Colunista
24/01/2012 - Copyleft

O retorno: é primavera em Zwickau, Alemanha



É comum que mulheres e homens voltem-se para o futuro com esperanças e expectativas de mudança deixando para trás o passado. Mesmo a poesia ¿ como em Drummond, de versos tão belos sobre o tempo presente ¿ costuma valorizar o presente e adivinhar um futuro sempre melhor. Mesmo no cotidiano, nosso dia a dia, a vasta e vaga sabedoria popular nos diz ¿para esquecer o passado¿ e viver ¿para frente!¿. Mesmo o famoso verso da ¿Internacional Comunista¿ (a canção) propunha ¿fazer do passado tábua rasa!¿.

Possivelmente tudo isso é certo, bom e vantajoso para as pessoas. Talvez não seja o mesmo para as nações. Compreender bem o passado, entender como se chegou a situações atuais ¿ boas ou más ¿ e o que homens e mulheres fizeram em situações difíceis, tempos de provação, é uma lição importante para as sociedades.

Hoje, a sociedade alemã defronta-se mais uma vez com seu próprio passado. Um escândalo dito em meias palavras: durante 13 anos uma organização neonazista ¿ Nationalsozialisticher Untergrund (¿Clandestinidade Nacional-Socialista¿) assassinou pelo menos 10 pessoas, fez mais de 14 ataques contra propriedades turcas e lugares de memória judeus, assaltou bancos. Ainda, assim, e apesar da conhecida eficácia da polícia alemã (ou talvez com o conhecimento dela, segundo o jornal ¿Tagesspiegel¿) os terroristas permaneceram livres e atuantes, até novembro de 2011. Hoje, o Parlamento pede um inquérito visando estabelecer as ramificações e as condições em que agiram os três principais acusados.

Não repetir o passado!
Por um tempo vivendo mais uma vez na Alemanha, e convivendo quotidianamente com os signos e ícones vivos de duas grandes guerras ¿ a II Guerra Mundial (1939-1945) e a Guerra Fria (1945-1991), além da presença avassaladora dos genocídios ¿ cada vez mais entendo o passado como algo vivo, real, pujante de signos e, no qual, tropeçamos, literalmente, no caminho do trabalho, de casa ou do simples barzinho para beber uma cerveja.

Aqui e ali a guerra mostra sua dura face: no pátio interno do meu prédio, na Rua da Comuna de Paris, os buracos de balas e as crateras dos morteiros soviéticos da Batalha de Berlim ainda são visíveis. Acordo diariamente face a face com a guerra que foi a guerra de todas as guerras. Na esquina atravesso a Karl-Marx-Allee, que já foi a gloriosa ¿Avenida Stálin¿, e que a revisão de Nikita Kruschev decidiu, com mais pudor, denominar tão somente Karl-Marx-Allee.

No fim da minha rua o muro sobrevive: são bons 200 metros de muro, com sua curva separando ruas, prados, quarteirões...

Para além dos lugares materiais, de pedra e concreto, a guerra sobrevive na mente de todos, um pouco zipada, para não fazer volume, mas está lá... Nos museus, em Karlshorst, onde o Marechal Keitel se rendeu ao Marechal Keitel, em maio de 1945, adolescentes correm com suas pranchetas e computadores, copiando datas, nomes, lugares, cifras... Nenhuma geração possui o direito de esquecer...

Rua da Primavera, Alemanha
E, no entanto esquecem... Em Zwickau, uma cidade industrial de 120 mil habitantes no estado da Saxônia, uma célula neonazista assassinou inúmeros estrangeiros (a polícia ainda trabalha para descobrir a extensão do grupo e dos mortos, até o momento oito turcos, um grego e um policial alemão são as vítimas conhecidas) o mal retornou. O grupo, autodenominado ¿Clandestinidade Nacional-socialista¿ ( leia-se, nazista ), era composto ¿ em sua base ¿ por Beate Zschäpe, 36 anos; Uwe Mundlos, 38 anos e Uwe Bönhardt, 34 anos... Todos residentes na Rua da Primavera, 26, Zwickau. Eram quietos, calmos, respeitadores dos vizinhos, não cantavam ou falavam alto, e nunca ouviam música alto demais... O aluguel era pago pontualmente todo dia 25 do mês, incluindo todas as taxas. Identificados pela polícia, os dois Uwe se mataram e Beate explodiu a casa, na tentativa de evitar a identificação da rede nazista. Antes, porém, de forma piedosa pediu a vizinha para cuidar de seus dois gatos...

Beate escapou, e está presa: a polícia tenta estabelecer as relações da ¿Clandestinidade Nacional-socialistas¿ com outros grupos em Berlin, Kassel e Hannover ¿ e muito possivelmente com o Partido Nacional Republicano, que reclama a herança hitlerista.

O grupo era conhecido da polícia, que possivelmente tinha um agente infiltrado na rede. Os arquivos policiais sabiam também das reuniões e dos ¿cultos¿ praticados em honra do Terceiro Reich. Além disso, o grupo havia divulgado (em 2010), com venda livre na Internet, um cd denominado ¿Adolf Hitler lebt!¿ (Adolf Hitler vive!), com um tremendo ¿hit¿ denominado ¿Donner Killer¿ ¿ Donner, kebap, é a comida, e ao mesmo tempo o nome das pequenas lojas de lanches rápidos, dos turcos residentes na Alemanha.

Os crimes, longos treze anos sem solução, eram conhecidos como ¿os assassinatos do kepab¿!

Entender o ódio
A pergunta que não se cala é imediata: por quê? Ou melhor: por que ainda? Nenhum dos três principais acusados ¿ são jovens - viram a guerra, não conheceram o Partido nazista em sua época de apogeu e não participaram de suas massivas demonstrações cenograficamente preparadas... Como historiador, e acima de tudo como educador, gostaria de refazer o percurso destas pessoas e voltar à escola, aos livros e aos professores que tiveram...

Gostaria de saber como estudaram história: o que leram, se foram levados a algum museu ou exposição sobre a guerra ou se leram sequer cinco páginas sobre o holocausto? Teriam vista sequer um filme, um documentário sobre os horrores na Rússia ou Polônia ocupada? O mal não é inato, não deve ser algo inscrito no DNA ou no ¿solo e no sangue¿ (¿Blut und Boden¿), como os próprios nazistas queriam... Não, a resposta não deve residir aí.

Houve uma falha, algo que quebrou no fundo da vida dessas pessoas banais, num bairro banal, de uma cidade industrial interiorana e também banal. Em algum momento a educação ¿ não só o ensino da história ¿ mas, todo o processo educativo, falhou! A escola não soube, ou não pode com seus meios, evitar o nazismo (de novo). O grupo de Zwickau é uma derrota da escola, para além de comprovar a leniência histórica da polícia alemã com a extrema-direita fascista.

Podemos, é claro, falar de uma sociedade hierárquica, por demais organizada, pronta para sacrificar o individual e o humano, ao rigor das agendas, das normas, dos parágrafos e artigos dos códigos, dos quais não se pergunta, ou questiona, a origem e significado.

Podemos, é claro, falar de pessoas massivamente sozinhas, em rotinas enfadonhas, sem espaço para o diferente, onde até um passeio, uma ¿Pils¿ no bar da esquina, obedece a regras, horários e normas, que não podem ser contrariadas.

Podemos é claro, falar de pessoas que não se cumprimentam, ou o fazem quase como um rosnado, que fingem não ver o outro e que lêem sempre o mesmo livro barato da ¿Reclamen¿ na viagem de metrô só para não falar com o passageiro ao lado.

Podemos, ainda, falar de uma pequena classe média, de uma burguesia de lojistas, de funcionários públicos e agentes do estado ¿ todos na beira da proletarização ao estilo europeu! ¿ que desconfiam naturalmente de estrangeiros. Pouco importa que você fale alemão, já estão disponíveis a não entender, a não ajudar, a recusar uma informação ou mesmo um serviço.

Mas, nada disso explica por si só o retorno. Mesmo rotineiros e solitários a grande maioria dos alemães é partidária da República, apóia a Constituição democrática e convive de forma normal com os seus vizinhos, mesmo se eles são estrangeiros. Muitos preferem bares, restaurantes e quiosques de turcos, gregos ou italianos.

Mas, podemos também acreditar que existem aqui e ali pessoas caladas, bons vizinhos, que gostam de gatos e pagam suas contas em dia, que não fazem barulho e não perturbam os vizinhos, como Beate, e que tramam coisas terríveis.

Quem deseja o passado
Há, contudo, uma minoria disponível ao retorno da história, a sua repetição ¿ e ainda esta vez não é como burla, comédia ou farsa, como atestam os mortos de Zwickau. Há um componente autoritário, há um componente de recusa ao diferente e de frieza nas relações interpessoais e, em torno disso tudo, uma profunda falha de educação ¿ no seu sentido mais largo.

Por isso mesmo, pelo papel dos educadores, que o passado não é algo morto, um lugar que não existe mais. Muitos historiadores, colegas de grande valor, foram conquistados por matizes diferentes de uma leitura narrativista da história, onde o objeto do historiador não é o passado e sua reconstrução, mas sim as ¿falas¿ sobre o passado, todas dotadas do mesmo estatuto de valor. Penso que não. Nem todas as narrativas possuem o mesmo valor heurístico, para não falar em valor ético. A narrativa sobre os campos de concentração feita pelos seus guardas SS não possui o mesmo valor da narrativa de um prisioneiro do mesmo campo, embora ambos tenham vivido no mesmo espaço e tempo. O que cada um vive difere intrinsecamente da vivência do outro. E cada vivência é única, precisa ser resgatada e exposta. Ela é a verdade? Não toda a verdade, é a verdade vivida, ou seja, o passado. A multiplicação de verdades vividas, juntas, comparadas, cruzadas, constitui uma rede de veracidade.

Temos que nos apressar num esforço contínuo para evitar rupturas nesta vasta rede de verdades vividas. Uma falha na malha, ampla, diversa, como uma tela iluminada de Matisse, é o bastante para o risco de ignorar o que foi vivido, condenando-nos a viver de novo e de novo o ¿já existido¿.

Se os assassinos de Zwickau tivessem visitado, quando adolescentes, o Campo de Sachsenhausen ou Dachau teriam eles organizado o grupo neonazista que torturou e matou durante anos impunemente? Eis uma questão importante.

Quando na Alemanha, ou ainda agora no Chile, ou mesmo no Brasil muitas vozes declaram que o passado está morto e não vale à pena ressuscitá-lo, cometem um erro basilar: nenhum passado é morto. São vivências, próprias e dos outros, que continuam a existir, alimentar-se mutuamente e, no limite, a repetir-se.

Olhando agora pela minha janela, vejo o todo o passado nos tijolos remendados do bloco de apartamentos da Rua da Comuna de Paris. O passado está lá, está na Rua da Primavera e está com aqueles que morreram porque o passado vive.