Colunista
19/11/2002 - Copyleft

Em busca de uma nova linguagem para a ação política



Era uma vez, na cidade de Bolonha, um grupo de jovens escritores italianos que gostavam de contar histórias. Na primavera de 1994, eles deram um nome ao grupo: Luther Blissett, um bandido virtual imaginário. Na verdade, queriam mais do que contar histórias. Queriam criar uma nova forma de contá-las. Uma forma baseada na produção de mitos e símbolos, a partir do imaginário popular e da história de sua comunidade. Mas não se tratava apenas de um experimentalismo estético. Eles estavam interessados em questionar princípios básicos da indústria cultural contemporânea (como o da propriedade intelectual) e da linguagem política utilizada pela esquerda oficial italiana.


A experiência de Luther Blissett foi bem sucedida e deu origem a um novo projeto, o Wu Ming, um coletivo literário que acredita que o rosto da revolução é o da multidão e sua história vivida. Um dos criadores desses projetos esteve em Porto Alegre, no início de novembro, para debater as idéias de Wu Ming. Em entrevista à Agência Carta Maior, Roberto Bui falou sobre a origem do movimento que pretende, entre outras coisas, desenvolver uma nova linguagem para a ação política. Suas inspirações vão do subcomandante Marcos, passando pelo escritor norte americano James Elrroy e chegando à filosofia de Spinoza. Recusando o experimentalismo narrativo como uma prática solipsista, desvinculada da práxis política, os integrantes do coletivo Wu Ming acreditam que lutar por transformações sociais não é um luxo estético.


Uma revolução sem rosto


O coletivo Wu Ming diz a que veio numa declaração datada de janeiro de 2000. Neste texto, disponível em português no site do projeto (www.wumingfoundation.com), são apresentados os princípios e regras de trabalho adotados pelos integrantes do coletivo. Wu Ming se auto-define como um laboratório de design literário, que trabalha com os mais variados meios de comunicação, como uma empresa independente de serviços narrativos. Os fundadores de Wu Ming são Roberto Bui, Giovanni Cattabriga, Luca Di Meo, Federico Guglielmi (membros do Projeto Luther Blissett ¿ 1994/1999 - e autores do romance Q ¿ O Caçador de Hereges - publicado no Brasil pela editora Conrad) e Riccardo Pedrini (autor do romance Libera Baku Ora). Os nomes individuais têm pouca importância. Os textos são sempre assinados pela marca Wu Ming, que, em chinês, significa ¿nenhum nome¿, uma expressão freqüentemente utilizada para identificar publicações dissidentes.


O nome dá conta da intenção dos integrantes do coletivo de não se tornarem ¿personagens¿, ¿romancistas pacificados¿ ou ¿macacos amestrados por prêmios literários¿. A linha editorial do Wu Ming é: ¿estar presente, mas não aparecer; transparência para com os leitores, opacidade para com os meios de comunicação¿. Os integrantes do projeto ¿sujam as mãos¿ com atividades de promoção (entrevistas, apresentações públicas de livros, etc.), sem com isso degenerar no ¿culto da personagem¿. Eles recusam aparecer individualmente em filmagens ou fotografias, preferindo a difusão ou publicação do seu logotipo oficial, composto por dois ideogramas chineses.


A aproximação de Wu Ming à produção cultural implica a recusa sistemática de todas o princípios ligados ao ideal romântico do gênio e da inspiração individual. Wu Ming recusa também o princípio do copyright. Não acredita na propriedade privada das idéias. Na entrevista à Carta Maior, Roberto Bui aprofundou algumas das principais idéias desse projeto que vem estabelecendo importantes parcerias com os movimentos sociais europeus que lutam contra o modelo neoliberal de globalização.


Em busca de uma nova linguagem


Carta Maior: Como nasceu o projeto Wu Ming e qual sua relação com o experimento anterior, Luther Blissett?


Roberto Bui: ¿No início do nosso experimento, com o Projeto Luther Blissett, nos concentramos na criação de uma linguagem icônica, imagética e narrativa. Para nós, a linguagem política corrente, do tipo lógico-referencial e propagandística, está baseada em um modelo fossilizado e ineficaz, que não comunica paixões, emoções e sentimentos. Não comunica a idéia de uma comunidade ativa, de uma comunidade que vive experiências e que tem uma percepção de sua própria identidade como comunidade. Nós acreditamos que o que mantém uma comunidade unida e coesa é a sua própria história, da qual essa comunidade se dá conta. Assim, no interior do nosso projeto, concentramos nossas energias na criação de uma linguagem baseada na narração de histórias. No ano anterior à escritura do romance ¿Q ¿ O Caçador de Hereges¿, criamos a narração das aventuras de um bandido virtual imaginário, Luther Blissett, como uma experimentação sobre o ato de narrar, de contar histórias.


A partir daí, essa linguagem começou a influenciar outros movimentos culturais e sociais na Itália, o que nos levou a aperfeiçoar nossa proposta lingüística, escrevendo um romance e construindo mitologias que pudessem ser utilizadas pelos movimentos que nos circundavam. Um exemplo disso foi a proclamação da multidão da Europa, uma espécie de poema de cordel, sobre as revoltas camponesas no continente, estabelecendo uma linha de continuidade entre insurreições do passado e a luta atual dos movimentos sociais. Essa proposta teve muita influência na preparação da mobilização de Gênova, em junho de 2001.
Prosseguimos nossa atividade de escritores, escrevendo outros romances, mas continuamos a experimentar a criação de mitos a partir do imaginário popular. Acreditamos que essa questão do imaginário é a mais importante para o progresso cultural e para a evolução das idéias. Um dos obstáculos para a realização desse trabalho é a questão da propriedade intelectual. Nós acreditamos na narração aberta, na comunicação contínua das idéias e da experiência. Nossos livros são livres de copyright, porque acreditamos que o copyright representa um limite ao progresso das idéias. A superstição da propriedade privada, no contexto da cultura de massa, representa, ao nosso ver, uma contradição em termos, pois se a cultura é de massa, a propriedade dessa cultura não pode ser privada...¿


Carta Maior: Vocês adotaram, então, o princípio do copyleft...


Roberto Bui: ¿Exatamente. Nossos livros são livremente reprodutíveis, utilizáveis e reutilizáveis. A idéia é manter permanentemente em movimento esse imaginário de conflitos.


Carta Maior: O projeto Luther Blissett, então, representou um primeiro passo nessa direção. Como se deu a passagem para o projeto Wu Ming?


Roberto Bui: Luther Blissett era uma narração indiscriminadamente aberta, que foi necessária durante a primeira etapa de nossa experimentação, durante cinco anos, de 1994 a 1999, para a produção de mitos, de lendas e do nosso imaginário. Mas, já a partir da publicação do nosso romance Q, na primavera de 1999, na Itália, começamos a pensar na idéia de uma oficina literária, de um laboratório artesanal literário, de um atelier de produção narrativa, onde pudéssemos construir mitos nessa dimensão artesanal da cultura. Percebemos a necessidade de desenvolver uma maior autodisciplina, um melhor método na construção de nossa história. Método como o que utiliza um carpinteiro para a construção de uma mesa. Uma série de técnicas, de conhecimentos e de práticas para investir em nossa produção e qualificá-la.


Isso tem a ver com o trabalho de produção de mitos. Acreditamos que, a partir da Internet e do desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação e de compartilhamento de informações, foi se constituindo uma dimensão produtiva mais comunitária, coletiva, horizontal e não-hierárquica. A cultura da era industrial era mais centralizada. Hoje, a indústria cultural está se disseminando, sobretudo no território urbano, de um modo muito mais horizontalizado, com uma relação mais flexível entre as pessoas. Isso é muito, muito semelhante, à cultura popular pré-industrial, uma cultura descentralizada, sem atribuição autoral rigorosa. Neste contexto, achamos que há uma tarefa muito semelhante àquela colocada para os artistas do período renascentista: encontrar uma linguagem que expresse a dimensão do imaginário que leve em conta essas transformações. Essa é uma das razões pelas quais, por exemplo, estamos muito interessados no fenômeno da literatura brasileira de cordel, uma manifestação de cultura popular horizontal, desde baixo, reticular e difusa.


A distinção entre povo e multidão


Carta Maior: Na declaração de princípios do projeto Wu Ming são citados dois autores como fonte de inspiração dessa busca por uma nova linguagem narrativa: o escritor norte-americano James Elrroy e o filósofo italiano Antônio Negri. Você poderia explicar as razões dessas escolhas?


Roberto Bui: Sim. James Elrroy é a principal referência do nosso trabalho como escritores. Ele é o escritor contemporâneo que manipula a história de modo mais radical. Seu livro American Tabloid, publicado em 1995, teve muita influência sobre nosso trabalho. Esse livro conta uma parte da história dos Estados Unidos, alguns anos antes do assassinato de Kennedy. Ele trabalha, sobretudo, a partir de fontes jornalísticas, retiradas de sua coleção de jornais da época, de uma maneira muito pontual e frutífera, mesclando verdade e ficção de uma maneira indistinguível. Em nosso romance Q, todos os eventos e personagens são reais. O elemento arbitrário, de invenção literária, é a interconexão entre eventos e personagens. Por exemplo, o protagonista de nosso romance não tem um nome próprio; ele muda de nome praticamente a cada capítulo. Ele adota várias identidades e cada identidade que adota são nomes reais. A invenção literária é que todos esses nomes são, na verdade, uma só pessoa. Esse é o elemento arbitrário que introduzimos na obra. É uma operação claramente inspirada no romance de Elroy.


A referência filosófica ao conceito de multidão, trabalhado por Antonio Negri, vem de Spinoza. Negri é um dos principais estudiosos contemporâneos da obra de Spinoza. Spinoza trabalha com a dicotomia entre ¿povo¿ e ¿multidão¿. Para ele, ¿povo¿ é um todo único, uma massa homogênea, que encontra sua representação política no Estado. Há uma relação dialética muito clara e precisa entre povo e Estado. A ¿multidão¿, por sua vez, é uma união diferenciada e heterogênea entre singularidades, que mantém sua singularidade mesmo constituindo uma unidade. A massa (o povo) são todas as pessoas que formam um bloco indiferenciado, enquanto a multidão representa uma união de singularidades diferentes.


Na guerra civil européia do século XVII, estudiosos políticos da época, contrapunham essas duas noções. Na ideologia dessa época, saiu vitorioso o conceito de ¿povo¿. Hoje conhecemos muito melhor o conceito de povo. Mas, houve também uma evolução alternativa do conceito de ¿multidão¿, cujo potencial emerge hoje, por exemplo, no desenvolvimento das redes telemáticas na Internet. Temos uma comunidade formada por uma multiplicidade de pessoas, que não ocupam o mesmo território, que vivem em condições completamente diferentes, e que, no entanto, cooperam, colaboram e constroem uma comunidade, sem renunciar às suas diferenças e singularidades.


Em nosso romance Q, o protagonista real é a multidão. Há mais de cem personagens que não são secundários. Não é o esquema clássico, onde há o protagonista e personagens secundários. Para nós, os personagens secundários são o verdadeiro protagonista. Eles formam uma multidão de histórias, de experiências e de trajetórias que representam a verdadeira estrutura de nosso romance. Ou seja, o verdadeiro personagem é a multidão.


Carta Maior: Alguma outra inspiração?


Roberto Bui: Nossa maior inspiração simbólica e alegórica vem do processo de produção dos poemas épicos antigos. Quando falo de poema épico, estou falando de Homero, da Bíblia, do Mahabarata, dos Vedas, ou seja, de textos escritos por uma comunidade inteira, sem uma atribuição autoral definida. São coleções de lendas e mitos muito antigos, reelaborados e sintetizados. Não sabemos, por exemplo, quem escreveu a Bíblia. Muito provavelmente, cada livro da Bíblia foi escrito por uma ou mais pessoas, filtrando e sintetizando conhecimentos e histórias já existentes. A Bíblia, pelo que sabemos, é uma criação de uma gigantesca comunidade que se estende no espaço e no tempo.


Acreditamos que a produção multimídia da época da Internet é muito semelhante a esse tipo de imaginário e de aproximação. A Ilíada e a Odisséia são casos semelhantes. Alguns filólogos colocam em questão a própria existência de Homero, que seria, na verdade, um pseudônimo usado por diversas pessoas. Mas, mesmo que ele tenha existido de fato, o que fez foi ter sintetizado uma série de lendas, mitos e histórias de heróis, de uma região do Mediterrâneo. Ou seja, a Ilíada e a Odisséia são o resultado do trabalho de uma comunidade de pessoas que vivia no mundo grego antigo.


Nós acreditamos que a cultura que está se desenvolvendo hoje, graças às novas tecnologias, é mais semelhante à cultura que produziu a Ilíada, a Odisséia, a Bíblia, etc., que à cultura industrial do século XX, descrita criticamente pela Escola de Frankfurt. Acreditamos que estamos assistindo à uma radical mudança de fase na produção cultural, tão importante quanto aquela que se seguiu à invenção da imprensa por Gutenberg. De modo alegórico, poderíamos dizer que o nascimento da Internet é similar, em seu impacto e significado, à invenção da imprensa.


Carta Maior: Os textos produzidos pelo coletivo Wu Ming têm a pretensão de fazer algum tipo de propaganda política?


Roberto Bui: É importante precisar uma coisa. Nossos romances são romances. Ou seja, para lê-los e compreendê-los não é necessário, absolutamente, conhecer o background metodológico que anima sua construção. Nossos romances podem ser lidos de modo autônomo, sem que o leitor precise conhecer o que pensamos sobre a propriedade intelectual ou sobre a distinção entre povo e multidão. Na Itália, Q vendeu mais de duzentas mil cópias porque muitas pessoas se interessaram pelo livro sem se interessar profundamente por nossa teoria ou por nossa metodologia. Não queremos que nossos livros sejam conhecidos como obras de propaganda, manifestos políticos ou algo do gênero. Escrevemos romances de aventura que têm uma dimensão de entretenimento. As pessoas podem ler nossos livros tranqüilamente, sem se interessar por tudo aquilo que estamos falando aqui. É uma transformação radical da produção e da circulação da cultura.


Carta Maior: Você tem conhecimento de outras experiências semelhantes a esta que Wu Ming vem realizando na Itália?


Roberto Bui: Na Itália e em outros países há coletivos que trabalham com produção poética coletiva. Mas, em se tratando de prosa, não conheço outra experiência similar. Na Antigüidade, provavelmente, era mais comum a criação coletiva de literatura, explicitamente coletiva. Espero muito da Internet. Acredito que pode surgir daí um movimento de criação literária coletiva. Potencialmente, a Internet favorece esse tipo de colaboração, esse tipo de método.


O mito romântico do gênio


Carta Maior: Para o Wu Ming, a criação individual é algo que deve ser superado?


Roberto Bui: Não. O que defendemos é que é preciso reconhecer que, mesmo a criação individual, tem uma dimensão coletiva. Não existe o gênio que trabalha sozinho em sua torre de marfim, isolado da sociedade, que cria obras-primas a partir do nada, do zero. Essa é uma superstição idealista-romântica. Os autores individuais vivem no mundo, sendo influenciados por milhares de sugestões, conversações e percepções que não são suas. Um autor é uma espécie de terminal que reduz criativamente uma complexidade de informações e de imagens, estabelecendo uma síntese provisória. Quando um escritor escreve, todo o mundo escreve com ele. Não somos contra o ato individual de escrever. Mas fazemos questão de dizer que quem escreve, sozinho, escreve junto com todo o mundo que o circunda. Esse é um obstáculo ideológico porque a indústria cultural tem necessidade de alimentar essa superstição do gênio, da inspiração individual. Tem a necessidade disso para organizar estratégias de marketing em torno de indivíduos, supostamente, de inteligência superior aos demais, de indivíduos a serem adorados. Essa é a finalidade da indústria cultural. O que combatemos é o culto autoritário do autor. Isso pode ser superado se compreendermos que, mesmo o autor singular, escreve coletivamente.


Os limites da linguagem da esquerda oficial na Europa


Carta Maior: Na sua palestra em Porto Alegre, você fez várias críticas à esquerda oficial italiana, repetindo críticas comuns a outros países da Europa, onde há uma crítica mais ou menos semelhante aos partidos tradicionais de esquerda. Seguindo o seu raciocínio, seria possível dizer que essa crítica é uma crítica ao tipo de linguagem adotado por esses partidos em sua comunicação com a sociedade?


Roberto Bui: Os partidos da esquerda oficial, na Europa, se comunicam de uma maneira completamente esclerosada e fossilizada, utilizando uma linguagem alienante. Na representação e no imaginário da esquerda oficial, há uma clara supervalorização do ¿povo¿ em detrimento da ¿multidão¿, nos termos da distinção que abordamos anteriormente. O problema da relação entre partidos e movimentos sociais é que os últimos são, por essência, expressões da multidão. Os movimentos sociais são prenhes de diferenças e de contradições, o que constitui justamente a sua riqueza. Ou seja, sua riqueza é seu caráter de multidão, onde há a convivência de muitas diferenças. Na lógica da esquerda oficial, a multidão deve ser reduzida à condição de povo, ou seja, deve ser homogeinizada, uma vez que a representação ideológica dessa esquerda é o Estado, são as eleições, a representação direta do povo no Estado (com a intermediação da esquerda oficial).


Nós não somos, por princípio, contra as eleições, contra a representação política. Mas a linguagem e o imaginário dos movimentos sociais são uma outra coisa. A complexidade desses movimentos não pode ser reduzida arbitrariamente, num movimento que pretende transformar a multidão em povo, impondo, para tanto, uma linguagem, um imaginário, uma forma de representação política. A esquerda oficial não compreende os movimentos sociais. Eles são uma espécie de extraterrestres para a esquerda oficial na Europa, que é uma esquerda muito velha e que não percebe o que há de inovador nesses movimentos. É uma esquerda aterrorizada pela diferença. Falo somente da Itália e da realidade européia que conheço. Não tenho condições de exprimir uma opinião sobre a realidade de outras partes do mundo, em relação às quais não tenho experiência direta. Não estou dizendo que toda a esquerda institucional é esclerosada. Mas posso dizer, com segurança que a esquerda institucional italiana está totalmente em crise e que uma das causas centrais desta crise é que ela perdeu a capacidade de se comunicar com a multidão.