Colunista
30/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
Elogio da resistência




Os 40 anos do golpe propiciaram um panorama ideológico variado, através da ótica retrospectiva de cada um. Olha-se para trás sempre a partir do presente, e muitas visões ¿ especialmente as dos que mudaram radicalmente de posição ¿ falam muito mais do que as pessoas são hoje do que do tempo a que pretendem se referir.


Um tema reiterado por alguns que foram militantes da resistência durante a ditadura é a negação do seu passado. De incendiários passaram a bombeiros, e agora renegam o que foi o momento mais generoso de suas vidas ¿ o da entrega militante a uma causa democrática do povo brasileiro. Tudo aquilo lhes aparece como uma ¿loucura de juventude¿, que ocultam dos filhos e netos ou a confessam como uma noite de farra qualquer, antes de chegar à ¿idade da razão¿.



Depois de venderem seus relatos para o cinema, de falsificarem a história para tentar aparecer protagonizando circunstâncias em que foram coadjuvantes, buscam projetar o ridículo sobre os militantes da resistência, caricaturizando a imagem dos que não renegaram o que fizeram. Sem sequer prestar homenagem aos que caíram heroicamente lutando contra a ditadura que ensangüentava o país, muitas vezes para permitir que vários desses cronistas pudessem estar vivos. Outros desertaram no primeiro dia do golpe, apesar de ocuparem cargos de liderança, e desde ontem conclamaram o povo à greve e à resistência, abandonada rapidamente por eles.



Uma parte da juventude e da militância daquela época, diante de uma ditadura militar que fechava todos os caminhos de resistência legal, ao não acreditar na frente política que reunia Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Juscelino Kubischek, se organizou para a luta. Em distintos grupos, buscaram a forma legitimada pela Declaração Internacional dos Direitos do Homem, que consagra o direito à rebelião contra as tiranias. Apelaram às armas, diante de um regime que havia, utilizando as armas compradas com dinheiro dos impostos cobrados do povo, se voltado contra um governo legalmente eleito pelo povo.



Conseguiram-se proezas notáveis, como o seqüestro do embaixador norte-americano, que libertou da tortura, da prisão e da morte várias pessoas ¿ como voltaria a ocorrer nos seqüestros posteriores ¿, obrigando a ditadura a romper a censura e a ler em cadeia de rádio e televisão o manifesto do comando da resistência. Conseguiu-se denunciar para o mundo as atrocidades cometidas pela ditadura, com seus métodos brutais, chamando a atenção para o que significava aquela cadeia de regimes do terror que tomaria conta do Cone Sul.



Hoje, tantos que apoiaram o golpe ficaram ao largo da heróica e bela resistência daquela militância. Ainda, se arvoram em juízes de um passado que os enlameia porque estavam do outro lado, do lado da ditadura, dos torturadores, dos que se enriqueceram com o regime do terror. Não fosse a resistência que realizamos desde o primeiro momento do golpe militar ¿ com todos os erros políticos que cometemos ¿, não teria sido possível posteriormente se derrotar a ditadura. Foi porque naquele primeiro momento, de medo, de desorientação, resistimos, mostramos que havia gente que não se rendia, que a ditadura era imoral, que era possível, legítimo e necessário resistir, é que o regime acabou sendo derrotado.



Mesmo quando sofremos duros reveses, fruto inclusive de nossos erros, foi e continua sendo melhor estar do lado dos que lutaram do que dos que escolheram acobertar-se no regime de terror ou calar-se. A resistência militante contra a ditadura foi uma dura prova, na qual a disposição de luta foi o critério decisivo para julgar a cada um. Ela merece o nosso reconhecimento e o nosso elogio.