Colunista
10/12/2004 - Copyleft

Faluja está morrendo








O doutor Sami al-Jumaili conta como aviões dos Estados Unidos bombardearam o Centro de Saúde em que ele trabalhava às 5h30 da manhã do dia 9 de novembro. A clínica tratava doentes e feridos, depois que as forças estadunidenses invadiram o principal hospital de Faluja, logo no começo da invasão. Segundo o seu relato, bombardeiros estadunidenses despejaram três bombas na clínica, onde cerca de 60 pacientes ¿ muitos dos quais com feridas sérias causadas pelos bombardeios aéreos e ataques das tropas dos EUA ¿ estavam sendo tratados.



O doutor al-Jumaili relata que 35 pacientes morreram no ataque aéreo, incluindo duas meninas e três meninos de menos de 10 anos. Além disso, 15 médicos, 4 enfermeiras e 5 auxiliares foram mortos, entre eles os ajudantes Sami Osmar e Omar Mahmoud, as enfermeiras Ali Amin e Omar Ahmed, e os médicos Muahammad Abbas, Hamid Rabia, Saluan al-Kubaissy e Mustafá Sheriff.



Um jornalista iraquiano da agência Reuters chamado Fadhil Badrani estima que 40 pacientes e 15 trabalhadores foram mortos no bombardeio à clínica. O doutor Eiman al-Ani, do Hospital Geral de Faluja, que conseguiu sair do local antes do bombardeio, disse que o Centro de Saúde desabou sobre os pacientes.



Os ataques estadunidenses também destruíram um depósito que guardava materiais médicos da clínica. Ambulâncias foram confiscadas ¿ ainda segundo o doutor al-Jumaili ¿ e o único veículo que sobrou foi destruído pelos bombardeios aéreos, matando o motorista e ferindo um auxiliar de saúde. Hamid Salaman, que trabalha no Hospital Geral de Faluja, disse à agência Associated Press que cinco pacientes que estavam na ambulância foram mortos.



As autoridades estadunidenses, conforme Rafe Chiad, diretor do Hospital Geral de Faluja, proibiram que equipes médicas entrassem na Faluja. Negaram todas as solicitações de médicos, de ambulâncias e de equipamentos médicos para atender aos feridos. Segundo ele, a cidade ficou reduzida a uma pequena clínica militar iraquiana, que é inacessível para a grande maioria da população que permanece na cidade, pela sua distância da maioria dos bairros e pelo risco de bombardeios e tiroteios.



¿Faluja está morrendo¿, disse o al-Ani. Jim Welsh, coordenador de direitos humanos da Anistia Internacional, declarou em Londres que, conforme a Convenção de Genebra, ¿o pessoal médico não pode ser obrigado a negar assistência médica, que é sua responsabilidade ética¿. No entanto, as 173 camas do Hospital Geral de Faluja permanecem vazias.



Enquanto isso, casos de diarréia se expandem entre a população, com crianças e idosos morrendo diariamente de doenças infecciosas, de fome e de desidratação. Feridos e crianças estão morrendo pela falta de atenção médica e água potável. Segundo o doutor al-Jumaili, três crianças morreram de desidratação porque seus pais não puderam encontrar água para elas. As tropas estadunidenses cortaram o suprimento de água da cidade antes da invasão. ¿ As pessoas estão morrendo porque estão feridas, não tem nada para comer ou beber, praticamente sem assistência médica¿, disse o doutor Al-Ani.



Esses e outros relatos dramáticos da ¿pax americana¿ em Faluja exigem uma reação internacional imediata, a começar do governo brasileiro. Que as tropas do massacre se retirem de Faluja, que cessem os bombardeios aéreos, que seja concedido passe para as equipes médicas, que seja restabelecido o abastecimento de atua, de comida e de equipamentos médicos.



Louis Arbour, do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, propõe que se investigue as ¿violações das normas de guerra feitas para proteger civis e combatentes¿ em Faluja e levar a processos em tribunais os que as estão violando sistematicamente. A Associação dos Jurista Humanitários de São Francisco pediu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos que investigue as chacinas em Faluja.



O Brasil deve apoiar esse pedido. O bombardeio a pacientes em hospitais, a fome e a desidratação impostas à população, a proibição de que remédios e equipamentos médicos cheguem para atender aos feridos e doentes precisam ser chamados pelo que são ¿ segundo artigo de Miles Schuman, em The Nation: crimes de guerra e crimes contra a humanidade.



Perguntadas sobre os bombardeios de centros médicos, as autoridades estadunidenses não atribuíram importância a elas, classificando-as de ¿sem fundamento¿.








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