Colunista
15/07/2006 - Copyleft

Pinochet, quem diria, acabou no CV



O general Manuel Contreras, comandante do aparato militar responsável pela prisão e desaparecimento de sabe-se lá quantos chilenos nos anos 70 e 80, hoje cumpre pena pelo assassinato de um alfaiate. Da cadeia, enviou carta ao juiz Cláudio Pavez, que investiga a morte do coronel Gerardo Huber, em 1992, em que atribui a riqueza do general Augusto Pinochet ao refino de cocaína numa instalação do exército na cidade de Talagante. Contreras era amigo fraterno de Huber, ligado ao tráfico de armas para a Croácia, durante a guerra nos Bálcãs, na década passada. Tutti buona gente, não é mesmo?

Pinochet liderou o golpe contra Salvador Allende, em setembro de 1973, e pôs seu amigo Manuel Contreras no comando da Dina, a Direção de Inteligência Nacional, órgão máximo da repressão política aos opositores da ditadura. Em menos de dois anos, o então coronel lançou a pedra fundamental da Operação Condor, que a partir de 1976 foi integrada pelas forças militares das ditaduras de Argentina, Brasil. Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

Para cumprir seu papel, a operação mantinha uma ¿central de coordenação¿ que checava arquivos próprios e alheios, recebia relatórios com antecedentes e acionava outras instâncias para obter novos dados. Na comunicação entre si, os órgãos empregavam linguagem cifrada, código simples em que cada letra minúscula da mensagem clara era substituída por uma maiúscula do alfabeto cifrado.

O modelo do banco de dados foi inspirado no da Interpol parisiense, com uma novidade, que era a categoria ¿subversão¿. Tudo foi planejado cuidadosa e detalhadamente, para funcionar como ¿um sistema de comunicações moderno e ágil, que permita atender aos princípios de rapidez e oportunidade na entrega da informação¿, como detalha o documento encontrado pelo professor Martín Almada no porão de uma delegacia policial paraguaia, depois da deposição do decano dos ditadores sul-americanos, Alfredo Stroessner.

Tamanho grau de sofisticação não prescindiu de apoio financeiro nem material da inteligência norte-americana, comprovado por informações como a encontrada pelo professor Patrick McSherry, da Universidade de Long Island, ao examinar documentos sobre o envolvimento do governo dos EUA com as ditaduras sul-americanas. O próprio Departamento de Estado admitiu a participação de seus oficiais na montagem da Operação Condor, num telex de 1978, enviado pelo embaixador no Paraguai, Robert White, ao departamento. Nele, diz que instalações norte-americanas em Assunção foram ¿usadas para coordenar as informações da inteligência¿ entre os países sul-americanos.

O telex acrescentava que ¿obviamente, esta é a rede Condor, da qual temos ouvido falar nos últimos anos¿. Ao noticiar o fato, o jornal ¿The New York Times¿ adiantou que o documento abria novas frentes de investigação acerca da participação norte-americana na Operação Condor, ¿que, entre outras coisas, organizou esquadrões da morte para assassinar críticos em seu país de origem e no exterior¿.

É o idealizador desta verdadeira rede de extermínio internacional, o agora general Contreras, quem acusa seu antigo chefe de produzir e traficar cocaína, com a colaboração do empresário Edgardo Bathich, do traficante sírio Monser Al Kassar e do filho mais novo de Pinochet, Marco Antônio. O responsável pelo refino da cocaína era o químico Eugênio Berríos, funcionário da Dina assassinado no Uruguai, para não depor sobre o envolvimento da Dina na morte do chanceler do governo Allende, Orlando Letelier, em Washington, capital norte-americana, ocorrido em setembro de 1976 ¿ um mês depois do acidente que vitimou Juscelino Kubitschek na Via Dutra. Aliás, os três principais líderes civis da oposição brasileira morreram no espaço de nove meses, entre agosto de 76 e maio de 77, no começo da Operação Condor: JK, João Goulart e Carlos Lacerda.

A denúncia de Contreras confirma a suspeita da disseminação das drogas como política de governo para anestesiar a juventude rebelde e manter a sociedade sob controle mais facilmente. A revolta dos estudantes na França, nos Estados Unidos, na antiga Tchecoslováquia e em outras partes havia repercutido também nos países sul-americanos, com evidentes transtornos para os regimes ditatoriais. Além disso, a liberação sexual e a contracultura eram fenômenos também recentes, e os militares optaram por deixar circularem as drogas entre os jovens como forma de canalizar para outro lado sua rebeldia. No Brasil dos anos de chumbo, quem foi preso por droga ¿dançou¿ e quem foi preso por política ¿caiu¿, segundo a terminologia que distinguia os ¿alienados¿ dos ¿conscientes¿.

A tolerância das drogas gerou a rápida expansão do mercado e a formação dos grupos de produção, importação e comercialização que se fortaleceram através dos anos. Por sua vez, o surgimento da guerrilha urbana trouxe os assaltos a banco (¿expropriações¿) e seqüestros de cunho político. A repressão a esses crimes juntou nas cadeias revolucionários e bandidos comuns, convivência que propiciou aos segundos rudimentos ideológicos cujo resultado são o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e outras facções criminosas ligadas ao narcotráfico no país e no exterior. Com sua denúncia, Manuel Contreras inseriu ditador Augusto Pinochet neste complexo cenário, onde o mesmo agente está em ambos os lados do processo. Não é o único, com certeza, mas deve ser o mais proeminente e emblemático, até o momento, pelo menos.

(*) Jornalista e escritor, pesquisou a Operação Condor e os assassinatos políticos na região do cone sul-americano durante o ciclo militar iniciado em 1964 no Brasil.