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18/02/2005 - Copyleft

Uma comparação inevitável











A questão descrita acima, feita por um jornalista da Radio Bandeirantes de São José dos Campos, em janeiro de 2005, é uma comparação inevitável.




Quando se compara a história política dos Estados Unidos, com a trajetória dos demais Estados americanos, ou quando se discute a ¿excepcionalidade¿ do capitalismo norte-americano, em geral não se dá a devida importância a dois fatos fundamentais. O primeiro, é que os Estados Unidos foram o único Estado nacional que nasceu fora da Europa, de um ¿poder imperial¿ vitorioso, ao contrário de todos os demais que nasceram de impérios em decadência ou em franco processo de decomposição. Como aconteceu, por exemplo, com os Estados latino-americanos, no século 19, e com todos os Estados africanos e asiáticos, que se formaram no século 20. Em segundo lugar, os Estados Unidos foram colônia do primeiro ¿império capitalista¿ da história, e logo depois, conquistaram sua independência, sem perder sua posição dentro do ¿território econômico britânico¿ onde estava em curso a primeira revolução industrial e no momento em que a Inglaterra assumia a liderança do movimento de globalização da economia capitalista. Estes dois ¿traços de nascimento¿ dos Estados Unidos, entretanto, não foram um fruto do acaso e se consolidaram exatamente no tempo e no contexto geopolítico e geoeconômico que separam a independência dos Estados Unidos, da independência brasileira.



Do ponto de vista geopolítico, a independência e a formação do Estado americano ocorreu durante a conjuntura internacional em que Grandes Potências disputavam entre si a hegemonia mundial, entre o fim da Guerra dos Sete Anos, em 1763, e o fim das guerras napoleônicas, em 1815. A própria Guerra da Independência Americana foi um capítulo desta disputa em última instancia, entre a França e a Inglaterra. E foi exatamente neste período que os Estados Unidos conquistaram sua independência, consolidaram seu território, escreveram sua Constituição da Filadélfia e elegeram seu primeiro governo republicano, aproveitando-se de sua ¿insularidade¿ territorial e adotando uma posição ¿ logo depois da sua independência - de neutralidade no conflito das Grandes Potências. Quando a Europa conseguiu se levantar depois de vinte anos de guerra contínua, e quando suas forças e governos conservadores conseguiram retomar o controle de suas periferias, definindo no Congresso de Viena, as bases da nova ordem política mundial, os Estados Unidos já estavam postos sobre seus próprios pés, do ponto vista do seu território e do seu Estado, definitivamente estabelecidos depois da sua última guerra com a Inglaterra, em 1812. Durante a maior parte do tempo ¿ entre 1783 e 1819 - os Estados Unidos tiveram que negociar suas fronteiras e seu comércio, com o ¿núcleo duro¿ das Grandes Potências, presentes na América do Norte, num momento em que elas estavam ocupadas por suas lutas intestinas , e sem capacidade de sustentar seus interesses em territórios considerados, naquele momento, longínquos, onerosos e mal defendidos.



Nestas negociações, os Estados Unidos obtiveram vitórias diplomáticas notáveis, porque definiram com precisão seus interesses nacionais e souberam utilizar a seu favor, as divisões e a fragilidade temporária das Grandes Potências e sua fragilidade temporária, começando pelo próprio tratado de paz assinado com a Inglaterra, em 1783, e culminando com os acordos assinados com a Inglaterra e a Espanha, em 1818 e 1819, que integraram e pacificaram seus territórios situados ao leste do Mississipe e na Flórida, e ao sul dos Grandes Lagos. Encerrava-se ali a primeira fase expansiva das ¿13 colônias¿ independentes, na hora exata em que os norte-americanos começaram a falar, pela primeira vez, no seu ¿destino manifesto¿. Quase no mesmo momento ¿ agosto de 1823 - em que o ministro de relações exteriores da Inglaterra, George Canning, propôs ao embaixador americano em Londres, Richard Rush, uma tomada de posição conjunta da Inglaterra e dos Estados Unidos em defesa dos novos países latino-americanos contra qualquer tentativa de recolonização por parte das demais potencias européias.



O presidente Monroe preferiu declinar o convite inglês e anunciar, como se fosse de sua iniciativa exclusiva, a Doutrina para a América que se transformou, na prática, numa cortina de fumaça ideológica que encobriu a verdadeira tutela exercida pela Inglaterra sobre toda a América Latina ¿ pelo menos até 1894 -, incluindo o Brasil que recém conquistava sua independência já sob a proteção da ¿doutrina inglesa¿. O fundamental, entretanto, é que foi naquele momento que se deu o primeiro grande passo de uma aliança estratégica anglo-americana que atravessa todo os século 19 e 20. A partir dali, o território e o poder americano se expansiram de forma quase contínua, com a anexação do Texas, em 1845, e com a guerra e a vitória sobre o México, em 1848, que representou um aumento de 60% do território americano, com a conquista e anexação do Novo México e da Califórnia, que se somaram ao Óregon, para abrir as portas do Pacífico para os Estados Unidos.



O século 19 ainda não havia chegado à metade e os norte-americanos já haviam dado seus primeiros passos também na direção da Ásia, quando o Brasil ainda não havia superado suas lutas regionais, nem havia conseguido ainda afirmar um poder central hegemônico dentro do seu próprio território herdado dos portugueses. Desde 1794, que a Inglaterra já admitira que os navios americanos comerciassem com as colônias inglesas do oriente, e logo em seguida estes navios já estavam chegando a Oman, Batavia, Manilha e Cantun. Mas foi em 1844 que o presidente americano, John Tyler logrou uma primeira grande vitória diplomática na Ásia, ao assinar um tratado com a China que lhes garantia ¿portas abertas¿, ao lado de todas e no mesmo nível das demais Grandes Potencias.



Logo em seguida, coube ao presidente norte-americano Millard Fillmore e ao seu Comodoro Perry, a obtenção ¿ em 1854 - do primeiro tratado comercial assinado pelo governo japonês com um país ocidental, que se transformou no início de uma outra longa parceria que só foi interrompida de forma trágica, durante a II Guerra Mundial. Resumindo, como se pode ver, quando chegou a hora da Guerra Civil americana, em 1863, os Estados Unidos já tinham completado a conquista do seu território continental, haviam se associado aos ingleses no controle de todo o continente americano e haviam dado passos diplomáticos e comerciais extremamente importantes no tabuleiro geoeconômico asiático. Na hora em que o Brasil enfrentava uma guerra com o Paraguai, sem nenhum projeto de expansão do seu poder territorial ou mesmo de seu ¿território econômico¿ supra-nacional.




Olhando para este mesmo período da história - que separa a independência dos Estados Unidos da independência brasileira - do ponto de vista geoeconômico, o que diferencia a economia norte-americana, é sua relação complementar e privilegiada com a economia inglesa. Na verdade, ao romper seus laços políticos com a Inglaterra, os Estados Unidos se transformaram imediatamente na primeira periferia ¿primário-exportadora¿, da economia mais dinâmica do mundo. A mesma posição estrutural que o Brasil viria a ocupar quase um século mais tarde, com a diferença fundamental que a Inglaterra e seu capital financeiro privilegiaram alguns destes países, muito mais do que outros, garantindo-lhes os capitais de investimento indispensáveis às suas grandes plantações e à construção da infra-estrutura para o escoamento da produção, como no caso de todos os domínios ou colônias brancas da Inglaterra, o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália e a África do Sul, ou mesmo, como no caso da Argentina, uma espécie de colônia informal dos ingleses.



Mas mesmo quando se toma como referencia o caso destes territórios privilegiados os números indicam que foram os Estados Unidos que ocuparam, durante todo o século 19, a principal posição dentro deste grupo de países que teve a vantagem de pertencer a uma espécie de ¿zona de co-prosperidade¿ da Inglaterra. Em alguns períodos, e em alguns casos, o investimento direto inglês nestes territórios chegou a representar 60% do investimento total do período, o que é compreensível em colônias que foram grandes plantações ou fornecedores minerais da Inglaterra. Mas este não foi o caso dos Estados Unidos que, apesar de ter deixado de ser colônia, manteve uma posição privilegiada dentro do ¿território econômico britânico¿ ou anglo-saxão.



Neste sentido, se num primeiro momento, os Estados Unidos foram uma periferia agrário-exportadora da Inglaterra, logo depois se transformaram num caso pioneiro, o primeiro caso de um desenvolvimento econômico nacional ¿a convite¿ de sua ex-metrópole, a Inglaterra. Posição que ficou em suspenso durante a Guerra Civil, devido à simpatia inglesa pela causa da Confederação, mas tudo voltou ao seu lugar com o retorno e a aprofundamento da sociedade entre o capital financeiro inglês e o norte-americano, depois de 1870.


Do ponto de vista norte-americano, a opção por esta aliança econômica com a Inglaterra não foi apenas uma imposição de sua estrutura produtiva colonial, foi também uma opção política e estratégica tomada já no primeiro governo constitucional dos Estados Unidos, de George Washington e do seu ministro da fazenda, Alexander Hamilton. O Tratado de Jay assinado pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, em 1794, foi uma iniciativa americana e se transformou no ponto de partida de uma parceria econômica entre os dois países que se manteve através dos dois séculos seguintes, a despeito de algumas disputas periódicas, dando aos Estados Unidos todas as vantagens dos Domínios ingleses, mas sem que os Estados Unidos tivessem que abrir mão de sua autonomia e de suas políticas econômicas nacionais. Entre 1815 e 1822, os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra tomaram várias decisões e assinaram vários acordos que selaram uma espécie de relação comercial preferencial entre os dois países. Mas apesar disto, os norte-americanos adotaram políticas mercantilistas ostensivas durante todo o século 19, e até pelo menos a 1º Guerra Mundial sem que tenham sido jamais retaliados de forma consistente e permanente pelo governo inglês.


Como se pode ver, a elite e os governos americanos adotaram desde a primeira hora de sua independência, uma estratégia de expansão do poder e dos interesses econômicos nacionais norte-americanos. Mas sempre contaram a seu favor, pelo menos desde 1794, com uma posição única e absolutamente privilegiada dentro do universo em expansão ¿território capitalista britânico¿. A hegemonia mundial do império inglês não teria existido sem suas duas pilastras fundamentais: a Índia e os Estados Unidos. Mas não há duvida que os Estados Unidos foram a verdadeira fronteira de expansão do ¿território econômico britânico¿ durante todo o século 19, para só depois se transformarem no carro-chefe do império e do capitalismo anglo-saxão.








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