Colunista
29/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
O intelectual e a morte



Francisco Julião era o nordestino típico, com sua face messiânica, seu gosto intelectual (foi autor de um romance bem urdido, Cachaça) e sua preocupação com a fatalidade. Em Pernambuco e na Paraíba o grande problema era, e continua sendo, o da morte e do enterro. Os pobres, que vivem tão mal, esperam pelo menos ter direito a uma morte decente, com mortalha, caixão, flores e sepultura. Para garanti-la, havia associações de meeiros, agregados, cambados, ou seja, sujeitos ao cambão, em que cada um pagava um tanto por mês, como espécie de seguro: quando morresse, teria direito a um enterro de segunda classe, com direito, em certos casos, a missas; em outros a simples carpideiras.


Julião começou se aproximando dessas associações. Em seguida, transformou-as em ligas camponesas e supôs que, contando com quem pensava na morte, pudesse construir um exército revolucionário. Mas não foi, com seu misticismo, o pai do movimento camponês. Sem esquecer outro nordestino ¿ Antonio Maciel, o Conselheiro ¿ e movimentos discretos que houve em toda a vida nacional, a organização de lavradores sem terra mais consistente havia sido a de posseiros, sob o comando de José Porfírio, no interior de Goiás. Julião, mais bem articulado, transformou suas Ligas em uma frente revolucionária.



Só que, mesmo contando com o entusiasmo e o heroísmo de muitos de seus seguidores, elas não passavam de uma ilusão. Não havia armas, não havia organização revolucionária eficiente, não havia um projeto estratégico e tático conseqüente. Julião estava constantemente no Sul, onde fazia sua pregação e aliciava prosélitos. Quando se desfechiou o golpe, não houve qualquer resistência. Os líderes foram presos, vários camponeses assassinados, menos pelas forças de repressão e mais pelos próprios fazendeiros. A repressão foi muito mais dura no Sul, sobretudo em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, em Minas, onde a liderança de um sapateiro, Chicão, assistido por um veterano quadro do Partidão, Carlos Olavo da Cunha Pereira, foi muito mais densa. Ali, houve resistência a tiros contra a invasão do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, com mortos dos dois lados. Chicão, no entanto, conseguiu escapar do cerco comandado pelo lendário coronel da Polícia Militar, Pedro Ferreira dos Santos, e a serviço declarado dos latifundiários.



As Ligas Camponesas estavam muito distantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra de hoje. Julião acreditava que seria possível assustar os latifundiários com a organização, mas, na realidade, só conseguiu assustar os setores da classe média urbana, que imaginavam suas casas invadidas por hordas de desdentados, com foices e facões, dispostos a estuprar as filhas de família e a esquartejar os pais. Os latifundiários e usineiros, no entanto, estavam muito bem organizados, esperando o confronto. Dispunham de forças para-militares, de financiamento interno e externo, de contatos permanentes com as Forças Armadas.



Mais conseqüente era a ação de Arraes, já então Governador de Pernambuco. Arraes determinara o aumento da remuneração do trabalho no corte de cana, que era fixada em tarefas, ou, seja, no volume de cana produzido e encaminhado às usinas. Isso acarretou a ira dos usineiros e o seu apoio declarado ao golpe e à deposição do Governador, inicialmente preso em Fernando Noronha, até que pudesse deixar o Brasil.



Julião foi um homem bem intencionado, mas sem nenhuma percepção da realidade política. Passado o furacão, os sertanejos da Paraíba e de Pernambuco continuam preocupados com o problema do enterro decente. Tanto é assim que não são poucos os políticos que distribuíram vales para o eventual sepultamento de eleitores nordestinos. Esses vales poderão ser usados pela família, em caso de morte do beneficiado ¿ e são religiosamente resgatados pelos emitentes. É um dos poucos contratos que os ricos do Nordeste cumprem com os miseráveis. Na realidade, é o único retângulo de terra a que têm direito, mesmo que também provisório. Por isso, a sua profunda preocupação com a morte, expressa no belo poema de João Cabral, Vida e Morte Severina.