apresentar continuamente novas determinações nas quais a obsolescência veloz seja programada, pouco importando o conteúdo das mesmas. Numa sociedade onde tudo tem caráter descartável, provisório e flexível, mesmo as identidades e as promessas de gozo veiculadas pela indústria do entretenimento, a própria insatisfação se torna mercadoria, como já havia notado Guy Debord.

Na situação histórica atual, a ideologia se tornou reflexiva, os modos de vida foram ironizados, de sorte que os sujeitos pós-modernos, embora estejam relativamente cientes dos motores ideológicos de seu agir, não acham para tanto necessário modificar ou reorientar sua conduta. O sujeito sabe muito bem que o tênis Nike que está comprando no valor de um salário mínimo é produzido por crianças de doze anos que trabalham por salários de miséria em condições das mais precárias na Indonésia; também não ignora ser falsa a imagem veiculada pela propaganda publicitária, imagem de felicidade e beleza associada à compra do tênis. Nada disso no entanto o impede de comprar o mesmo e de gozar momentaneamente da ilusão, posta como tal, do estilo de vida associado à marca que consome.

A questão por conseguinte é menos de conscientização para a redução do consumo, embora essa não seja de todo irrelevante, que de intervenção coletiva direta nos rumos e determinações da produção.

Balanço crítico de uma década de crítica altermundialista
Nossa moral está alta porque tínhamos razão? Provamos ao mundo que Davos se enganara (e nos enganara) durante todo esse tempo? Não é para tanto. Para começar, ninguém era bobo a ponto de ignorar o caráter altamente destrutivo da livre circulação de capitais num mundo essencialmente assimétrico, o que não impedia que os agentes de mercado mantivessem todo o tempo os olhos fixos nos monitores ¿ veja-se também por aí o quanto a ilusão ideológica é menos a adesão a uma doutrina qualquer que a repetição prática de um ritual. No que concerne ao povo de Porto Alegre, a compreensão insuficiente da lógica do capital, somada ao desconhecimento patente de seus ciclos históricos desde o século XVI, constituíram desde o início um outro ponto cego da crítica altermundialista. Vem daí sua dificuldade de compreender a crise atual. Criticava-se não sem razão o monstro neoliberal, que nada mais é do que uma das expressões políticas mais acabadas da sociedade da mercadoria. Mas o que fazer agora, quando a ¿economia do antigo vodu¿, como a nomeou Paul Krugman, economia que acreditava na magia da redução de taxas e cultuava a oferta e a liberdade de investimento, foi subitamente banida do discurso dominante?

Há que se reconhecer: a crítica altermundialista foi até aqui mais reativa que ativamente crítica. Gritava-se com grande indignação em manifestações anti-G8 ou anti-OMC: ¿O mundo não é uma mercadoria!¿, mas não se entendia que o devir mundo da mercadoria, inscrito na lógica do capital, que supõe a auto-expansão ilimitada do mesmo, não era outra coisa que o devir mercadoria do mundo. Passou-se dez anos na defesa de uma regulação do sistema através da tributação mínima do fluxo de capitais internacionais a fim de frear o capital especulativo e relançar o investimento do capital produtivo. Em suma: sonhava-se com um capitalismo com rosto humano, além de ecológico, pois também o Protocolo de Kyoto deveria ser respeitado. Tendo este último se tornado uma bolsa de valores do ar e o rosto humano do capitalismo se mostrado uma impossibilidade objetiva, ficou-se sem o que dizer. O próprio FSM estava em vias de se transformar em mercadoria. Como colocou Luiz Hernandez Navarro: ¿Depois de Nairóbi, em que até empresas privadas financiaram o Fórum, teve quem falasse de que a frase ¿outro mundo é possível¿ deveria ser trocada para ¿outro turismo é possível¿. Não estou exagerando. Dava impressão de que o modelo nascido em Porto Alegre encontrava seu esgotamento.¿

Críticas a parte, e a despeito da grande desorganização do evento sediado em Belém, o saldo final me pareceu ¿positivo¿. Como lembrou ainda Navarro, o FSM segue sendo a única organização multissetorial internacional com um projeto alternativo emergente. Isso não é de se menosprezar. Em relação às primeiras edições, este foi marcado por uma maior radicalidade e contundência nas análises, uma maior articulação entre movimentos e também por um senso de urgência que não estava tão presente há oito anos atrás: a definição de estratégias de luta social e política para a superação da sociedade do capital se fez mais premente que em anos anteriores. A convicção de fundo, que enfim veio à tona, é que não se trata mais de salvar o sistema, mas de resolver os problemas da humanidade, que chegou a um impasse: ou se coordenam forças para sairmos do buraco no qual nos meteu a lógica destruidora capital, ou possivelmente não passaremos deste século. ¿A solução¿, conclui Michael Löwy, ¿não é uma versão mais verde, mais civilizada, mais ética e regulada do modo de produção capitalista¿. E completa: ¿Nós temos que pensar em uma alternativa revolucionária¿.

Se considerarmos as manifestações de Seattle o momento em que se aglutinaram forças antes dispersas, momento a partir do qual o movimento altermundialista começou a ter maior visibilidade e influência social, é preciso salientar que desde então se deu uma extraordinária politização dos movimentos sociais. Antes de Seattle, cada qual no seu canto, ativistas ecológicos lutavam para salvar focas e baleias enquanto que feministas lutavam por salários iguais para trabalhos iguais, e tudo se passava como se lutas em aparência tão díspares não poderiam se concertar em torno de objetivos comuns. Dez anos passados, em nossos dias não é mais possível denunciar a extinção de uma espécie sem se referir à voracidade do capital, que tudo destrói em seu processo de auto-reprodução. Do mesmo modo, nos anos 80 e 90 jamais se ouviria, como se ouviu na marcha de abertura do FSM em Belém, feministas cantando: ¿capitalismo / não quero, não / meu feminismo / é pra revolução¿. Ou seja, hoje compreende-se melhor o significado da relação de gêneros no sistema patriarcal de produção mercantil, ou por outra, o fato da construção social dos gêneros ser dependente da lógica econômica da valorização do capital, o que implica que a superação da socialização estabelecida pelo vínculo de capitalismo e patriarcado seja indissociável da superação da própria sociedade capitalista.

Para além do capitalismo
O capitalismo é a única formação social na qual o valor econômico e suas formas derivadas (Estado burguês, mercadoria, trabalho, dinheiro, propriedade) se tornam formas fundamentais que condicionam diretamente as relações sociais. O predomínio de tais formas sociais fetichizadas implica a ignorância quase completa da sensibilidade social, vale dizer, das qualidades individuais, das necessidades sociais concretas e das condições humanas de sociabilidade. A atual crise mundial da valorização, ou seja, como lembrou Chico de Oliveira numa entrevista recente, a impossibilidade crescente do sistema em realizar a mais-valia, é vivida pela sociedade como uma crise de sua própria capacidade de socialização.

Não parece restar dúvidas quanto ao fato de que, senão por outras razões, pelo menos por causa dos perigos iminentes ligados à ecologia da Terra, isto é, à destruição intensiva e desenfreada do planeta (secas, aquecimento climático, aumento do nível dos mares, esgotamento dos recursos vitais), à ecologia das cidades (explosão urbana, megacidades superpopuladas à beira da anomia social, favelização do mundo, segregação) e à ecologia dos sujeitos (narcisismo coletivo, individualismo, cultura do medo e da desconfiança generalizada, depressão, ansiedade, anorexia, paranóia, perversões diversas), a questão da superação do capital e de suas formas fetichizadas será a questão mais importante do século. Quando se diz, na esteira de Walter Benjamin, que o capitalismo não morrerá de morte natural, o que está implicado na afirmação é o fato dos limites do capital serem externos: tanto objetivos (ou sócio-ecológicos) como subjetivos (ou psicossomáticos).

As premissas com as quais deve trabalhar a perspectiva da transformação social são as seguintes: a humanidade atingiu um nível de conhecimentos e de meios técnicos que tornam possível a construção coletiva direta de todos os aspectos de uma existência afetiva e prática emancipada; o não emprego destes meios superiores de ação na construção de uma sociedade livre, de indivíduos conscientes e sujeitos de seu próprio movimento social, se deve aos imperativos irracionais da economia capitalista, atualmente global, assim como à ausência aparente de forças emancipatórias que, imanentes ao sistema, apontem para além dele.

É preciso notar ainda que a racionalização da sociedade da mercadoria é, e sempre foi, uma racionalização insuficiente, pois que determinada de cabo a rabo por uma finalidade irracional e externa: a acumulação ilimitada de capital com o único objetivo de se acumular sempre e cada vez mais capital. A dinâmica expansiva do capitalismo histórico reduziu a razão a uma pura instrumentalidade, tornou-a indiferente às finalidades humanas e aos conteúdos sensíveis. Donde a necessidade de opor a esta razão instrumental uma contra-razão, atenta ao conteúdo, uma razão a um tempo social e ecológica, em função da qual, numa sociedade pós-capitalista, se determinaria conscientemente e de forma democrática a utilização das forças sociais produtivas, dos recursos vitais e da riqueza socialmente produzida pelo conhecimento humano, em vez de abandoná-los sem mais nem menos ao processo cego da maquinaria social capitalista. Se não compreendermos a superação da sociedade atual como um imperativo histórico, envelheceremos mais uma geração e aí talvez já será tarde demais para o que quer que seja.

A legitimação ética e estética da nova sociedade tem que se fundar sobre um considerável melhoramento da qualidade de vida, que se mede por ¿valores de uso¿ não capitalistas, como moradia, saúde, alimentação de qualidade, educação formadora, tempo social disponível para a cultura dos lazeres, espaços públicos diversificados... Esperemos que o FSM se firme como um espaço no seio do qual mulheres e homens de todas as partes do mundo possam dar uma expressão política a seus interesses, aspirações existenciais profundas e potenciais humanos rebeldes.