Colunista
02/11/2013 - Copyleft

Direita e Esquerda: razões e confusões (2)

A pesquisa do Instituto Datafolha para saber se os brasileiros são de direita e esquerda mostra uma grande confusão. Não dos brasileiros, mas do Instituto.



A pesquisa mais recente do Datafolha (11/10) carimbou os brasileiros como sendo de direita ou esquerda conforme um cardápio de convicções morais e religiosas, misturadas com opiniões pontuais sobre questões como porte de armas. A pesquisa é inconsistente, disparatada e de conclusões obtusas - isso para dizer o mínimo. O DataFolha afrontou um dos requisitos mínimos de uma pesquisa de opinião: respeitar o bom senso.

Segundo o Instituto, se a pessoa é a favor do aborto, respeita a orientação homossexual e apoia a proibição das armas de fogo, é de esquerda. Se é contra todas essas coisas, vai pender para a direita. Quem é a favor da pena de morte estaria próximo da direita. Quem é contra, estaria mais para o lado da esquerda. Se a pessoa mistura um pouco de cada, o DataFolha dá um jeito de transformá-la em uma pessoa de centro. Por sua vez, há a centro-esquerda, a centro-direita e o centro-centro (parece que finalmente conseguiram encontrar o “extremo centro”).

A esquerda teria, supostamente, por volta de 4% de preferência. A direita, 11%. O centro é a esmagadora maioria, com 85%. Mas, com uma mãozinha milagrosa, o Datafolha faz um gol de Maradona e coloca quase metade dos brasileiros como sendo de direita. Funciona assim: se a pessoa é de centro-direita ou de centro-esquerda, imediatamente é classificada, respectivamente, como de direita ou de esquerda.

Portanto, se você por acaso não acredita em Deus, mas defende o porte de armas, o Datafolha poderá dar um jeito de fazer você acreditar que ser religioso é uma boa. Se você é contra a redução da maioridade penal, mas a favor da posse de armas e contra o aborto, tanto faz se você é a favor ou contra mandar adolescentes para a cadeia Entendeu? Se não entendeu, parabéns, seu bom senso continua melhor que o do Datafolha.

Vamos aplicar os “critérios” do Datafolha ao Partido Conservador Britânico, que assumiu a defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo, alegando que isso reforça uma tradição (o casamento). Como eles também foram os responsáveis pelo Ato das Armas de Fogo (“Firearms  Act”), de 1988, e por uma outra regulamentação ainda mais dura contra o comércio de armas, em 1997, os Conservadores do primeiro-ministro David Cameron acabam de sair da centro-direita, passando para a centro-esquerda, o que automaticamente os fez cruzar o campo para cair na extrema esquerda. Uau! É o que o ex-técnico do Flamengo e da Seleção Brasileira de Futebol, Cláudio Coutinho, chamava de “overlapping”.

No caldeirão do Datafolha, convicção vira confusão. A questão da pena de morte não é e nunca foi distintiva de uma clivagem entre esquerda e direita. Os revolucionários franceses, com sua célebre criação, a guilhotina, que o digam. Da mesma forma, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há homossexuais de direita, de esquerda e de centro. Há pessoas de direita contrárias à pena de morte. Há pessoas de esquerda contrárias o aborto, por conta de razões religiosas.

Boa parte dessas convicções são fruto não de uma definição alcançada pelo debate político, mas, em geral, são temas-tabu, sobre os quais o debate político tem extrema dificuldade de reposicioná-los como questões de políticas públicas.

A pesquisa do Datafolha mede muitas coisas, mas não tem nada a ver com direita e esquerda. Seus “critérios” são pra lá de arbitrários, sem qualquer explicação maior de por que razão eles seriam uma boa medida para distinguir quem é de direita e quem é de esquerda. Em um rodapé, se faz referência à pesquisa do Pew Research Center, o que complica ainda mais as coisas.

Primeiro, porque o DataFolha se contradiz. Está dito que a pesquisa é de uma “escala de comportamento político elaborado pelo Datafolha” (conforme a Folha de S. Paulo, “Ideologia interfere pouco na decisão de voto”, 14/10/2013). Em segundo lugar, porque o DataFolha sabe e confessa que a Pew Research não lida com conceitos de direita e esquerda, e sim de liberais, conservadores e moderados, e o faz, décadas a fio, situando a posição dos eleitores em relação a temas centrais que estão no cerne da divergência entre os partidos Democrata e Republicano.

Tais temas mudam, ao longo do tempo, e as pesquisas servem tanto para aferir as posições majoritárias quanto a correspondência entre as percepções do eleitorado de um partido e as posições que esse partido assume no Congresso ou na Presidência da República. O Pew Research chega a esmiuçar nove grupos politicos diferentes, com posições bastante peculiares. O instituto norte-americano ressalta sempre e insiste que o mais importante é enxergar essa diversidade e aferir opiniões muito específicas, mais do que associar isso a grandes blocos ideológicos. Por uma simples razão: a opinião pública é muito fluida em relação a vários desses temas. Juntar tudo em um único saco, nem pensar.

Portanto, o Datafolha não apresenta uma única linha que sirva para discernir se os brasileiros são de esquerda, de direita ou de centro, pois as perguntas não compõem um conjunto coerente que diga respeito ao cerne do debate entre direita e esquerda, seja no Brasil, seja na Conchinchina.

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