Colunista
10/03/2013 - Copyleft

Vamos matar que está liberado!



Ou quase. É que o fato de um sinalizador disparado por um torcedor corintiano matar um jovem de 14 anos custou apenas uns trocados a menos na bilheteria.

A punição do Corinthians foi apenas um jogo sem torcida no Pacaembu, uma multa de 200 mil dólares e 18 meses sem torcida em partidas fora de casa, quando quase não há mesmo torcida.

É pouco, muito pouco.

A Conmebol optou por uma pena igual à aplicada ao Vélez, na última terça. Só que no caso do Vélez não houve morte. Uma diferença nada sutil.

Curiosamente, o clube brasileiro não foi denunciado pela morte do garoto, e sim pelo uso do sinalizador. Ou seja, é como se você atirasse numa pessoa e fosse condenado apenas por porte de arma. Uma piada digna de Chaves (o do México, não o da Venezuela, que fique claro).

Ora, o artigo 11 da Conmebol do estatuto para esta Libertadores diz que os clubes são passíveis das seguintes penas:

-advertência,
-repreensão,
-multa,
-anulação de jogo,
-atuar com portões fechados,
-proibição de jogar num estádio ou num país,
-perda de pontos e
-exclusão da competição.

Mas o Corinthians e sua torcida receberam apenas uma punição média: multa e jogar com portões fechados (por uma partida).

Se a morte de uma pessoa não gera a exclusão da competição ou a perda de pontos, o que pode provocar uma punição mais dura?

Nada. A Conmebol é uma organização tão avacalhada que tem um presidente vitalício.

A multa ao Corinthians de 200 mil dólares acabou sendo efetivamente a grande pena. E o dinheiro, é claro, vai para os cofres da entidade.

Se você é daqueles que acha que uma vida não tem preço, agora sabe que está errado. Uma vida custa 391 mil reais. Menos que o salário mensal de um bom técnico.

A impunidade no Brasil, e na América do Sul, acontece porque as leis são feitas e controladas por quem detém o poder. A lei não existe para impor regras gerais, mas para servir a uns poucos.

E esta regra transborda os estreitos limites da estreita Conmebol.

Por exemplo, o Ministro dos Esportes Aldo Rebelo fala em perdoar as dívidas dos clubes. Um absurdo inacreditável. Se os dirigentes destes clubes não fossem corruptos e inaptos (notem que usei “e” e não “ou”), estas dívidas já teriam sido pagas há muito tempo. Perdoar, neste caso, é o mesmo que dar dinheiro à corrupção.

No futebol tudo se perdoa. É como se os times e os dirigentes fossem crianças que não sabem o que fazem.

Mas eles sabem sim.

Por exemplo, em 1975, nos tempos da ditadura, Wadi Helu (ex-presidente do Corinthians) e José Maria Marin (atual presidente da CBF), então deputados estaduais pela gloriosa ARENA, pediram providências contra a TV Cultura (considerada um ninho de esquerdistas) em seus discursos na Assembleia Legislativa. Dias depois, Wladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, foi preso e assassinado.

O mesmo José Maria Marin fez, em 1976, um discurso elogioso a Sergio Paranhos Fleury, policial que se tornou símbolo da tortura no período da ditadura militar, dizendo que ele “ama sua profissão, (...) a ela se dedica com o maior carinho, sem medir esforços ou sacrifícios.”

Sim, times, dirigentes e políticos sabem o que fazem. E têm que ser punidos como adultos. Senão o país é que jamais deixará de ser criança.