Antifascismo

A comunicação e o golpe

É pela força das implicações que o conceito de midiatização ganhará espaço central nas aulas ministradas durante o curso livre sobre o golpe de 2016, que começa nesta sexta-feira (06), na UFPA, em Belém

05/04/2018 18:38

Melissa Pereira/Facom

Créditos da foto: Melissa Pereira/Facom

 

Erika Morhy, de Belém

A oferta de cursos e disciplinas sobre o golpe de 2016 por universidades públicas brasileiras neste início de 2018 é, por si mesma, um bom exemplo de como a academia está imersa em uma experiência desafiadora no mundo contemporâneo e que pesquisadores da área de Comunicação têm chamado de midiatização. Mas se o fenômeno da midiatização pode ser responsável pela notória e saudável solidariedade espontânea de estudiosos de todo o país ao cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UNB), ele também é capaz de ser cúmplice e determinante em processos atávicos, como o que levou à destituição da presidenta Dilma Rousseff e a implementação de um projeto político que vem sendo derrotado nas urnas há mais de 15 anos. É pela força dessas implicações que o conceito de midiatização ganhará espaço central nas aulas ministradas pelo jornalista Fábio Fonseca de Castro durante o curso livre sobre o golpe de 2016, que começa nesta sexta-feira (06), na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém.

Com uma trajetória de quase 30 anos de pesquisa acadêmica na Amazônia, Fábio Castro é categórico ao afirmar que a estrutura das relações humanas na sociedade contemporânea está fortemente baseada nos códigos da comunicação ou na midiatização. “A estratégia principal para você controlar o processo de construção de hegemonia dentro do seu campo passa, em primeiro lugar, pela adoção de estratégias de comunicação e passa, em segundo lugar, pela produção de um efeito de circularidade, pela validação da sua narrativa por outros campos ou por outros agentes do mesmo campo”, garante.

Isso significa dizer que a visibilidade de um discurso, facilitada pelas inúmeras ferramentas digitais, ganhou ainda mais peso no emaranhado social e a repercussão obtida com essa visibilidade determina os rumos políticos dessa comunidade. O novo cenário pode ser observado a olho nu na vida cotidiana de qualquer cidadão, na maneira como uns conversam com os outros, na maneira como lidam com as imagens ou com as redes sociais.

Mas os efeitos da midiatização também estão presentes em disputas de grandes proporções e a Operação Lava-Jato, deflagrada em 2014 pela Polícia Federal, é bastante ilustrativa. Fábio Castro lembra que, “para convalidar a narrativa produzida, ela conta com o poder que têm de fazer circular a própria narrativa: de receber elogios na mídia, no STF [Supremo Tribunal Federal], no Parlamento, entre os governantes, no setor produtivo. Ela conseguiu um espectro de circularidade muito grande”.

Da midiatização, ninguém escapa mais. Em nenhuma seara. Terá legitimação aquele que for hábil no uso das estratégias de comunicação, seja um interlocutor do campo jurídico, político ou econômico. Inclusive partidos de esquerda e movimentos sociais que encampam a resistência ao golpe de 2016 estão se valendo dessas estratégias, o que induz a questionamentos centrais a serem respondidos no território acadêmico: “Será que a gente vai conseguir derrubar um golpe com as mesmas estratégias de midiatização? Será que a gente vai conseguir produzir circularidade e validar nosso discurso nesses outros campos sociais, considerando que todos os campos sociais dominantes estão contra nós?”, provoca Fábio Castro.

Economia midiática - Essas sutilezas que permeiam o golpe de 2016, no entanto, fazem parte de um contexto há décadas denunciado por quem estuda e milita no terreno da democratização dos meios de comunicação. Delegado do Pará na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, promovida pelo governo Lula em 2010, o jornalista lembra que existe no Brasil um nível único e inadmissível de concentração midiática, que também fez diferença grande em favor do golpe. Ele reitera que é crucial a construção de um sistema normativo que dê instrumentos para o processo de quebra dos oligopólios no país. Para ele, a conferência foi uma inciativa importantíssima para a articulação entre os que constroem essa luta e acumulam um debate em todos os estados brasileiros, uma iniciativa que precisa ser aprofundada, mas que não reverbera no projeto político imposto com o golpe de 2016. Fábio Castro cita ainda como tendo sido fundamental os investimentos feitos na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), entidade que igualmente já se vê minada paulatinamente pelo governo Temer.

Esse amplo panorama precisa pautar a agenda científica da Comunicação, porque “os fantasmas do conservadorismo foram autorizados e estamos vivendo uma experiência que vai durar décadas. É secular”, define o pesquisador. Mas a responsabilidade não recai apenas sobre a Comunicação. Fábio Castro destaca que o curso livre na UFPA vai facilitar a integração de diferentes áreas do conhecimento, o que é uma necessidade inequívoca. Estudiosos de quase dez institutos de pesquisa da universidade estão integrados à iniciativa.

“Temos uma luta imediata, que está no campo da Justiça. Mas temos uma luta que exige ideias e reflexões, para permitir, a longo prazo, discussões que conduzam à recuperação dos direitos que estão sendo perdidos, que promovam novos pactos na sociedade”, ressalta o professor, que revela uma preocupação muito atual: “a sociedade está polarizando cada vez mais e daí para chegar ao enfrentamento físico e, finalmente, à uma guerra civil, é relativamente fácil. A academia tem o papel de fazer o diálogo”.

Contra a censura - A UFPA é uma das 30 universidades públicas brasileiras que oferecem curso ou disciplina inspiradas na ementa proposta pelo cientista político Luis Felipe Miguel sobre o golpe de 2016. Instituições de pesquisa estrangeiras também se uniram ao movimento de defesa da liberdade de cátedra.

O movimento teve início no último mês de fevereiro, com as ameaças do ministro de Educação, Mendonça Filho (DEM-PE), que já declarou, neste mês de março, ter desistido de acionar “AGU (Advocacia-Geral da União), CGU (Controladoria-Geral da União), TCU (Tribunal de Contas da União) e MPF (Ministério Público Federal) para apurar se há algum ato de improbidade administrativa ou prejuízo ao erário a partir da disciplina”.

Pós-doutor em Comunicação, Fábio Castro ministrou três aulas que convergiam sobre o tema durante o período em que foi professor visitante da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, de setembro de 2017 a fevereiro de 2018. Ele recebeu da instituição a proposta de publicar o conteúdo de suas aulas em formato de livro, que deve ser publicado em breve.

Ementa do Curso Livre da UFPA

Apresentação. Comparação entre o golpe de 1964 e o golpe de 2016. Governos de esquerda e golpes na América Latina. Memórias da Ditadura. Lulismo e Anti-Lulismo. Democracia como Conceito, Democracia como Projeto. Os limites da representação política e a desdemocratização. O golpe no contexto do pensamento pós-colonial e da América Latina. Teoria econômica dos golpes na América Latina. 2013 e a Espetacularização da Política. O Imaginário Social Conservador. As eleições de 2014. O Golpe Midiático. O Judiciário e o Golpe. Soberania, Meio Ambiente e Projetos de Intervenção. As Minorias políticas. A Reforma Trabalhista e seus impactos no mundo do trabalho. Os ataques à Prevideência e à Seguridade Social. A militarização da Segurança. É possível uma Imprensa Livre no Brasil? A questão urbana. Análise das eleições de 2018. A Educação Pública em perigo. A destruição dos Princípios da Reforma Sanitária. Movimentos sociais e Resistência. O Futuro da democracia no Brasil.

Institutos de pesquisa da UFPA integrado ao curso:

Artes, Filosofia e Ciências Humanas, Instituto de Ciências da Educação, Instituto de Tecnologia, Jurídicas, Letras e Comunicação, Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (Naea) e Núcleo de Meio Ambiente (Numa), Sociais Aplicadas.

Pesquisadores que irão ministrar aulas no curso:

Afonso Medeiros, Alda Cristina Costa, Ana Cláudia Cardoso, Ana Lúcia Prado, André Farias, Antônio Maués, Ari Loureiro, Armando Lírio, Bárbara Dias, Bruno Rubiatti, Carlos Souza, Cláudio Puty, Danila Cal, Danilo Fernandes, Edilza Fontes, Edna Castro, Emina Márcia Nery dos Santos, Fabiano Gontijo, Fábio Castro, Genylton Rocha, Gustavo Ribeiro, Carlos Souza, Harley Silva, Hecilda Fontelles, Jean-François Deluchey, José Júlio Lima, José Raimundo Trindade, Juliano Ximenes, Jurandir Novaes, Kalynka Cruz, Luanna Tomaz, Marcel Hazeu, Maria Elvira Rocha de Sá, Nírvea Ravena, Otacílio Amaral, Paulo de Tarso, Pere Petit, Raul Ventura Neto, Regina Feio, Reinaldo Pontes, Roberta Rodrigues, Romero Ximenes, Ronaldo Araújo, Rosa Acevedo, Rosaly Brito, Rosane Steinbrenner, Sandra Helena Cruz, Sílvio Figueiredo, Socorro Castelo Branco, Solange Gayoso, Vânia Alvarez, Vera Gomes, Zélia Amador, Zuleide Ximenes.

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