Colunista
26/01/2012 - Copyleft

O 'desenvolvimentismo' asiático



¿The issue is not one of state intervention in the economy. All states intervene in their economies for various reasons¿state´s first priority will define its essence.¿
Chalmers Johnson, ¿MITI and the Japanese miracle, 1925-1975¿ Stanford University Press, p: 17, 1982

Salvo engano, foi Chalmers Johnson quem falou pela primeira vez do "desenvolvimentismo¿ asiático, no seu célebre livro sobre o ¿milagre econômico japonês¿, publicado em 1982. Depois dele, transformou-se num lugar comum dizer que o "estado desenvolvimentista¿ foi ator central do crescimento econômico acelerado da Coréia, Taiwan e Singapura, entre os anos 60 e 80; da China, a partir dos anos 90; e do Vietnã, no início do século XXI. O próprio Johnson ¿ que era economista, serviu na Guerra da Coréia, foi consultor da CIA para a Ásia, e lecionou nos Centros de Estudos do Japão e da China, da Universidade da Califórnia - voltou muitas vezes ao tema e acabou transformando-se num dos grandes especialistas norte-americanos em economia política asiática. E foi um dos principais responsáveis pela difusão e aprofundamento acadêmico da pesquisa e do debate que ganhou ressonância internacional, com a publicação do Banco Mundial, do "The East Asian Miracle: Economic Growth and Public Policy¿, em 1993.

No seu tempo, o livro de Johnson surpreendeu o mundo acadêmico: segundo o autor, o ¿modelo econômico¿ japonês do pós-guerra não era original e vinha dos anos 20; e sua característica fundamental não era econômica, tinha a ver com a ¿intensidade¿ com que a sociedade e o governo japonês se dedicavam ao estabelecimento e cumprimento dos seus objetivos estratégicos. Para Johnson esta "intensidade" se devia ao fato de que o ¿modelo¿ tinha sido concebido como um instrumento de guerra e de reconstrução, depois da guerra, e como instrumento de defesa da soberania japonesa, frente aos desafios do mundo e do contexto geopolítico asiático, na segunda metade do século XX.

Este contexto explicaria o nascimento e a força da ideologia nacionalista e das instituições japonesas responsáveis pela mobilização da sociedade e pela submissão do desenvolvimento econômico aos seus objetivos de longo prazo. Em 1989, a economista americana, Alice Amsden, publicou outra obra clássica ¿ ¿Asia´s Next Giant¿ - sobre o ¿milagre econômico coreano¿ onde ela identificava características parecidas com o desenvolvimento japonês: o ¿modelo coreano¿ também vinha de antes da II Guerra, e havia sido forjado na luta anti-colonialista, contra o próprio Japão. E depois de Johnson e Amsden, muitos outros pesquisadores e especialistas encontraram as mesmas características no desenvolvimento acelerado de Taiwan e Singapura, e de forma ainda mais gritante, no desenvolvimento da China e do Vietnã. O próprio Johnson identificou no nacionalismo camponês e revolucionário chinês, do início do século XX, a grande fonte originária da "energia desenvolvimentista" da China contemporânea.

Apressando o argumento, é possível extrair pelos menos quatro conclusões desta vasta literatura sobre o crescimento asiático:

i) a maioria dos estados nacionais asiáticos se constituiu na segunda metade do século XX, depois do fim do colonialismo europeu. Mas quase todos os novos estados mantiveram suas fronteiras tradicionais e civilizatórias, e sua relação milenar, dando origem, desde o início, a um sistema inter-estatal regional altamente competitivo.

iii) em clave européia, a estratégia econômica destes países asiáticos esteve sempre mais próxima do mercantilismo de William Petty do que da economia política de Smith ou Marx; e muito mais próxima do nacionalismo econômico do alemão Friederich List, do que do liberalismo heterodoxo do inglês John Keynes: sua primeira prioridade foi sempre a construção do estado e a defesa da unidade territorial da sua sociedade e da sua civilização.

iii) não há nenhuma instituição ou política que explique isoladamente o sucesso do crescimento asiático, e que possa ser transplantada para países que tenham se constituído ou estejam fora de sistemas de poder altamente competitivos. A simples condição de "latecomer" ou de ¿capitalismo tardio¿ não explica nada, nem é capaz de gerar um projeto e uma estratégia de alto crescimento.

vi) por fim, os asiáticos nunca se referiram a si mesmos como ¿desenvolvimentistas¿, e sua estratégia econômica não tem nada a ver com o chamado ¿desenvolvimentismo latino-americano¿. Sua política industrial, comercial e macro-econômica sempre esteve a serviço de sua ¿grande estratégia¿ social e nacional, e da sua luta pela conquista ou reconquista de uma posição internacional autônoma e preeminente. Os asiáticos têm plena consciência de que a política econômica entregue a si mesma é cega e incapaz de gerar seus próprios objetivos. E muito menos ainda, de definir os objetivos de uma sociedade e de uma nação.