Colunista
29/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
O obstinado engenheiro





Dos líderes políticos que exerceram diretamente o poder há quarenta anos, restam em ação coerente Miguel Arraes e Leonel Brizola. São homens de temperamento diverso. Falta a Arraes o arroubo platino de Brizola, e a Brizola o ceticismo sertanejo de Arraes. Mas ambos merecem o respeito por sua coerência essencial, que se apóia no eixo do nacionalismo.


É erro de certos analistas políticos tentar separar os homens de suas circunstâncias pessoais. Brizola, por mais se identifique sua escolha ideológica, é um homem amarrado às suas circunstâncias ¿ entre elas, as familiares. Em Montevidéu, certo dia, ele me disse que o revolucionário não deveria ter família. Segundo seu raciocínio, os laços sentimentais inibem a ação revolucionária. Conversamos sobre isso, quando, em tarefa de que me encarregaram - ele e outros representantes das forças de esquerda no exílio uruguaio - de estabelecer contato pessoal com os companheiros que se encontravam em La Paz.


Brizola era cunhado de Jango, o que representava, ao mesmo tempo, vantagem e desvantagem. A vantagem estava em sua proximidade do poder, o que lhe permitia tentar influir diretamente nos rumos do País. A desvantagem era a de que, por essa mesma razão, sentia-se de certa forma inibido e vigiado com maior severidade pelos inimigos. Sua bravura pessoal, nunca posta em dúvida, fê-lo esbofetear alguns desafetos, e ser corajosamente violento nos duelos parlamentares com Carlos Lacerda ¿ que, segundo Tenório Cavalcanti, só contava com bravura cívica, e nada mais.


Qualquer que venha a ser o juízo histórico definitivo sobre Leonel Brizola, o Brasil deve à sua coragem o cumprimento do rito democrático em 1961, com a posse de Jango, mesmo com a emenda parlamentarista. No episódio, podemos dizer que houve duas personalidades que salvaram o País, pelo menos naquele momento: Brizola com a disposição para o confronto armado, a partir de Porto Alegre, e Tancredo Neves, com a disposição para o diálogo político. Alguns poderão objetar que a conciliação deu tempo à direita, para articular o movimento de 1964, mas podemos perguntar se o confronto armado teria sido melhor. A História tem dessas coisas: o que poderia ter acontecido é um segredo que a ninguém, e nunca, será revelado. O que importa é que, naquele momento, a coragem de Brizola deu força a Tancredo em seu diálogo com os militares. E Jango pôde assumir o poder.


Governador do Rio Grande do Sul, Brizola havia provocado a ira dos interesses internacionais, ao encampar a empresa norte-americana que explorava os serviços de energia elétrica. Era, portanto, um inimigo declarado do capitalismo internacional. Disposto a ir mais rapidamente na construção de um sistema político que atendesse aos seus sonhos juvenis, Brizola queria disputar a presidência. Seria, para a esquerda, uma alternativa a Juscelino que era, por convicção e ação, homem de centro. Como a Constituição vedava essa possibilidade a parentes do Presidente que estivesse em exercício, cunhou-se o lema: Cunhado não é parente; Brizola para presidente.


Em 1964, a liderança de esquerda estava com Brizola, Arraes, Francisco Julião. Brizola mal passava dos 40 anos, já havia sido Governador, era, como continua sendo, dotado de enorme capacidade de trabalho. Essa mesma capacidade, aliada ao carisma de caudilho, ele a desenvolveu no exílio em Montevidéu. Havia, ali, uma diferença de visão do processo político. Jango apostava na evolução do quadro, na aliança com os setores menos radicais (o que ocorreria depois na frustrada formação da Frente Ampla), no desgaste da Ditadura. Brizola pretendia partir para a luta armada. Jango se mantinha em atitude discreta, mas solidária. Recebia quem o procurasse, mas se alheava de qualquer ação que pudesse ser entendia como provocadora. Brizola, não: trabalhava todos os dias contra o regime militar brasileiro. Do apartamento que lhe fora cedido por um gaúcho, que exercera até pouco antes a representação comercial brasileira em Montevidéu, Brizola enviava seus emissários ao Brasil e os recebia. Alguns emissários tiveram a má sorte de ser presos, e alguns deles acabaram passando para o outro lado.


Logo que chegou a Montevidéu, depois de cerca de 40 dias de clandestinidade no interior do Rio Grande do Sul ¿ vestindo uma jaqueta militar ¿ Brizola reuniu todos os exilados em um cinema, cedido para isso. Infelizmente não se gravou o seu discurso, um dos mais fortes discursos de solidariedade que já ouvi. Recordo-me de seu argumento básico: ali não havia chefes nem subordinados. O exílio nos igualava a todos. Éramos todos ¿ex¿ alguma coisa, apenas pessoas fora de seu País, sem outra possibilidade senão a da união essencial, acima das nuances ideológicas. Quando nenhum de nós tiver mais de uma camisa , se chegarmos a essa situação, devemos rasgar a única camisa ao meio, e dar a metade para o companheiro que estiver de peito nu ¿ é uma frase de que me lembro. Naquela noite escolhemos pessoas para tarefas específicas, entre elas a de identificar os exilados, a partir das informações de pessoas já conhecidas. Com isso pudemos identificar e desmascarar alguns agentes infiltrados pela repressão.


Brizola cometeu muitos erros de avaliação, quanto à oportunidade de ação armada contra o sistema militar. Mas o que se pode dele dizer é que nunca traiu a sua ideologia essencial, a do nacionalismo, a do patriotismo. Patriotismo e nacionalismo são, no fundo, a expressão política da solidariedade humana. Se os homens se revelam tanto no poder quanto no exílio, Brizola se revelou completamente no exílio uruguaio. Ele foi solidário com todos os companheiros, que nele viam o líder natural. Pouco a pouco, Montevidéu se foi esvaziando de exilados. Muitos procuraram outros países, e alguns acabaram se inserindo naturalmente na sociedade uruguaia, que já havia absorvido exilados brasileiros em tantas outras ocasiões de repressão no Brasil. Entre esses veteranos se encontrava Luís Cúneo, que citamos antes, e que cuidava de alimentar e, em alguns casos, abrigar os desprovidos de recursos próprios.


Há uma pergunta que jamais será respondida, e que me intriga: se Brizola não tivesse sido cunhado de Jango, qual teria sido o seu desempenho na História Política do Brasil? Mais ousada, ou mais prudente?


Esse segredo, o do que poderia ter sido, jamais será revelado, mas sugere a reflexão dos que pretendam estudar a História Política. A política, já disse Santo Tomás de Aquino, ao discutir Aristóteles, é uma ciência moral, e a moral é uma coisa dos homens, com suas paixões, seus sonhos e seus equívocos.




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