Colunista
24/11/2014 - Copyleft

Um novo califado do Estado Islâmico em busca da unidade

Como surgiu esse Estado Islâmico, que ocupa já boa parte do Iraque, chegando perto da nova Bagdá, dominando o norte da Síria e que já tem ramificação na Líbia.




O califado otomano desapareceu em 1923, pelas mãos da modernização ocidental de  Ataturk, fundador da Turquia. Em outubro passado, um auto proclamado califa, Ibrahim, no novo Estado Islâmico (EI), de tradição sunita, quis recriar a UMA (comunidade mussulmana reunificada), dos tempos gloriosos do grande califado abássida de Bagdá (750-1258) que, como uma tenaz,  afogava a cristandade; foi retido no ocidente em Poitiers no século VIII e, pelo oriente, o Islã chegou às portas de Viena no século XVI. Aquele califado era razoavelmente tolerante, de grande cultura, como aconteceu também com o califado de Córdoba, ao contrário do atual, fanático e violento. As redes sociais têm difundido um mapa com a ambição expansionista do EI, de ir, como uma lua crescente deitada, da península Ibérica ao Paquistão. Mas não confundamos intenções com realidade. O EI pode a meio termo ter dificuldade em crescer e mesmo sobreviver.

Como surgiu esse Estado Islâmico, que ocupa já boa parte do Iraque, chegando perto da nova Bagdá, dominando o norte da Síria e que já aparece com ramificação na Líbia? Os serviços secretos dos Estados Unidos, Inglaterra e França financiaram e treinaram grupos heterogêneos da oposição armada na Síria contra Bashar al-Assad, considerado, com o Irã, um dos grandes inimigos  das potências ocidentais. Porém daí surgiu um grupo radical, que criou o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, logo depois apenas Estado Islâmico. Assim como, anos atrás, os Estados Unidos financiaram os talibãs, na luta contra o  governo pro-soviético no Afeganistão. Criavam, nos dois casos, o ovo da serpente.

Os meios de comunicação do ocidente apresentam o Estado Islâmico somente em sua crueldade, na degola de inimigos. A realidade é mais complexa. Sua política impunha, em princípio, que as populações ocupadas se convertessem ao Islã, ou pagassem pesados tributos. Entretanto, na realidade, os mussulmanos xiitas – o grande inimigo-, ou mesmo sunitas  que não aderiam, assim como curdos, cristãos, entre os quais a velha Igreja Caldéia e os yázidis,  grupo religioso de antiga tradição zoroastrista, vêm sendo massacrados e fogem aos milhares para a fronteira com a Turquia. Mas o EI não é apenas “uma horda de fanáticos religiosos” ou um grupo terrorista, como proclamaram os Estados Unidos, mas formou um verdadeiro estado se, com Max Weber, consideramos que cumprem com os requisitos para tanto, ou seja, possuem um território e concentram  o monopólio da força .

Como o EI tem tanto poder econômico? Um portal russo avaliou sua riqueza em dois bilhões de dólares. E de onde vem seu mais sofisticado armamento, que não se reduz àquele tomado ao inimigo? Seu centro está em Mossul, grande  produtor de petróleo. Este petróleo é vendido, clandestinamente, por intermediários turcos, em troca de armamentos. A indústria bélica das grandes potências se beneficia disso.

Durante anos, para as potências ocidentais e para seu aliado Israel, o inimigo eram os governos xiita do Irã e xiita-alauita da Síria. Mas o Estado Islâmico se opõe violentamente a estes e coloca aqueles em situação contraditória e embaraçosa, sem saber qual o inimigo principal a combater. O mesmo acontece com os governos sunitas da Arábia Saudita e dos países do Golfo. Para Israel, toda luta entre os estados árabes é útil porque os enfraquece. Mas os Estados Unidos e seus aliados estão interessados no petróleo do EI. Há então uma tímida abertura diante dos antigos adversários. Na sessão das Nações Unidas deste ano, o primeiro ministro inglês Cameron, encontrou o presidente do Irã, Hassan Rohani, mais moderado que seu antecessor. Entretanto, começavam ao mesmo tempo violentos ataques aéreos ao EI, certamente matando indiscriminadamente não só seus contingentes, mas populações civis. Apresentam-se as horrendas degolas do EI, não as consequências desses bombardeios. A posição mais cômoda é a da Rússia (e da China, mais em surdina), apoiando o governo sírio e o Irã dos ayatolás.

Como explicar a enorme atração de milhares de jovens para essa causa, no fundo, política e de identidade cultural e não apenas religiosa? Muitos são filhos de imigrantes árabes que vieram para o ocidente, e que, mudando seu nome, reencontram uma nova e ao mesmo tempo antiga identidade. Juram lealdade ao califa, proclamam ser candidatos ao martírio e dão testemunho através da mídia, instando outros jovens para que os sigam.

Vendo esse conflito e outros, como na Ucrânia, no Sudão ou na Nigéria, Francisco, bispo de Roma, diz que já estamos numa terceira guerra mundial “em partes”, “com crimes massacres e destruições” e faz um dramático apelo pela paz. Quando a presidenta Dilma, na ONU, falou na necessidade de diálogo no conflito com o EI, foi classificada de ingênua ou anti-americana. Porém, estava na linha tradicional do Itamarati. Não podemos fazer do EI um novo “império do mal”, como se referiam a países inimigos, com maniqueísmo, Reagan e Bush. A realidade é mais complexa, inclui petróleo, indústria bélica, a política destrutiva de Israel contra o mundo árabe e a posição geopolítica de dominação dos países ocidentais. Há também uma tentativa impossível de unir o Islã. E, numa perspectiva mais geral, percebe-se nessa temática tão complexa, o mal-estar da juventude numa modernidade excludente.

 
(*) Sociólogo. Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes.