Colunista
03/10/2003 - Copyleft

Vargas e a Petrobras





Vargas escolheu o dia 3 de outubro de 1953 para sancionar a lei que criara a Petrobras porque aquele dia lembrava o 23º aniversário da Revolução de 30. Vinte e três anos, sabemos os que passamos dos quarenta, escoam-se rapidamente. Naqueles 23 anos, o Brasil vencera desafios brutais, como a grande depressão econômica mundial, que, em nosso caso, atingira principalmente o café (fomos obrigados a queimar os estoques, para que seu preço não caísse ainda mais), e o conflito ideológico interno entre a esquerda e os integralistas, reflexo doméstico da ascensão do nazifascismo e da resistência dos humanistas à grande ameaça.



Naquelas duas décadas e três anos, Vargas soubera levar o País à guerra, negociar vantajosamente a cessão de bases militares no Nordeste, exportar matérias primas que se tornaram decisivas no esforço bélico e estabelecer, ao mesmo tempo, uma grande mineradora (a Vale do Rio Doce) e o complexo siderúrgico de Volta Redonda. Vargas decidira-se pelo apoio aos aliados porque essa era a opção geopolítica e ideológica que nos convinha, mas, nos meses prévios a essa decisão, e já em pleno conflito, deixou claro que não tínhamos outros interesses que não fossem os nossos, e que atuaríamos de acordo com essa opção soberana.



A sua deposição, em 29 de outubro de 1945, quando as eleições gerais já se encontravam marcadas para 33 dias mais tarde (2 de dezembro) é ainda uma questão histórica não resolvida. Alegaram os chefes militares que o destituíram que Vargas, com o apoio dos comunistas (os bodes de sempre), pretendia repetir o gesto de 10 de novembro de 1937, quando impusera o Estado Novo ¿ mas não há evidências nítidas de que isso viesse a ocorrer. O fato é que, mesmo deposto, Getúlio decidiu a vitória do general Dutra no pleito e retornou, sorridente ao poder, ao dar a volta por cima nas eleições de 3 de outubro de 1950.



O que marcou aquele período intenso, dramático e criador? O sentimento poderoso de soberania do povo brasileiro, que Vargas soube encarnar, e que encontrou seu ponto alto na resistência às forças internas e externas, exatamente com a criação da Petrobras.



Esta semana, sendo a semana da Petrobras ¿ cujos êxitos estão evidentes nos números de seu desempenho ¿ devia ser também uma Semana de Vargas. A criação da Petrobras foi uma das causas da coligação golpista chefiada pelos corifeus da antiga UDN contra Getúlio, que por vários caminhos, levaria ao suicídio do presidente em de 24 de agosto do ano seguinte. Os cinqüenta anos da Petrobras merecem mais do que os anúncios de júbilo. Merecem a publicação, por conta da empresa, da Carta Testamento de Vargas, em todos os jornais do País. Mas essa talvez fosse considerada uma ação subversiva, mesmo em um governo como o do PT.



Os lucros do poder


Se Vargas foi o grande estadista do século, na firme e serena defesa da soberania nacional, qual teria sido o seu contraponto? Ganha uma daquelas torrinhas da Petrobras, que foram o símbolo da luta pelo monopólio estatal do petróleo, quem responder certo: Fernando Henrique Cardoso. Diga-se, de passagem, que o efusivo sociólogo não se sentirá ofendido, uma vez que ele mesmo reclamou esse título, ao afirmar que, em seu governo, acabava-se a ¿Era Vargas¿.



Fernando Henrique está sendo coerente com a opção neoliberal de seu governo. Seu modelo de ex-presidente é o modelo norte-americano destes tempos de Enron, Kissinger, Bush, Karl Rove e mais alguns. Tanto é assim que capitalizou devidamente o poder.



Segundo informa a imprensa, sua excelência já ganhou alguns milhões nestes meses fora do governo, fazendo palestras para empresários a 100 mil reais por evento ¿ fora as despesas. Quem paga tanto para ouvir aulas sobre Max Weber? E até as suas terras ganharam com o poder. Compradas baratinho (quem não se lembra do episódio) em sociedade com Sérgio Motta, elas decuplicaram de valor durante o seu governo, da mesma forma que se decuplicou a dívida pública. Segundo consta, estão sendo vendidas por 3,5 milhões de reais. Provavelmente não haja, em Minas, hectares tão valorizados quanto os do Córrego da Ponte, em Buritis.



Foi uma boa providência vedar aos técnicos da área econômica o trabalho em empresas privadas durante algum tempo. É que, senhores dos segredos do Estado, poderiam utilizar-se dessas informações em proveito do interesse privado. É uma pena que não haja quarentena para os ex-presidentes da República, que podem ganhar muito dinheiro dando conselhos a investidores.



Fernando Henrique soube planejar para a sua vida com muita inteligência. Antes de deixar o governo, reuniu-se com os banqueiros e lhes cobrou a solidariedade no desemprego, criando uma ONG com o seu nome, instrumento legal para o recolhimento de recursos.



Ainda bem que ex-presidentes, como é o caso de Itamar Franco, se vejam constrangidos a exercer funções públicas, como as de embaixador, para manter o seu patriotismo e a sua dignidade, quando se encontram sem mandato eletivo.



Como se sabe, as regras do mercado são claras: ninguém compra de quem não quer vender.