Colunista
20/02/2006 - Copyleft

Esquecimento e poder



Para quem sobreviveu ao período da ditadura militar brasileira causa estranheza alguns fenômenos de nossa vida social, sobretudo, o esquecimento coletivo de coisas tão recentes. Daqueles tempos, só têm saudades as ¿viúvas¿ da opressão, as direitas ideológicas e os ¿alienados¿ de sempre. Não se pode esquecer que a tortura, a prisão e o exílio eram possibilidades reais de quem ousasse discordar e se articular contra o ¿sistema¿. Perdões leitor, pelas aspas simples em alguns termos, já fora de moda ou que adquiriram novas significações.

Aquela época foi vivida de modo diverso por classes, grupos e pessoas. É verdade que havia mais empregos, o crédito era barato, a inflação ¿galopava¿ e o ¿arrocho salarial¿ funcionava, evitando que os mais pobres tivessem ganhos reais substantivos. Com isto resultando em taxas de lucro elevadíssimas, era possível atrair o capital externo, em um período de abundância e de interesses políticos de fortalecer a economia brasileira. Afinal, o Brasil era parte do bloco de nações ocidentais unidas contra a ameaça do leste.

As classes médias assalariadas e os profissionais liberais tinham maiores ganhos e melhores possibilidades de se beneficiarem das vantagens econômicas da época. Podiam, por exemplo, comprar os produtos alardeados pela publicidade como símbolos da felicidade e da bem-aventurança. Também viviam problemas, mas o ¿sistema¿ para funcionar necessitava consumidores dos produtos industriais que produzia.

Os mais ¿reacionários¿, achavam que estava tudo certo e que o país caminhava bem. Quem era contra não podia falar, calava-se muitas vezes sem ter outra opção. Os meios de comunicação de massa e mesmo os que atingiam a poucos, tal como a produção de livros e o teatro, eram censurados e impedidos de difundir o que era considerado potencialmente ¿subversivo¿. A vigilância maior esteve concentrada na imprensa escrita, no rádio e na televisão, onde a censura prévia foi a regra inventada, para que não houvesse dúvidas sobre o controle.

Havendo mais empregos, a criminalidade era menor. A repressão brutal cuidava (prendia, torturava e matava) dos que não se integravam, dos que eles chamavam de ¿bugres¿, ¿crioulos¿ e ¿fedorentos¿ que não faziam parte dos ¿noventa milhões em ação¿. A exclusão social estava bem definida. A miséria urbana era infinitamente menor do que a atual. Os migrantes do nordeste continuaram vindo, por décadas, construir a riqueza do que o saudoso Henfil chamou de ¿sul-maravilha¿.

Para ser parte do ¿sistema¿ era necessário ser branco, ¿moreninho¿ ia bem e, sobretudo, não ser ¿subversivo¿. Negro, só se fosse de um talento especial e completamente subordinado aos seus ¿padrinhos¿ brancos. Os governos imaginavam o Brasil como herdeiro luso-tropical da civilização européia, negando a profundidade de suas origens ameríndias e africanas. A vergonha do sangue não era mais tão forte, como no passado imperial e das primeiras fases da república. Mas, ao modo latino-americano, era importante, de acordo com os sensos comuns da época, lembrar que o ¿branqueamento¿ das imigrações européias nos tinha melhorado racialmente.

O tratamento dado aos chamados ¿subversivos¿ era especial. Havia a tortura, a prisão e, em alguns casos, a morte. Isto tudo servia para destilar o medo entre os que não eram ¿alienados¿, punir severamente os que se opunham e, secundariamente, para, diziam eles, se ¿obter informações¿ e proteger a pátria do ¿comunismo internacional¿. Proteger do comunismo serviu como ordem e motivo de perseguir e punir até mesmo os que jamais foram comunistas e os que não concordavam com o marxismo ou com o que se fazia nos países do socialismo real.

Nos vinte anos de ditadura, de acordo com o que se pode ver em várias fontes, milhares e milhares de brasileiros foram vigiados, observados e punidos, por vezes, sem saber o porquê. Muitos perderam empregos na área privada e no serviço público. Outros não puderam acessar aos empregos em órgãos do governo, por efeito da vigilância e dos famigerados e esquecidos ¿atestados ideológicos¿. Não poucos foram considerados mortos em vida, com aposentadorias parciais e compulsórias, que só podiam ser recebidas por familiares. Sem contar os que foram sumariamente cassados, dispensados, reformados e impedidos de exercerem suas funções.

Havia algumas vantagens nisto tudo. O inimigo era claramente estabelecido. As pessoas se dividiam por suas inclinações políticas e ideológicas. O oportunismo pessoal era mal-visto, bem como a intriga e a difamação. A mistura entre o público e o privado era considerada coisa da direita. Os sujeitos da história não eram tão nebulosos. Quem era contra sabia o que esperar e o que fazer, mesmo que houvessem equívocos e análises truncadas da realidade. Por outro lado, o país ainda não tinha sido tão contaminado pela mosca azul do sucesso, do consumo e dos irracionalismos filosóficos de nosso tempo. O individualismo tinha menor espaço e ainda se falava em projetos coletivos.