Colunista
03/07/2013 - Copyleft

Para além da hora



“Eu sou a hora
E a hora é de assombros...”

(Fernando Pessoa)

O Brasil não é a Europa do euro. Não vivemos sob a sombra de uma instituição – ou de uma organização informal, mão invisível e manipuladora, que paira disforme sobre o povo – como a “Troika”, formada pela Comissão Europeia (leia-se, a cúpula da União Europeia), o FMI e o Banco Central Europeu que cassam, suprimem e rejeitam direitos sociais e, mesmo direitos civis, conquistados em décadas de lutas.

Não vivemos sob as ditaduras que proliferaram, sob a sombra de países ocidentais e mesmo de empresas petrolíferas ocidentais, como a Tunísia, Líbia ou Egito – este, ainda, hoje com a população nas ruas buscando recuperar a democracia roubada por um partido religioso e autoritário, a Irmandade Muçulmana.

Talvez tenhamos algo em comum com a Turquia: um grande país (quase 74 milhões de habitantes), com um regime de democracia representativa, com governante (primeiro ministro) eleito em 2003 e um desempenho econômico de bom nível, com bom crescimento e ampliação da inclusão social e, contudo, em grave crise entre a elite política – eleita! – e a população.

Contudo, na Turquia, o autoritarismo do primeiro ministro, Recep Erdogan, e a busca da imposição de regras religiosas como uma agenda de governo, contrariando e ofendendo os princípios de laicidade – separação entre Estado e Religião, no caso turco, o Islã – nos negócios públicos, é o alvo das multidões nas ruas.

E o Brasil?

Nos últimos anos houve um crescimento notável do padrão de vida do brasileiro médio, inegável, em especial das novas camadas médias do país, com um novo conjunto de quase 95 milhões de pessoas (ver o belo livro de Marcio Pochman: “Nova Classe Média?”). Estes chegaram a patamares não previstos de consumo e bem-estar. Ora, por que então estão nas ruas protestando? Para entender isso, devemos levantar alguns pontos fundamentais.

Em primeiro lugar quem está nas ruas? Uma pesquisa feita no Rio e em São Paulo mostrou multidões de jovens, dominantemente de jovens em idade escolar, secundaristas e universitários, estavam nas ruas. Nas marchas, nas quais eu estive, no Rio, eram rostos jovens e alegres, preocupados com o futuro do país. Havia, ainda, multidões de empregados do comércio, funcionários dos escritórios e todo o tipo de pessoal de serviços e, além de tudo, demais empregados terceirizados e precários – simplesmente em vez de ir para casa (muitas lojas e escritórios fecharam mais cedo nos dias de manifestações) ficaram e misturavam-se aos universitários, desde cedo organizados em praças como o Largo de São Francisco. Havia, também, um imenso número de pessoas vindas dos bairros da Zona Sul e da Periferia da Baixada Fluminense, saindo em filas pelas bocas das estações de metrô.

Havia, juntos, idosos e crianças, com os jovens sempre à frente. Um número, incalculável, ficava nas calçadas, aplaudia, apitava, gritava. Das janelas da Avenida Rio Branco e da Presidente Vargas chovia papel picado.

No dia 27 de junho de 2013 era um milhão e duzentas mil pessoas na Avenida Presidente Vargas.

O único paralelo que me incorreu foi um desfile de carnaval, do bom carnaval carioca: pela Rio Branco “desembocavam” na Presidente Vargas as “alas” daqueles que tinham algum tipo de organização: ora vinha “ala” dos estudantes da UERJ, ora vinham os da PUC. Em seguida, “a caráter”, chegava um grupo de enfermeiras, exigindo seus direitos; em seguida, idosos; depois funcionários de empresas ou autarquias públicas, todos com faixas e cartazes, denunciando descasos. Eram alas e alas, algumas, com cartazes específicos, sobre suas lutas específicas, outros, a maioria, com palavras de ordem gerais.

“Abaixo tudo de errado e já!”
Os cartazes eram, em si mesmos, um espetáculo: claro, lá estavam os cartazes pedindo “Passe Livre” e “Enfia 0,20 centavos...” Contudo, havia muitos cartazes que resumiam com sabedoria, muito mais do que a mídia supunha, as propostas: “+Educação; +Saúde; -Corrupção”. Sem dúvida, com três palavras e três sinais aritméticos, conseguiram uma síntese fantástica do que sequer no país. La vai por água a baixo o bordão conservador: “eles não têm agenda” ou a “agenda é pouco clara”. Na rua, eles sabiam o que pedir!

Um grupo de jovens rapazes encenava um “beijaço” e erguiam cartazes: “Felicianus: me cura para eu comer sua mulher!” ou “Gay é doença? Então me aposenta!” ou, de forma muito linda, duas jovens que traziam uma faixa: “Ninguém cura nosso amor!” Faixas saudavam o governador do Rio e seu Prefeito com epítetos vários, cumprimentavam as máfias do transporte urbano e aqui e ali surgiam caricaturas, não muito favoráveis, representando a presidenta.

O cartaz, creio que eu o vi pela primeira vez em Sampa, “Vergonha: passagem mais cara que maconha!”, era repetido em várias formas e cores. No meio das alas emergiam o grande “A” da Anarquia, algumas vezes sobre uma folha da canabis. A quantidade de máquinas fotográficas e de telefones com câmaras era enorme: todos queriam guardar, garantir, a memória que estavam lá, que disseram “Presente!” De tempos em tempos surgia, entre grupos mais compactos, o refrão unânime que transbordara dos estádios (Poxa, quem inventou isso de “Arena”?): “Sou brasileiro com muito orgulho...”.

Havia ainda conflito: a entrada da “ala” da galera do PSTU na Avenida Presidente Vargas, através da Avenida Rio Branco, foi vaiada e grupos na calçada gritavam “Sem partidos”. O mesmo acontecera, um pouco antes, com algumas pessoas com camisetas da CUT. Neste caso, podia-se ver, em muitos rostos, o ódio. Esta era uma faceta dura e agressiva. PSOL, PSTU ou “A Cauda Operária” nada tinham, ou tem, em comum com partidos no poder em Sampa ou no Rio. Por que tamanha rejeição aos partidos e, mesmo, em face de todos os partidos?

Ao mesmo tempo, uma boa parte da esquerda se declarou incrédula e acusou os jovens de serem “a cara da nova direita”. Ficaram em casa. Somente, e deve-se dizer claramente, somente o presidente nacional do PT pegou a hora nas mãos e disse que era o momento de ir para as ruas. Mas, mesmo assim, os responsáveis em Brasília torceram o nariz. Houve medo e ignorância sobre a vontade popular.

“Sem Partidos!”... Sem partidos?
O PT é o partido no poder no Governo Federal, desde 2003. O PSDB governa Minas Gerais desde 2003 e São Paulo desde 1995 (esquecendo o “acidente” Cláudio Lembo!) e no Rio de Janeiro o PSB e o PMBD governam desde 2003. Tais partidos sofreram desgastes naturais do longo exercício de poder ou estão sendo reprovados por inépcia e descaso ou, ainda, perderam os laços de representatividade com seus eleitores e militantes. Ou, também, tudo isso junto.

Mas, isso não explica que partidos sem exercício de poder, e na oposição, sejam hostilizados nas ruas. Ok, digamos que são manifestações suprapartidárias. Mas, isso não implica em agressão e ódio aos partidos e, tão pouco, à renúncia impostas aos símbolos de opções políticas – “a praça é do povo, como o céu é do condor”, como nos ensinou o poeta. Nas “Diretas Já”, ainda sob condições precárias, do ponto de vista institucional, as bandeiras estavam lá, incluindo as grandes bandeiras vermelhas com a foice e o martelo.

Para muitas pessoas nas ruas, aqui e em São Paulo, havia sim uma brutal rejeição aos símbolos da política. Em verdade havia se operado, de forma progressiva, um contágio entre a explicável e natural rejeição, de um lado, aos políticos – àqueles notórios, esses mesmos que vocês estão pensando: os que ignoram a própria vontade popular por todas e em todos os campos que já sabemos e, por outro lado, as instituições republicanas. Ok, esta rejeição passou dos políticos para as instituições políticas, trazendo para as instituições republicanas uma recusa que apenas os maus políticos merecem. Eis o coração da crise: as práticas políticas no Brasil são tão ruins que contaminaram as instituições da República.

Eis aqui um fenômeno recorrente na história contemporânea, em especial, depois da emergência das grandes democracias de massas, com instituições representativas e pluripartidárias. Em meio a crises, de diversos cunhos, os partidos perdem sua “cola” com a população e os grupos que deveriam representar. Há descrença e certa revolta contra a as instituições que deveriam servir de “correia de transmissão” entre a vontade popular e poder, papel típico dos partidos, e então se dá a transmigração da militância e do eleitor para outro(s) partido(s) ou simplesmente a revolta e/ou o descrédito.

Quando esta crise da representação é aguda – foi assim, na Alemanha, em 1933 e, em outra chave totalmente oposta, na Venezuela, em 1999, quando os partidos tradicionais (a AD e o COPEI), desabaram – podem emergir forças inesperadas na sociedade, para o bem ou para o mal, como nos exemplos polares acima. Há, durante a crise de representação, uma tendência clara pela descrença dos partidos e um voltar-se para um “homem providencial”, um líder carismático, maior que os partidos e ele mesmo “portador” de uma mensagem “divina”, como Karl Marx descreveu o fenômeno do bonapartismo, no “18 Brumário”. Neste momento, o poder judiciário deve se decidir: ou fica ao lado do povo nas ruas ou declara as regras políticas como pétreas e acima da vontade popular.

Os políticos brasileiros, por desdém, faltaram a estas aulas e o poder judiciário, que hoje nega a livre manifestação da vontade do povo, é tomado de demofobia. Não entenderam que se não pode pedir aos políticos recusados pela população que se autorreforme. A crise de representação no Brasil obriga, pede e exige, que o povo, através dos meios institucionais, se pronuncie.

Crise dos Partidos
Vivemos, de forma clara, nas últimas semanas uma grave crise de representação – expressa na crise da capacidade de representação dos partidos, na ingerência do poder judiciário em limitar a vontade popular e na empáfia dos gestores públicos. Tal crise se expôs nas ruas, nua, quando partidos e organizações militantes da sociedade civil – como a CUT – foram rechaçadas. Algumas instituições, que pensavam “surfar” na onda, como meios de comunicação – que tentaram dirigir a crise exclusivamente contra o Governo Federal (leia-se, o PT e as super-reportagens sobre o “tomate-diamante”) foram, também elas, alvo da fúria popular – o povo não se deixou enganar. Outras instituições – ao menos aqui no Rio, pelo o que eu vi nas ruas – foram aclamadas, como a OAB, que se colocou ao lado dos manifestantes e apoiou e defendeu manifestantes presos e acuados. Ou seja, nas ruas, o povo soube distinguir entre “o bom, o feio e o mau”.

Corpos de pronto atendimento, a maioria de universidades públicas e bombeiros, foram, apoiados e ajudados pela massa dos manifestantes. No Rio, até PMs foram salvos e protegidos pela população, mesmo sabendo que quando podem... As exceções ficaram, ao que eu vi (ainda uma vez) por conta de Skins, Anarcos e “bitboys” bombados de academias de ginástica do Rio – estes últimos, claramente, fascistizados. Em alguns casos, como no assalto a ALERJ, a população de “Sem-Tetos” do Centro do Rio encontrou uma boa oportunidade, dramática e assustadora, para tirar algum proveito, em meio a uma vida sem grandes expectativas. Na maior parte das vezes assumiram a rua como moradia em decorrência dos custos e das distâncias cruéis do transporte urbano, abandonado pelo poder público!

Foi a volta do bumerangue!

O PT e as manifestações
O PT foi um alvo privilegiado das críticas. É justo? Se pensarmos os sucessos econômicos dos últimos anos, em especial dos dois mandatos do Presidente Lula, a resposta seria não. Da mesma forma, o governo Dilma Rousseff, em curso, marca-se pelo combate aos “malfeitos” e pela busca, até o momento sem sucesso, da retomada do crescimento econômico. Mas, aparentemente isso não bastou.

As novas classes médias, os grupos sociais em ascensão, em grande parte decorrentes das ações da administração do PT, querem mais. E já. Houve descuido na gestão e na condução política. Vou me repetir: o arco de alianças criado para sustentar o primeiro governo de esquerda desde o fim da Ditadura no Brasil foi por demais distendido. Ao alongarmos o arco da governabilidade teríamos trazido para dentro do campo da esquerda alguns dos piores nomes da direita que sempre governou este país, os velhos donos do poder, como: José Sarney, Renan Calheiros, Moreira Franco, Delfim Neto e avançado até apertar as mãos (cheias!) de Paulo Maluf.

Então, o arco rompeu!

Ora, milhares de pessoas, durante e no final da Ditadura, foram para as ruas, lutaram, foram torturados e morreram para construir o PT. O partido não pertence a um grupo, pertence à história da luta dos brasileiros e tais alianças causam descrença e, no limite, revolta.

A gestão foi também descuidada em graus variados: o arco da governabilidade, uma decorrência da Constituição de 1988 e da estrutura e composição do próprio mapa eleitoral brasileiro (onde a esquerda não tem mais do que 30 ou 35% dos votos), entregou ministérios e órgãos vitais para o país em mãos inadequadas: Saúde, Educação, Moradia e Transportes foram parar em mãos de partidos de ocasião e sem compromissos com propostas populares. As alianças não poderiam ter ido tão longe e serem tão flexíveis. No caso do Rio de Janeiro o PT foi emparedado pela direção nacional e virou linha auxiliar de um governo odiado pelo campo da esquerda. Professores, médicos, moradores das periferias, funcionários públicos são abandonados em nome da construção de uma cidade para turistas, acampamento de empresas de construção e de serviços, que o povo não usufruiu.

Ora, o PT possui quadros brilhantes em Educação e Saúde, sabemos disso. Contudo, não obtemos o que se pretendia. Só um exemplo, derivado de minha experiência como professor: a primeira vez que um garoto ou garota brasileiro se vê em face do Governo Federal é no ENEM. Pois bem, quantos exames do ENEM foram feitos com os devidos cuidados e não causou na galera um sentimento geral de logro, perda e de dúvidas? Ora, a Fazenda Federal, com seus meios ilimitados, caça cada centavo dos contribuintes e nunca erra e os políticos, graças, colocaram em pé um voto digital memorável... E o ENEM? A resposta é a garotada com nariz de palhaço nas ruas. Ou seja, quando se quer ter um sistema informacional de bom nível, nós temos... Só falta querer!

Os Ministérios das Cidades e dos Transportes, foco constante de denúncias de corrupção, planejam obras faraônicas – desde o Trem Bala Rio-São Paulo e o Cais em “Y” para turistas no Rio – só para ficar nisso! – enquanto a população fica prisioneira nos vagões “de gado” da Supervia (no Rio) ou nas paradas e atrasos constantes do Metro de São Paulo. Onde estavam as prioridades?

As opções estavam (e ainda estão) erradas, desviadas e ignoravam as necessidades.

Trata-se de uma critica ao PT? Claro que sim. Por que fazer critica ao PSDB ou PMDB? Não voto nestes partidos. Não são partidos populares e não espero deles uma agenda includente, popular e progressista. Assim, critico o partido que abandonou, por descuido ou erro, os votos recebidos para um mandato de mudanças.