Antifascismo

A esperança é uma brasa em extinção para os negros nos EUA. Os atletas a reacenderam

Quando boicotei as Olimpíadas de 1968 por causa da desigualdade racial, fui condenado ao ostracismo. Agora, atletas brancos estão se juntando a seus companheiros negros nos protestos

28/08/2020 17:00

JD Davis e Dominic Smith, do New York Mets, deixam o campo após um protesto contra o racismo. (Brad Penner/USA Today Sports)

Créditos da foto: JD Davis e Dominic Smith, do New York Mets, deixam o campo após um protesto contra o racismo. (Brad Penner/USA Today Sports)

 

Você quer saber como é ser negro na América esta semana? Pense nas séries em Survivor [Sobrevivente], ou Naked and Afraid [Nu e Com Medo], ou Alone [Sozinho] - ou qualquer uma daquelas séries selvagens nas quais a sobrevivência de uma pessoa em um ambiente hostil depende de manter aquela fogueira crucial acesa. Inevitavelmente, ocorre algum desastre e o fogo quase se apaga. Então, apoiada nas mãos e joelhos, a pessoa tenta desesperadamente soprar uma brasa, em vias de extinção, de volta à vida.

Para a comunidade afro-americana que vive em um ambiente hostil, essa brasa em extinção é a esperança. Esperança que os Estados Unidos estejam finalmente comprometidos com a igualdade racial. Esperança de que ser negro não seja um crime e a punição não seja a morte. A popularidade do movimento Black Lives Matter, que varreu o país neste verão após os assassinatos de Breonna Taylor e George Floyd, atiçou essa esperança dentro de nós na forma de um pequeno, mas poderoso Sol.

Então, esta semana, um homem negro, Jacob Blake, foi baleado sete vezes nas costas pela polícia, um jovem de 17 anos foi acusado de homicídio doloso depois que dois homens foram mortos em protestos subsequentes, e a Convenção Nacional Republicana apresentou oradores que, em vez de expressarem indignação com o racismo sistêmico e prometerem acabar com ele, reclamaram da audácia de negros ingratos protestando que seus maridos, filhos, filhas, mães, pais, irmãs e irmãos estavam sendo assassinados pela polícia, enquanto o presidente Trump e o Partido Republicano conspiravam para tirar seu direito de voto.

Sim, a esperança na comunidade negra sofreu um forte baque esta semana. O pequeno sol se pôs rapidamente. A brasa tinha sido apagada.

Mas então veio o Milwaukee Bucks, meu antigo time, que anunciou que boicotaria o Jogo 5 dos playoffs da NBA, explicando: “Apesar do apelo esmagador por mudança, não houve ação, então nosso foco hoje não pode ser no basquete.” Eles exigiram que a legislatura do estado de Wisconsin, após meses de inação, “tomasse medidas significativas para abordar questões de responsabilidade policial, brutalidade e reforma da justiça criminal”. E assim, a brasa da esperança cintilou para a vida novamente.

Outras equipes da NBA e WNBA seguiram. Os jogos foram adiados. O fato de ambas as ligas terem se manifestado imediatamente foi corajoso, especialmente considerando as centenas de milhões de dólares envolvidos e todas as despesas e esforços necessários para criar suas bolhas esportivas. Mas não foi uma grande surpresa porque 81,1% da NBA e 88% da WNBA são negros e suas famílias e amigos não vivem em uma bolha protetora.

Como LeBron James explicou: “Sei que as pessoas se cansam de me ouvir dizer isso, mas, como negros na América, nós temos medo. Homens negros, mulheres negras, crianças negras, estamos apavorados.” Por mais que os brancos estejam cansados de ouvir isso, os negros estão ainda mais cansados de viver isso.

Para mim, o que realmente trouxe de volta à vida o fogo da esperança foi o apoio instantâneo de outras equipes esportivas e atletas. A Major League Soccer [liga de futebol dos EUA], na qual apenas 26% dos jogadores são negros, adiou cinco jogos naquele dia, com jogadores de dois times, Inter Miami e Atlanta United, de braços dados e se recusando a jogar. A Major League Baseball, com apenas cerca de 8% de jogadores afro-americanos, também se juntou a jogadores dos Milwaukee Brewers e Cincinnati Reds que ficaram de fora de seus jogos e os Seattle Mariners votaram unanimemente pelo adiamento do jogo de quarta-feira. Mais times de beisebol aderiram ao boicote na quinta-feira.

No tênis, talvez o mais branco de todos os esportes, a ex-campeã do US Open, Naomi Osaka, saiu de sua semifinal no Western & Southern Open na quinta-feira, tuitando: “Não espero que nada drástico aconteça comigo se eu não jogar, mas se eu conseguir iniciar uma conversa em um esporte majoritariamente branco, considero isso um passo na direção certa.” As organizações de tênis profissional USTA, ATP e WTA divulgaram uma declaração em apoio à sua posição e o adiamento do torneio na quinta-feira. Nunca estive mais orgulhoso dos meus colegas atletas.

No passado, esses esportes, em sua maioria brancos, levariam dias, até semanas, para responder, muito menos se juntar a qualquer forma de protesto, especialmente no boicote a jogos. Quando boicotei as Olimpíadas de 1968 por causa das enormes desigualdades raciais, enfrentei uma reação violenta criticando minha falta de gratidão por ter sido convidado para a Casa Grande com ar-condicionado, de onde poderia confortavelmente assistir minha comunidade suar e sofrer.

Para aqueles que pensam que não é uma questão pessoal para atletas de elite porque eles são bem pagos, leia a história de Sterling Brown no Players 'Tribune, na qual ele descreve ter sido confrontado pela polícia por causa de uma violação de estacionamento em 2018, que resultou no uso de uma arma paralisante contra ele e um oficial pisando em seu tornozelo, do qual sua carreira depende. O vídeo da câmera corporal mostra a polícia preocupada com a publicidade do que eles fizeram, então ligando para seu comandante para perguntar sobre o recebimento de horas extras enquanto um policial canta a letra “dinheiro, dinheiro” de For the Love of Money, dos O'Jays. Que patifes divertidos os policiais podem ser.

Nosso trabalho não está terminado porque, como vemos quase semanalmente, a ameaça à vida dos negros é real e iminente. Há gravações da polícia de Kenosha dando água para os civis armados, muitos de fora da cidade, que perambulavam pelas ruas durante os protestos, dizendo a eles: “Agradecemos a vocês. Nós realmente agradecemos.” Um dos que receberam o agradecimento foi o garoto de 17 anos acusado de matar dois manifestantes.

A ameaça é exacerbada pelo Partido Republicano, que assumiu como missão equiparar os manifestantes a saqueadores para afastar suas comprovadas preocupações. Em seu discurso principal na convenção republicana, o vice-presidente Mike Pence comentou que “em meio a essa pandemia global ... vimos violência e caos nas ruas de nossas principais cidades”. Ele está certo. Mas isso foi causado pelo tipo de racismo que a administração Trump promoveu.

No discurso de Pence, ele disse aos EUA: “Dave Patrick Underwood era um oficial do Serviço de Proteção Federal do Departamento de Segurança Interna, que foi baleado e morto durante os distúrbios em Oakland, Califórnia.” O que ele deixou de mencionar foi que as autoridades federais dizem que Underwood foi morto por Steven Carrillo, um sargento da Força Aérea que era membro de um grupo extremista de direita cujo objetivo é iniciar uma guerra racial.

Foi o técnico do Los Angeles Clippers, Doc Rivers, que expressou de maneira tão poderosa os sentimentos da maioria dos afro-americanos, inclusive meus. Nossos pais eram policiais, do que temos orgulho, embora nos assustemos com a forma como o racismo sistêmico nos departamentos de polícia de todo o condado mancha suas realizações. “É incrível por que continuamos amando este país, e este país não nos ama de volta”, disse Rivers. “É muito triste. Com muita frequência sou lembrado da minha cor ... temos que ser melhores que isso. Mas temos que exigir mais.”

Nesta semana, os atletas norte-americanos exigiram mais. E reacenderam nossa esperança na América.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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