Antifascismo

75 anos depois da derrota do fascismo: uma lição desperdiçada por Trump e outros

 

13/05/2020 13:27

Joseph Stalin (centro), Harry Truman (dir.) e Clement Atlee (esq.), acompanhados de seus ministros e secretários, na Conferência de Potsdam, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945 (Wikimedia)

Créditos da foto: Joseph Stalin (centro), Harry Truman (dir.) e Clement Atlee (esq.), acompanhados de seus ministros e secretários, na Conferência de Potsdam, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945 (Wikimedia)

 

Quais são as lições do Dia da Vitória na Europa (VE Day) que comemora 75 anos da derrota do Nazismo e, com este, de todo o edifício de teorias de superioridade e inferioridade racial, de supremacia branca e da disputa por ser o mais forte?

Faz 75 anos desde que o mundo repudiou o hitlerismo e o princípio de que a “força é o direito” – desde a derrota de uma ideologia e seus patrocinadores industriais e financeiros cujo ponto final foi o Holocausto, o genocídio contra os judeus e outros povos. Faz 75 anos desde que a Declaração de Potsdam anunciou sem hesitação, ou ambiguidade, o objetivo de extirpar permanentemente o hitlerismo, a doutrina do partido nazista e todos os seus clubes, instituições e cultura.

No Dia da Vitória na Europa, marcamos o sacrifício de 60 milhões de mortos na guerra mais destrutiva da história – mortos devido a uma ideologia abertamente belicosa de ódio sustentada pelas máquinas de assassinato em massa da modernidade industrial.

O nazismo e o fascismo raramente ascendem ao poder sem o apoio inicial e continuado de plutocratas industriais e financeiros e dos partidos que eles sustentam. De fato, estas forças sobreviveram à guerra e prosperaram na paz.

Olhem em volta hoje – na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) declara que Hitler foi um incidente na arquitetura do Holocausto, expõe seu cansaço em relação à culpa da guerra e quer um novo esforço para tornar a Alemanha grande novamente. E os principais partidos são aquiescentes, coniventes, persuadidos, e cooptam a retórica e as políticas de xenofobia e islamofobia.

Na França, os fascistas da Frente Nacional – ou como quer que eles se chamem hoje – defendem as políticas de dividir e conquistar e de uso de refugiados de guerra, repressão e pobreza como bodes expiatórios. Eles punem aqueles que chegam à costa da Europa, devido àquilo que essas grandes potências europeias fizeram no e com os povos do Oriente Médio.

Vemos Viktor Orbán na Hungria, louvando abertamente as virtudes da intolerância autoritária e da ditadura, declarando seus oponentes e críticos “inimigos do povo”.

Na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi usa a política da islamofobia e do nacionalismo hindu para dividir e conquistar um país, cuja população se uniu para vencer o domínio colonial e criar uma república na qual todos seriam iguais a despeito de religião, casta e língua.

Os EUA lideram o declínio

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump chama neonazistas de “boas pessoas” e os iguala a antifascistas que carregam uma lição fundamental da Segunda Guerra Mundial – a de que os nazistas não têm o direito de promover sua doutrina de supremacia racial. Quando milicianos de extrema direita, supremacistas brancos e neonazis adornados com suásticas invadiram a Assembleia Legislativa de Michigan durante uma sessão, Trump pediu que o governador do Estado fizesse um acordo com essas “boas pessoas”. Ou seja, que se apaziguasse com os agressores.

Como a congressista de Michigan Rashida Tlaib tuitou, homens negros desarmados são alvejados pela polícia somente por ser, enquanto homens brancos armados vestindo suáticas e carregando forcas se livram sem ao menos serem presos. É possível observar um elo entre o mainstream do Partido Republicano, a extrema direita e a chamada direita alternativa (alt-right). O que os une é a doutrina desacreditada do apaziguamento com o fascismo.

Trump chama países africanos de “shithole”, enquanto elogia noruegueses. Seus contatos incluem a Ku Klux Klan, neonazistas e a direita alternativa de Stephen Bannon e do portal Breitbart, e os eugenistas e defensores de uma “limpeza étnica pacífica” do National Policy Institute. Essa rede é apoiada pelo Partido Republicano – o já desaparecido partido de Lincoln que libertou os escravos e derrotou os odiados estados escravocratas da Confederação.

Vemos o governo Trump violando a Constituição dos EUA e o estado de direito nos EUA e no exterior, colocando imprudentemente em perigo as vidas de americanos na forma horrível como tem lidado com a pandemia da COVID-19 – a qual está literalmente matando milhares de pessoas, principalmente da classe trabalhadora. Ele está desviando sua atenção de suas próprias falhas catastróficas e em direção a uma campanha abertamente racista e xenófoba contra a China, “o vírus chinês”, ou “vírus de Wuhan”, em um retorno mal disfarçado das políticas do “perigo amarelo” que acompanham profundamente a história dos EUA.

Trump denuncia abertamente os efeitos progressistas da Segunda Guerra Mundial – especialmente as Nações Unidas e, mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde – como inúteis, porque eles ousam ser independentes e internacionalistas contra o nacionalismo egoísta do “America First”. Enquanto a ONU e a OMS criam pontes, abrem portas e encorajam o diálogo e a resolução pacífica de controvérsias, Trump vai à ONU ameaçar Irã e Coreia do Norte de genocídio. Trump constrói muros, barreiras, tarifas e fortalezas mentais. O governo Trump rompe com as leis dos EUA e internacionais sobre asilo e refúgio, separa crianças de seus pais e comandou a construção de campos de detenção na fronteira com o México.

Claro, a ordem pós-1945 nunca chegou nem perto da perfeição, mas ela foi um passo à frente no progresso humano em direção ao reconhecimento dos direitos dos povos no mundo à sua humanidade, representação e nacionalidade. Ela reconheceu a obsolescência do conflito e da rivalidade nacional frente a um mundo que encolhia, ao fim dos impérios e da corrida armamentista, e ao descrédito total das hierarquias coloniais e raciais. O espírito da ONU estava na direção da paz e contra a guerra, contra o princípio de que a força é o direito.

A promessa das Nações Unidas

O sistema ONU teve e tem muitas falhas – algumas fundamentais – mas as demandas dos povos do mundo e suas aspirações, que subjazem o sistema ONU, eram de paz, progresso e melhora material e cultural. Isto representava um projeto cooperativo, amplo e inclusivo de escala global, e não as políticas de superioridade racial, religiosa, ou nacional.

Mas, mesmo que as grandes potências “jogassem” com os povos do mundo e ‘”administrassem” suas elevadas aspirações, o sistema internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial foi um aperfeiçoamento do que havia anteriormente.

Sem dúvida, o establishment da política externa dos EUA – toda a rede de Wilsonianos apoiados pelo “arsenal da democracia” – foi conduzido por seu desejo de usar as instituições internacionais recém-formadas, baseadas em Nova York e em Washington, para dominar o planeta. Para a classe dominante britânica, a arquitetura do internacionalismo iria ajudar na sua movimentação em direção a uma aliança anglo-americana, na qual as abertas e agora insustentáveis opressões de um sistema colonial desacreditado e impraticável abririam caminho para a depredação mais suave e a violência estrutural do “desenvolvimento” do Terceiro Mundo.

As sementes para a ruína do progressivismo do sistema da ONU estavam nestes motivos obscuros das grandes potências que o fundaram. Essa nova ordem mundial mais justa era radicalmente diferente, mas embutida nela estavam as políticas e os interesses dos mais poderosos – envelopados em organizações dedicadas à transparência e à representação de todos. Isso significou e significa, em princípio e na prática, que a porta estava aberta para discussão, deliberação e acesso a um corpo de leis e de proteções – com as memórias dos sacrifícios feitos por milhões de mortos e por aqueles que viveram para proferir estas palavras imortais: “Nunca Mais”.

Para os governantes no Ocidente, o Dia da Vitória na Europa é uma celebração nacionalista – reparem em como, entre eles, a imensa contribuição da Rússia na derrota do fascismo é diminuída, assim como os sacrifícios de milhões ao redor de todo mundo que lutaram contra o militarismo alemão, italiano e japonês.

Em sua essência, porém, o Dia da Vitória na Europa é a história de milhões de trabalhadores, homens e mulheres comuns de todas as raças e nacionalidades que se uniram para derrotar uma ideologia assassina de hierarquia racial, de opressão de classe e de violência e morte industrializadas. Eles prometeram construir um mundo melhor do que aquele do período após 1918 – com sua devastadora depressão dos anos 1930, o massacre de Amritsar, a violência racial e segregadora das leis Jim Crow, a política e o horror da ideia de raça superior e a política de dividir e conquistar com o uso de minorias como bodes expiatórios.

A meu ver, a Declaração de Potsdam de 1945 expressa isso da melhor forma possível. Portanto, no Dia da Vitória na Europa, nós relembramos Potsdam e as principais lições da Segunda Guerra Mundial:

“Destruir o Partido Nacional-Socialista e as organizações filiadas, ou sob seu controle; dissolver todas as instituições nazistas; garantir que não serão revividas de forma alguma; e evitar toda espécie de propaganda, ou atividade, nazista, ou militarista;

“Preparar a eventual reconstrução da vida política alemã em bases democráticas e a futura cooperação pacífica da Alemanha na vida internacional;

“Todas as leis nazistas que proporcionaram as bases para o regime de Hitler, ou estabeleceram discriminação de raça, credo, ou opinião política serão abolidas. Tais discriminações, sejam legais, administrativas, ou de outra forma, não serão toleradas”.

Tradução de João Fernando Finazzi e revisão de Tatiana Teixeira

Inderjeet Parmar é professor de política internacional na City, University of London, professor visitante no London School of Economics IDEAS (o think tank de política externa da LSE), e pesquisador visitante no Rothermere American Institute na Universidade de Oxford. É colunista do The Wire, onde este artigo foi publicado originalmente em 8 de março de 2020.

João Fernando Finazzi é doutorando e mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). É bolsista do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU) e pesquisador do Grupo de Estudos em Conflitos Internacionais (GECI/PUC-SP). Tatiana Teixeira é editora do OPEU, pesquisadora do INCT-INEU e do NEAI (Ippri/Unesp) e assistente editorial da revista Sul Global, do IRID (UFRJ).




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