Colunista
03/04/2014 - Copyleft

Lembrar para não esquecer

No início de 1964, éramos todos apoiadores das reformas de base e ativos na política estudantil secundarista e/ou universitária, opção rotineira naquele período




(*) Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.
 

Aluno do terceiro ano do ensino médio, morava em “república” de estudantes em Belo Horizonte, no início de 1964. Éramos todos apoiadores das “reformas de base” e ativos na política estudantil secundarista e/ou universitária, opção rotineira naquele início conturbado dos anos 1960, marcado por intenso debate público sobre os destinos do país e da América Latina.

Numa guinada de 180 graus, havia me transferido da Escola Técnica de Mineração e Metalurgia (atual CEFET-Ouro Preto) para o curso clássico noturno do tradicional Colégio Marconi. Desde 1962, militava na JEC (Juventude Estudantil Católica) e na AP (Ação Popular) – que surgira de dentro da Ação Católica. Estava também vinculado a um grupo de jovens engenheiros oriundos da Escola de Minas de Ouro Preto [atual UFOP, Universidade Federal de Ouro Preto] que fundara o GPM, Grupo de Política Mineral, e defendia a nacionalização das riquezas do subsolo brasileiro.

Meses agitados

Os primeiros meses de 1964 foram agitados em Belo Horizonte. Um dia, em especial, merece ser lembrado: o 25 de fevereiro. Nesta data deveria ter sido realizado um ato público da Frente de Mobilização Popular em defesa das reformas de base, com a presença de Leonel Brizola.

Planejado para acontecer na antiga Secretaria de Saúde, bem ao lado do velho Mercado Municipal, o local foi ocupado antecipadamente por grupos organizados contrários ao ato, incluindo padres e senhoras empunhando e rezando o “terço” (rosário) contra o “comunismo ateu”. A pancadaria foi inevitável. Não existiam as condições mínimas de segurança para a realização do ato. Quando a cavalaria da PM entrou em ação, no início da noite, sobrou para todos que estavam por perto. Cassetetes, espadas e bombas de gás lacrimogênio.

Creio que a reação organizada a este ato serviu de exemplo e inspiração para as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que começaram a acontecer em diversas cidades, após o comício do presidente João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 13 de março.

Os Diários Associados controlavam os principais meios de comunicação da cidade (jornais, emissoras de rádio e televisão) e a cobertura, após o 25 de fevereiro, era de “júbilo cívico” pelo espírito cristão da gente mineira e, sobretudo, das mulheres e mães que enfrentaram os “comunistas” em Belo Horizonte.

Nova realidade

A memória mais viva que guardo dos primeiros dias de abril é a surpresa de deparar com o aparato militar nas ruas. O governo mineiro (Magalhães Pinto) estava inteiramente envolvido com o golpe civil-militar e soldados (não sei se da PM ou do Exército) se postavam nas esquinas, nas praças e até na entrada do Edifício Pio XII, na Rua Espírito Santo, sede da Ação Católica. Amedrontado, não sabia onde ou como buscar informações sobre o que estava acontecendo.

Desinformados e inseguros, decidimos não ficar na “república”. Cada um devia “desaparecer” por alguns dias até que a situação ficasse mais definida. Meu primeiro refúgio foi a casa da família, em Sabará. Meu pai, com formação doutrinária integralista, certamente apoiava o golpe em nome “de Deus, da Pátria e da Família”, além de estar convencido de que o comunismo ateu havia se infiltrado em setores da igreja católica.

Na ingenuidade de meus 18 anos, esperei a noite para procurar contato com um velho e conhecido “comunista” da cidade, líder de um “Grupo dos Onze” vinculado a Leonel Brizola. Ainda bem que ele já havia desaparecido e que não havia vigilância ao redor de sua casa, onde ninguém respondeu à porta.

No dia seguinte, a esposa de um vizinho havia feito uma enorme fogueira com livros e revistas de seu marido – um simples advogado de esquerda – que eventualmente pudessem ser considerados subversivos pelas novas autoridades.

Mais assustado, resolvi voltar a Belo Horizonte e buscar abrigo na casa de um tio que certamente faleceu sem entender o porquê de seu sobrinho estar tão amedrontado e aparecer sem aviso prévio pedindo para ficar por alguns dias.

Aos poucos a nova realidade foi sendo absorvida, voltamos para a “república” e cada um foi fazendo suas opções e escolhendo o caminho a seguir.

Os dias seguintes

Nos meses seguintes nada me marcaria mais profundamente do que uma campanha nacional liderada pelos Diários Associados e inspirada na Revolução Constitucionalista de 1932, com o mote “Dê ouro para o bem do Brasil”.

Pessoa querida de minha própria família, católica fervorosa e convencida de que o maior perigo que a humanidade enfrentava era o “comunismo ateu”, doou sua própria aliança de casamento. Não conseguia compreender como tanta gente podia ser convencida (manipulada?) a fazer uma doação desse tipo, sem questionar qual seria o destino final que alianças, anéis, colares, brincos, broches etc. e etc. de fato teriam.

Até hoje, 50 anos depois, além do silêncio sobre a tal campanha, resta a controvérsia sobre o montante e o destino do ouro arrecadado. Registro, todavia, que na celebrada biografia de Fernando Morais, o único parágrafo das mais de 730 páginas dedicado à campanha “Dê ouro para o bem do Brasil” afirma, sem mais, que “os Associados entregaram efetivamente ao governo o equivalente a 3,8 bilhões de cruzeiros arrecadados em todo o país – aproximadamente 3 milhões de dólares de 1964 ou 12,5 milhões de dólares de 1994 (cf. Chatô – o Rei do Brasil, Companhia das Letras, 1994; p. 653).

Cinquenta anos depois

Tanto tempo depois, a memória de 1964 não pode mais ser ingênua. Aqueles dias mudaram para sempre a vida de muitos de nós e colegas e amigos queridos pagaram um preço alto demais pelo que viria a acontecer nos 21 anos seguintes (1964-1985).

Não há mais qualquer dúvida sobre o envolvimento e a participação dos principais grupos da grande mídia na articulação do golpe civil-militar de 1964 e, posteriormente, na sua legitimação. O que incomoda é a alteridade cínica desses mesmos grupos que recontam hoje a história à sua maneira, como se tivessem sido (e ainda fossem) apenas observadores imparciais, sem qualquer responsabilidade pelos longos anos de medo e escuridão.

É preciso lembrar para não esquecer.


(*) Venício A. de Lima é jornalista e sociólogo, professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado), pesquisador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras) da UFMG e organizador de Para Garantir o Direito à Comunicação – A lei argentina, o relatório Leveson e o HGL da União Europeia, Perseu Abramo/Maurício Grabois, 2014; entre outros livros