Antifascismo

A face perversa do fascismo: Nise Yamaguchi na CPI da Covid-19

 

06/06/2021 13:00

(Pedro Ladeira/Folhapress)

Créditos da foto: (Pedro Ladeira/Folhapress)

 
Em 02 de junho de 2021, a médica Nise Hitomi Yamaguchi prestou depoimento à CPI da Covid-19, mostrando amplo desconhecimento de conceitos básicos sobre infectologia, o que tornou problemática a sua fala em muitos momentos. Lamentavelmente, a doutora Nise, que possui extenso currículo e experiência nas áreas de oncologia e imunologia, demonstrou expressivo despreparo para discutir fundamentos essenciais da infectologia. Por isso, ela foi duramente criticada pelos senadores Otto Alencar (PSD-BA) e Zenaide Maia (PROS-RN), ambos, médicos.

Nise não prestou depoimento representando as mulheres, nem os asiáticos. Porém, como mulher e descendente de asiáticos, ela contribuiu para envergonhar tanto as mulheres – em especial as médicas e cientistas, que enfrentam inúmeros desafios para integrar esse espaço de poder, majoritariamente composto por homens – e todas as etnias asiáticas e seus descendentes, conhecidas mundialmente por sua resiliência: o seu desconhecimento sobre infectologia foi utilizado por hordas digitais para atacar mulheres e especialmente os asiáticos, com expressões racistas e xenofóbicas. Com tristeza, li essas postagens e sei que quem assistiu ao filme Entre o Céu e a Terra (1993), e, além disso, conhece a reconstrução do Japão, desde a bomba atômica que assolou Hiroshima e Nagasaki na Segunda Grande Guerra, até se tornar a terceira maior economia do mundo, certamente tem empatia com as denominadas “raças amarelas”.

A tristeza que sinto possui estreita ligação com o amor a minha ancestralidade africana e a leitura da obra Políticas da Inimizade, escrita pelo filósofo camaronês Achille Mbembe (2017). Analogamente, sinto empatia e carinho por todas as etnias e minorias sociais historicamente estigmatizadas: asiáticos, ciganos, travestis e transexuais são alguns exemplos. Nesses termos, sofri ao ler os ataques dirigidos contra Nise. Infelizmente, o Brasil tem revelado, desde 2016, a sua mentalidade colonial: na atual conjuntura, caminhamos rápido para um Estado de exceção e os ataques a Nise Yamaguchi demonstram isso.

Apesar das profundas divergências frente a defesa anticientífica realizada pela médica quanto a hidroxicloroquina ser útil para prevenção e combate da Covid-19, não me sinto autorizado a atacar as mulheres, os asiáticos, sua genealogia ou quem quer que seja. Antes, percebo cada vez mais, que quando discutimos qualquer temática, a despeito das intenções, nosso discurso reverbera sobre o grupo que integramos. Exatamente nesse ponto, afirmo que várias mulheres, asiáticos e seus descendentes, certamente se envergonharam ou no mínimo, ficaram constrangidos ante as posições assumidas pela médica. Mais do que isso: me coloco no lugar dessas pessoas, muitas delas vivendo em um país que mostra, continuamente, a face perversa do fascismo.

Armando Januário dos Santos é Mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB e Graduado em Letras com Inglês pela mesma instituição. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. Instagram: @januario.psicologo



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