Antifascismo

"Foi uma execução": 13 mortos no Brasil ao implementar o estado nova política contra gangues

Batida policial recente sugere que a polícia está implementando a tática de "atirar para matar" que o novo governador do Rio defendeu durante a campanha

15/02/2019 09:30

Um membro da Unidade Especial da Polícia Militar do Rio de Janeiro se posiciona durante uma operação na favela do Complexo do Alemão no Rio, em julho de 2018 (Mauro Pimentel/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Um membro da Unidade Especial da Polícia Militar do Rio de Janeiro se posiciona durante uma operação na favela do Complexo do Alemão no Rio, em julho de 2018 (Mauro Pimentel/AFP/Getty Images)

 

Quando estava fazendo campanha para se tornar governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel prometeu o uso da tática de “atirar para matar” contra os membros armados das poderosas gangues de drogas da cidade.

Agora, depois de uma operação mortal na qual 13 pessoas foram mortas, está crescendo o medo de que a polícia do Rio já esteja implementando esta política.

A polícia e os procuradores estaduais abriram investigações depois da operação sangrenta na favela Fallet/Fogueteiro no centro do Rio na última sexta-feira.

Parentes admitem que alguns dos mortos eram membros de gangues de drogas, mas dizem que eles tinham se rendido e entregado suas armas à polícia antes de serem sumariamente executados. Duas outras vítimas, incluindo um adolescente sem ligações com as gangues, foram torturadas e assassinadas em sua própria casa, de acordo com moradores.

“Nada justifica isso. Eles se renderam. A polícia preferiu executá-los”, disse Roberta Jeronimo, 23 anos, uma estudante cujo irmão Carlos Castilho, de 26 anos, foi um dos dez homens que reportou-se terem sido mortos na mesma casa.

Jeronima admitiu que seu irmão era um membro da gangue. Funcionários do necrotério disseram a sua outra irmã Priscila Rosa, de 33 anos, que ele morreu depois de ter sido esfaqueado e alvejado a curta distância. “Foi uma execução. Quero justiça”, disse ela.

“Foi uma operação muito simbólica”, afirmou Ignacio Cano, um professor de sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que disse prever que assassinatos policiais aumentem: “Tudo indica que haverá um aumento porque há um encorajamento aberto tanto do governo federal quanto do estadual.”

O Brasil já tem níveis chocantes de violência policial. Mortes causadas por “intervenções” policiais cresceram 20% em 2017 chegando a 5.144, de acordo com os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 367 policiais foram mortos no mesmo período.

Durante uma acalorada reunião pública na favela na terça-feira, moradores alegaram que as vítimas foram torturadas e esfaqueadas antes da polícia sair apressadamente com seus corpos.

Na reunião, Pedro Strozenberg, um mediador do escritório da defensoria pública do Rio, disse que deveria haver uma “investigação séria e transparente”. Porém, ele reconheceu que houve apoio para a ação policial na cidade. “Uma boa parte da sociedade acha que está isso certo”, disse Strozenberg.

Legenda da foto:

Carlos Castilho, 26 anos, uma das vítimas. Foto: Cortesia

Witzel, um juiz e ex-fuzileiro naval, afirmou que a polícia deve poder atirar e matar membros de gangues. Seu gabinete não respondeu a pedidos de comentários na terça-feira, mas na quarta-feira Witzel tuitou seu apoio à batida policial. “O que aconteceu em Fallet/Fogueteiro foi uma legítima ação policial”, disse ele em um vídeo. “Nossa polícia agiu de forma a defender os cidadãos de bem.”

Witzel é um aliado do novo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro cuja promessa de uma resposta linha dura à crescente criminalidade violenta foi a chave para seu sucesso eleitoral. Bolsonaro também prometeu impunidade para policiais que matassem criminosos.

Os policiais perceberam a mudança de tom, dizem moradores locais. O jornal Extra do Rio reportou na terça-feira que 42 pessoas foram mortas em operações da polícia em dez dias.

Uma das vítimas da batida policial em Fallet/Fogueteiro foi Felipe Santos, de 26 anos, cujo corpo foi encontrado no dia seguinte em uma floresta próxima. “Ele não morreu de uma ferida a bala. Ele foi esfaqueado até a morte,” disse sua parceira Vanessa de Carvalho, de 38 anos, que admitiu que Santos estava envolvido com o tráfico de drogas.

A batida policial de sexta-feira veio alguns dias depois de ocorrer uma troca de tiros entre o Comando Vermelho, a poderosa gangue de drogas que controla a favela, e seu rival, o Terceiro Comando Puro.

A polícia afirmou em uma declaração oficial que foi atingida por tiros de criminosos pesadamente armados. Ela disse que 11 criminosos foram presos e 15 membros de gangues foram encontrados feridos e levados para o hospital onde 13 deles mais tarde morreram e dois continuam hospitalizados.

A autoridade de saúde municipal do Rio disse que 16 chegaram ao hospital — dos quais 13 estavam mortos ao chegar.

Residentes disseram que não houve troca de tiros depois que a polícia fechou a rua em frente à casa. Um vídeo de quatro minutos em circulação pelas redes sociais mostra um veículo da polícia estacionado em uma rua tranquila quando ouve-se uma torrente de tiros.

Legenda da foto:

Eline Vicente da Silva, de 36 anos, em Fallet/Fogueteiro. Seus filhos, David, 22 anos, e Maikon, 16 anos, foram mortos na sexta-feira e suas fotos estão em sua camiseta. Foto: Dom Phillips

Outros vídeos mostram corpos de homens jovens com o que parecem ser buracos de bala, feridas abertas e contusões.

Duas outras vítimas não estavam na casa. Eline Vicente da Silva, de 36 anos, uma faxineira, disse que seus filhos David, de 22 anos, e Maikon, de 16 anos, foram torturados e mortos em sua pequena casa em uma íngreme ruela enquanto ela estava em um supermercado local.

Mais tarde, a polícia impediu que ela entrasse. “Vá e chore no funeral,” afirma ela que um dos policiais lhe disse.

Ela afirmou que David tinha estado na prisão em 2017 depois que a polícia prendeu-o em uma casa onde foram encontrados bens roubados, adicionando que Maikon era um estudante sem envolvimento com gangues.

Um vizinho, falando anonimamente por medo de represálias, disse que tinha ouvido os dois meninos sendo espancados e gritando “não matem a gente” antes de uma salva de tiros ter soado.

Cano comparou os assassinatos com as execuções extrajudiciais de usuários de droga nas Filipinas sob Rodrigo Duterte e disse que havia indícios de “execuções sumárias”. “É crucial que os procuradores estaduais agora façam uma investigação completa,” disse ele.

*Publicado originalmente em guardian.com | Tradução: equipe Carta Maior

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