Colunista
31/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
Saudades do golpe






Oh! que saudades eu tenho

do meu golpezinho querido

que os anos não trazem mais!

Do meu golpe ferrenho

com tanto elogio repetido

pra todos os generais!




Com tanta lembrança negativa do golpe de 64, é importante ouvir os viúvos da auto-proclamada ¿Revolução¿, que se finou ao atingir sua maioridade: 21 anos. Hoje o nome ¿Golpe de 64¿ entrou para a História, enquanto o de ¿Revolução de 31 de Março¿ entrou para o museu da História.



Em artigo na página 3 da Folha de S. Paulo de 31 de Março do corrente ano, o General Carlos de Meira Mattos dá o tom. A vitória do golpe, desculpe, do ¿movimento de 31 de Março¿ foi um alívio para o Brasil. Logo adiante, vem a lembrança inevitável, que hoje se quer calar: ¿Toda a grande imprensa do Brasil saudou a derrubada como uma necessidade inarredável para a sociedade brasileira¿. O tiro de misericórdia: ¿Aqueles que quiserem conferir a veracidade dessa afirmação, basta que consultem os editoriais, artigos e noticiários dos dias que se seguiram à queda do governo Goulart¿.



Vai adiante o bravo memorialista. Lembra que o golpe, desculpe, ¿o movimento de 31 de Março¿ começou na verdade com um manifesto cautelosamente golpista de Magalhães Pinto divulgado em 30 de Março. Esse manifesto, que pedia ¿a restauração da ordem constitucional (sic!) rompida nesta hora¿, foi logo apoiado pelos governadores de São Paulo, Guanabara, Mato Grosso e Alagoas. Provavelmente foi daí que o General Olímpio Mourão Filho retirou a coragem ou o desatino, até hoje não se sabe muito bem, para por sua tropa na rua, ou melhor, na estrada. Tão desatinado foi o ato que o fato é que o General, ao chegar no Rio de Janeiro, teve de ser literalmente desarmado por Castello Branco e Costa e Silva.



Mas há mais na memória do General-escritor de 31 de Março de 2004. Lembra ele as palavras de jornalistas ilustres, como Fernando Pedreira: ¿O governo [João Goulart], desmoralizado pela corrupção, desorientado pela política contraditória de seu chefe, sujeito à influência de aventureiros de toda a ordem da cúpula comunista e de grupos de esquerda imaturos e despreparados, acabou justificando, e até exigindo uma intervenção militar¿.



Depois vem Alberto Dines que, diga-se, lamenta o golpe: ¿Enquanto muita gente festejava o golpe, nós estávamos saboreando algumas coisas ruins. Estávamos esperando por elas desde os dias terríveis de Goulart. Mas não tínhamos prática em raciocinar em termos de fins que justificam os meios. Mesmo que soubéssemos que, se Jango vencesse, seríamos nós a sofrer algo mais grave do que o expurgo ou a perda dos direitos¿.



Para coroar, Castelo Branco (o colunista): em 31 de Março não houve um golpe, mas ¿uma ação militar revolucionária baseada no levante de pelo menos três governadores¿. Meira Mattos, ele mesmo, corrobora e amplia o conceito: quem derrubou o governo foi ¿a grande maioria dos brasileiros, apoiada [o grifo é meu] pelas Forças Armadas¿.



As frases dos jornalistas devem ser lidas com cuidados, pois estão citadas fora de seu contexto original. Mas ainda assim são eloqüentes sobre a confusão semântica e a confusão (para não dizer degradação) ética que a partir da conspiração e do próprio golpe se esparramaram dentro do jornalismo brasileiro.



Hoje pode-se dizer que o Golpe está derrotado moralmente e também na semântica que tentou impor. Mas não está de todo derrotado culturalmente. Voltaremos ao assunto.