Colunista
29/03/2004 - Copyleft

Especial 1964-2004
Um estancieiro solidário



É velha a constatação de que há homens que fazem os momentos, e momentos que fazem os homens. O momento brasileiro que vai da posse do Sr. Jânio Quadros ao golpe militar de 1964 ¿ três anos e dois meses ¿ foi, na realidade, de desencontro entre o tempo e os homens.



A eleição de Jânio foi o maior equívoco do século. Ansiosos pelo poder a qualquer preço, os líderes da União Democrática Brasileira, conservadores que se identificavam como liberais, cortejaram a popularidade do governador de São Paulo, construída sobre processos demagógicos de direita, e o fizeram seu candidato. Aos 43 anos, com escassos 13 anos de vida pública, Jânio era ¿ e continua sendo ¿ personalidade enigmática. Com uma linguagem de professor de português, era preciso na sintaxe, o que o fazia prisioneiro das mesóclises e do pronome oblíquo. Pretendia ser o Lincoln brasileiro, e certa vez chegou a usar as barbas do grande estadista norte-americano. Era, sem embargo, um aspirante à ditadura. Como Carlos Lacerda fosse outro aspirante à ditadura, o confronto entre os dois, no início de agosto de 1961, levou-o a uma tentativa de golpe, que se frustrou. Com a sua renúncia ¿ com a qual ele pretendia levantar as massas em sua defesa ¿ e a indiferença do povo pela sua sorte, iniciou-se o processo que conduziria a 1964.



Surgem, nesse momento, as personalidades dramáticas do período. A mais importante delas foi, pela própria situação institucional, o jovem estancieiro João Belchior de Marques Goulart. Jango era filho de um grande proprietário de terras do Rio Grande do Sul, que fora amigo de Getúlio. Quando Vargas foi deposto, em outubro de 1945, e se recolheu à sua estância, Jango passou a visitá-lo, e mais do que a visitá-lo, a lhe prestar toda a assistência possível. Empossado Dutra, promulgada a Constituição de 1946, iniciou-se o processo político de redemocratização dos Estados. É nesse momento que um cunhado de Jango, tão jovem quanto ele, se filia ao PTB e se inicia na vida pública: Leonel de Moura Brizola. Era uma associação curiosa: Brizola vinha de uma origem muito modesta, e Jango era um rico herdeiro. Eleito presidente e empossado em 31 de janeiro de 1951, Getúlio resolve fazer de Jango o seu sucessor político. Pela juventude, pelo afeto pessoal que lhe dedicava, tratava-se de uma pessoa quase perfeita para receber o legado.



É assim que Getúlio situa Jango entre as lideranças sindicais daquele tempo, antes de o fazer seu Ministro do Trabalho. Jango adere sinceramente à classe operária, ao aderir ao projeto de Nação que Getúlio havia retomado. Talvez influísse no espírito de Jango o exemplo argentino. Na Argentina, o desenvolvimento industrial e o crescimento dos sindicatos urbanos, que haviam obtido, com Perón, uma situação invejável, beneficiavam a economia de um modo geral, e, em particular, os pecuaristas.



Mas, no caso de Jango, era clara a solidariedade para com os pobres. Eu me recordo de o haver acompanhado, como repórter, em 1954, durante uma sua visita, como Ministro do Trabalho, a Minas. Naquele tempo em que a miséria não era tão exposta como hoje, Jango foi abordado por um velho mendigo. Perguntou-lhe: tu não tens aposentadoria? E, diante da resposta negativa, pediu a um assessor que o acompanhava que desse algum dinheiro ao pedinte. A mim, que estava a seu lado, disse: é preciso garantir para todos um prato de comida no almoço e no jantar, e de qualquer jeito.



Isso foi há cinqüenta anos, e acho que há exatamente 50 anos. Creio que foi em março de 54 que ele visitou o Estado. Jango tinha, então, 34 anos. Poucos meses depois eu o reveria, nos jardins do Catete, na tarde de 24 de agosto. Getúlio se havia matado pela manhã, o corpo estava exposto e centenas e centenas de pessoas se revezavam na fila para dele se despedir. A cidade estava em plena efervescência. Jango chegou, abriu um envelope. Tive quase certeza de que ele relia, naquele momento, a carta-testamento de Vargas, da qual ele tinha uma cópia, entregue pelo presidente na noite anterior, antes da reunião do Ministério. Nela, pelo que soubemos depois, faltava a despedida final, escrita a mão. O fotógrafo que me acompanhava, como enviado especial do Diário de Minas registrou a cena, e o jornal a publicou depois.



Candidato a vice-presidente de Juscelino, no ano seguinte, Jango representava o PTB de Vargas, na aliança com o PSD que era, mais do que um partido nacional, um partido de Minas. Registre-se que tanto o PSD como a UDN haviam nascido em Minas, e que o PTB era o partido de Vargas, gaúcho, mas somando o prestígio de Getúlio em todo o Brasil. Durante o governo de Juscelino, Jango manteve-se bem discreto, como vice-presidente. Embora constitucionalmente fosse também presidente do Senado, compareceu a poucas sessões da Câmara Alta, e quase sempre em ocasiões solenes. Como líder do PTB assegurava o apoio do partido e mantinha suas ligações com as bases sindicais. Soube atrair para o partido alguns intelectuais, entre eles Santiago Dantas, preocupado em que houvesse alguma ideologia naquele grande partido de massas.



A direita não o tolerava, e não o toleravam alguns chefes militares. Muitos acreditavam que Jango pretendia uma aliança com Perón (que foi destituído em 1955) a fim de estabelecer um regime sindicalista dos dois lados da fronteira. Foi assim que surgiu a famosa Carta Brandi, atribuída a um parlamentar argentino, claramente falsificada, que sugeria esse projeto.



Quando Jânio comete o seu gesto irresponsável, em 1961 (quando já havia um requerimento de CPI para acareá-lo com Lacerda, que o acusava de preparar um golpe) Jango que fora eleito contra o candidato da UDN ao cargo, o mineiro Milton Campos, se encontrava, como todos sabem, na China.



Empossando-se na presidência, depois de um dramático confronto político-militar, Jango seguiu as regras do jogo, mas sempre preocupado em criar condições para o pleno desenvolvimento econômico do País. Grande proprietário de terras, queria a reforma agrária. Mas queria, também, a reforma bancária, queria a limitação da remessa de lucros (tentada antes por Getúlio e malograda pelo Congresso e mais uma vez levada ao Parlamento pelo mineiro Celso Brant) e a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas. A conspiração começou a crescer. Se Jango pudesse resistir até o ano seguinte, Juscelino se reelegeria e o país seguiria seu curso de desenvolvimento com preocupação social.



A análise geral do golpe não é intenção deste texto. O que podemos dizer é que João Goulart foi um homem honrado, realmente preocupado com a justiça social e solidário com os outros até o fim de sua vida. Em 1964, partilhei do exílio com ele e outros eminentes brasileiros, em Montevidéu. Tanto ele como Brizola foram solidários com todos os brasileiros sem recursos que ali se encontravam, mediante um fundo do qual era gestor Luís Cúneo, um brasileiro ali exilado desde 1935.



Em 1975 encontrei-o em Buenos Aires. Visitei-o em seu escritório comercial, no centro da cidade. Recebeu-me com extrema cordialidade e me perguntou pelo Brasil. Falei-lhe da distensão de Geisel, e dos perigos de um novo surto de direita. Ele, então, me assegurou:



¿ Se os militares te tornam a vida difícil, vem para aqui. Teremos sempre um lugar na estância para a tua família e ovelhas que degolar para o assado.



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