Colunista
26/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
Por que o golpe no Brasil?



Apesar de ter, na época, uma esquerda relativamente mais fraca do que as do Chile, do Uruguai e da Argentina, o Brasil acabou sendo o palco do primeiro golpe militar da série que se estenderia por toda a região. Uma das razões essenciais, claro, foi que havia aqui um governo de esquerda, enquanto nos outros países, apesar da força das organizações, ainda não estavam no governo nem Perón, nem Allende, por exemplo.


Porém, ainda assim surpreende que o Brasil tivesse sido tema prioritário de preocupação do governo norte-americano, como se pode ver pelas andanças de Rockfeller pelo Brasil ¿ tratando de temas que vão do petróleo à Amazônia ¿ praticamente em todo o período do segundo pós-guerra. Se o México estava seguro para Washington, o Brasil aparecia como o maior desafio, dentre os países que poderiam causar problemas para a hegemonia dos EUA no continente. Desde o golpe que havia derrubado Perón, em 1955, a
Argentina parecia não apresentar maiores dificuldades, em comparação com o que representou um tempo depois e em comparação com o Brasil.


O potencial de crescimento do Brasil, com o ciclo de expansão industrial em curso, a fundação da Petrobrás, além dos enormes recursos naturais de que o país dispunha, contribuíram. A fundação da Escola Superior de Guerra, quando os militares brasileiros voltaram da Itália aderidos às teses da guerra fria, representava um enraizamento concreto, institucional da estratégia baseada na Doutrina de Segurança Nacional , de que Golbery do Couto e Silva e Humberto Castelo Branco seriam representantes significativos.


O retorno de Getúlio ao governo em 1950, com um programa mais marcadamente ideológico do que no seu governo anterior ¿ de que a campanha de ¿O petróleo é nosso¿ foi um bom exemplo ¿ assustou os norte-americanos. O suicídio de Getúlio e a derrubada de Perón poderiam significar um alivio para eles, mas a continuação da mesma aliança ¿ que incluía o movimento sindical e o PCB ¿ e, principalmente, das mobilizações populares,
se não impediu a vitória de Jânio Quadros, retomou seu ímpeto com a renúncia deste e a posse de Jango.


O projeto golpista centrado na ESG cruzou toda a década de 50, tentou derrubar Getúlio, tentou impedir a posse de JK, protagonizou duas isoladas tentativas de sublevação no governo deste e agiu abertamente contra a posse de João Goulart, já praticamente protagonizada pela mesma alta oficialidade que três anos mais tarde chefiaria o golpe militar. A coerência da ação e seu caráter continuado revelam a opção estratégica da linha norte-americana, com seus aliados locais, de tomada do poder, independentemente da crença real ou não de que o governo Jango representaria uma ameaça verdadeira a seus interesses.


Episódios como a sublevação dos marinheiros, que receberam a visita de Jango, o avanço na sindicalização rural, na capacidade reivindicativa dos trabalhadores sindicalizados e na extensão da sua organização - inclusive para o setor público ¿ foram circunstâncias que demonstravam que a capacidade de controle do Estado sobre os movimentos sociais se enfraquecia. A campanha de desestabilização levada a cabo a partir do governo norte-americano, com apoio do grande empresariado nacional, das empresas transnacionais, da grande mídia e de parte da classe média, permitiu que a alta oficialidade golpista derrubasse o governo legalmente constituído de João Goulart.


A combinação desses elementos explica por que o Brasil foi o cenário do primeiro da cadeia de golpes militares que instaurariam uma verdadeira internacional do terror no cone sul latino-americano.




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