Antifascismo

'Semana de Thatcher e Reagan' é a mais recente escaramuça nas guerras culturais de Bolsonaro

Um instituto de pesquisa, financiado pelo governo do Brasil, deve celebrar os ícones conservadores dos anos 80 - uma ação denunciada como 'pura propaganda'

29/01/2020 10:43

'Thatcher e Reagan são ídolos de muitos brasileiros e políticos atuais', segundo Letícia Dornelles, presidente da Fundação Casa Rui Barbosa (Dirck Halstead/The Life Images Collection/Getty)

Créditos da foto: 'Thatcher e Reagan são ídolos de muitos brasileiros e políticos atuais', segundo Letícia Dornelles, presidente da Fundação Casa Rui Barbosa (Dirck Halstead/The Life Images Collection/Getty)

Conservadores e guerreiros da cultura no Brasil manifestaram seu contentamento depois que um dos institutos de pesquisa mais famosos do país anunciou planos de sediar uma semana de Margaret Thatcher e Ronald Reagan ainda este ano.

Mas os críticos veem o evento como mais uma tentativa do governo do presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, de impor influências conservadoras e cristãs nas principais instituições acadêmicas e culturais do país.

Em maio, a Fundação Casa Rui Barbosa - um centro de pesquisa que recebe financiamento do governo - sediará uma série de exposições e palestras sobre os ícones da direita nos anos 80.

Letícia Dornelles, ex-jornalista e escritora de novelas, escolhida para chefiar a fundação em outubro do ano passado, disse que os eventos "fornecerão uma visão geral" das "influências de Thatcher e Reagan sobre os atuais líderes mundiais conservadores".

"Thatcher e Reagan são ídolos de muitos brasileiros e políticos atuais", disse ela.

A iniciativa é uma parceria com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que girou para a direita sob Bolsonaro, formando laços estreitos com líderes conservadores como Donald Trump e o húngaro Victor Orbán. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo - que acredita que a mudança climática é uma conspiração marxista - participará.

A admiração por Thatcher e Reagan é profunda no governo Bolsonaro.

Em um discurso nos jardins da Casa Branca no ano passado, Bolsonaro citou Reagan e disse que ele era um "grande admirador" do ex-presidente e estrela de filmes B.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi treinado nos fundamentos do livre mercado na Escola de Economia de Chicago - o canteiro das políticas econômicas de Reagan e Thatcher - e trabalhou na Universidade do Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet na década de 1980.

Em entrevista ao Financial Times do ano passado, ele descreveu as reformas neoliberais do Chile como "uma transformação maravilhosa" e acrescentou: "Thatcher, Reagan, eles entenderam isso".

Enquanto isso, os filhos políticos de Bolsonaro foram fotografados com recordações de Thatcher e Reagan, como camisetas, canecas de café e miniaturas.

Charles Gomes, pesquisador sênior de temas jurídicos e com foco em migração na Casa Rui Barbosa, colocou em dúvida o valor acadêmico da semana de Thatcher e Reagan.

"O evento não é baseado no trabalho acadêmico de ninguém, parece pura propaganda", disse ele.

Críticos acusaram o governo Bolsonaro de "interferência ideológica" em vários setores – frequentemente em prejuízo desses setores - das artes e da educação às políticas externa e indígena.

O filho de Bolsonaro, Carlos, foi uma das primeiras figuras públicas a mostrar apoio à semana de Thatcher e Reagan, junto com a ex-jogadora de vôlei que virou ativista conservadora Ana Paula Henkel.

O ex-secretário de cultura Roberto Alvim também endossou publicamente o evento - antes de ser demitido no início deste mês, depois de parafrasear o ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels.

Regina Duarte, atriz mais conhecida por seus papéis nas novelas brasileiras e por sua oposição ao partido de esquerda dos trabalhadores no Brasil, é cotada para assumir a pasta.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de César Locatelli

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