Colunista
15/01/2014 - Copyleft

Reveses e contrariedades para a direita

Se olharmos com atenção para o cenário mundial, veremos que nem tudo foram flores para as direitas em 2013, que elas padeceram de reveses e contradições.




O catastrofismo é moda, tanto à direita quanto à extrema esquerda, no Brasil. À direita, porque ela não tem programa. Ou melhor tem, mas não pode confessá-lo, pelo menos na arena política em sentido estrito. Pode através da mídia e/ou de arautos que não seja candidatos: desarticular a fórmula de crescimento do salário mínimo, destroçar o Bolsa-Família sob o argumento de que “vamos fazer mais e melhor”, acabar com esta mania de que pobre das periferias do Brasil tem direto a médico próximo, e por aí vai. Outra ponta deste catastrofismo é apontar que o Brasil já está na catástrofe. Os avanços sociais não existiram, o país está quebrado ou quebrando, o tomate vai nos afogar inflacionariamente, a Petrobrás vai se afogar no Oceano Atlântico, o PT é o Partido mais corrupto da história mundial, a Copa já é um fracasso, a Olimpíada outro, etc.

À extrema-esquerda, a orquestra  toca pelo mesmo diapasão, embora com alguns solos diferentes. Nada mudou no país, houve migalhas para os pobres e fatias mais gordas ainda para os ricos, Dilma, Lula e FHC são farinha do mesmo saco, etc. Acrescente-se aí uma desesperança generalizada no mundo: tudo está horrivelmente controlado pela direita internacional, etc. Às vezes há variações jazzísticas: o mundo está à beira de uma revolução mundial, como demonstraram as manifestações de junho passado, as maiores que o país já teve (sic), a dita revolução só não avança porque no meio do caminho tinha um Lula, tem uma Dilma no meio do caminho, estes espectros do capitalismo internacional.

Muita gente de outras colorações políticas cede aos catastrofismos. Mas se olharmos com mais atenção para  o cenário mundial, veremos que nem tudo foram flores para as direitas mundiais em 2013, que elas padeceram de reveses e contrariedades de monta.

As direitas: as correntes políticas que, contra todas as evidências, continuam pregando a liberação e supremacia dos mercados como panaceia universal, favorecendo o rentismo sobre o investimento produtivo, defendendo o rebaixamento salarial e do poder aquisitivo de populações inteiras como catapulta para a “competitividade”, cortando programas sociais, em alguns casos investindo contra imigrantes, “países do sul”, estas coisas. De quebra, continuando a pregar em certos países, mesmo veladamente, as soluções militares para os conflitos internacionais e até internos.

De longe, a maior contrariedade para esta direita foi o renascimento da Rússia como potência diplomática. Não morro de amores pelo czarismo renovado de Vladimir Putin, mas decididamente o governo russo foi o responsável por uma reviravolta nas expectativas no Oriente Médio, no sentido de que soluções diplomáticas são vislumbradas para os dois maiores conflitos que a região vive no plano imediato: a guerra civil na Síria e o programa nuclear iraniano. A iniciativa russa, que, por força das circunstâncias, ganhou o relativo apoio dos países do Ocidente, compôs um quadro de neutralização da crescente influência saudita na região  e sua metástase chamada “Al Qaïda e suas franquias”.

Outra contrariedade grave para as direitas foi que não conseguiram deter, nos Estados Unidos, a instauração do novo programa de saude pública do governo federal, ainda que este tenha se enrolado também nas próprias pernas.

Já que falamos em Estados Unidos, a eleição do democrata  Bill Blasio para a prefeitura de Nova Iorque foi não só uma contrariedade mas um revés para as direitas (ver artigo do governador Tarso Genro nesta página). Afirmando que o principal problema da cidade é a enorme desigualdade social que a caracteriza, Blasio já vem angariando adjetivos de “populista”, “demagogo”, olhado como uma espécie de Hugo Chavez redivivo e ancorado no rio Hudson.

Falando em Hugo Chavez, a vitória de Nicolás Maduro nas eleições municipais da Venezuela foi um grave revés para as direitas, também a eleição de Michele Bachelet no Chile e, antes, a reeleição de Rafael Correa no Equador. O processo de negociação entre o governo colombiano e as FARC, realizando-se em Havana, é juma contrariedade para as direitas, bem como o simples aperto de mão entre os presidentes Obama e Raul Castro no funeral de Mandela.

Na Europa, em que pese a continuidade dos “planos austeros” que estão ressecando as economias do continente e pulverizando o futuro de milhões de pessoas em vias de empobrecimento, em que pese o assanhamento da extrema-direita em vários países, como a França, a Holanda, e o mostrar de garras anti-imigrantes e pobres por parte da mais-direita alemã, a principal contrariedade para as direitas veio justamente de dentro de seu bastião principal: foi a adoção, pelo governo de Berlim, de um salário mínimo nacional. Além de uma contrariedade no plano político institucional, esta adoção foi um grave revés teórico e doutrinário para os sacerdotes fundamentalistas dos mercados desregulados e desreguladores de tudo o mais.

Para encerrar este curto sobrevôo, citarei a eleição do Cardeal Bergoglio, hoje Papa Francisco I, no Vaticano. Bergoglio tem um passado controverso, mas como dizia o Padre Antonio Vieira, e história mais importante é a do futuro. Francisco I não está levando a cúpula da Igreja Católica para a esquerda; mas a está puxando para o centro, depois do reinado, durante 35 anos, da dupla João Paulo II, o globe-trotter do anti-comunismo (como poderão santificar um prelado que se recusou a receber as Mães da Praça de Maio e os parentes dos desaparecidos chilenos?), e Bento XVI, o arqui-conservador doutrinário. Por mínimo que seja, este movimento é uma grave contrariedade para as direitas, envolvendo desde a retomada de um discurso que lembra a pobreza do mundo como tema central da Igreja, até a pregação da humildade – pelo menos – diante de questões como os casamentos e direitos de pessoas do mesmo sexo, entre outros. Além disto, o Papa está mexendo na estrutura da Cúria Romana e do Banco do Vaticano. Ele que se cuide.

Mais uma coisa, para desespero de nossos arautos da direita na mídia. Quando o presidente Jo’se Pepe Mujica (que deveria ganhar o Premio Nobel da Paz) anunciou sua bem sucedida campanha para liberar o ciclo completo da maconha, da plantação ao consumo, sob controle do Estado, os arautos mais açodados da direitona apressaram-se a desqualificá-lo, como sendo um homem ridículo e mal enjambrado, das roupas  às ideias e ideais. 2014 reservou um duro golpe para tais canastrões da velha mídia: o estado do Colorado seguiu no mesmo caminho, nos Estados Unidos, e até adiantou-se, promulgando a lei de regulamentação do tema antes que o Uruguai o fizesse. E há mais estados norte-americanos anunciando que vão seguir ma mesma esteira.

Quero ver os falsos catões da velha mídia esceverem que estado norte-americano é mal enjambrado.

Como diz o Leblon, a ver.







+deste colunista por data

por título