Antifascismo

A falsa neutralidade do jornalismo não derrotará os negadores da verdade

Com a derrota de Trump, os jornalistas não podem simplesmente recuar para a "objetividade" - não com o futuro dos Estados Unidos em jogo

18/11/2020 12:57

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala à imprensa na Brady Briefing Room da Casa Branca em Washington, DC, em 28 de julho de 2020. (JIM WATSON / AFP via Getty Images)

Créditos da foto: O presidente dos EUA, Donald Trump, fala à imprensa na Brady Briefing Room da Casa Branca em Washington, DC, em 28 de julho de 2020. (JIM WATSON / AFP via Getty Images)

 

O senso comum entre os líderes de nossas principais redações é que a melhor maneira de alcançar as pessoas que acreditam em coisas malucas e horríveis é permanecer neutro.

Eles afirmam que tomar partido tornaria as organizações noticiosas ainda menos credíveis junto a essa população em particular.

"Enfrentamos uma carga enorme de pessoas que pensam que, se estamos de um lado ou de outro, eles simplesmente se desligam e não prestam atenção ao melhor jornalismo do mundo", disse a editora executiva da Associated Press, Sally Buzbee em setembro.

O editor executivo do New York Times, Dean Baquet, adotou repetidamente o que ele chama de "objetividade sofisticada e verdadeira" como uma defesa contra aqueles que querem que o Times se oponha a falsidades de forma mais assertiva. “Você não chama isso de mentira”, disse ele. "Deixe alguma outra pessoa chamar de mentira." (Veja o artigo "O editor do NYT Dean Baquet quer que seus repórteres mantenham uma mente ‘aberta’ - ou talvez vazia" e o artigo "A entrevista de Dean Baquet deixa claro que o New York Times ainda é regido pelo 'ambos-os-ladismo’.")

Contrariando a visão dos reformadores de que a crítica equilibrada é ingênua neste estágio da política norte-americana, a editora pública da National Public Radio, Kelly McBride, descreveu recentemente a visão dominante da redação “que nossa experiência atual é particular da presidência de Trump, que a política norte-americana acabará recuperando o equilíbrio, e que o apego do jornalismo à neutralidade deve permanecer consistente a fim de permanecer eficaz no longo prazo."

Mas mais de 73 milhões de pessoas votaram em Trump na eleição presidencial, sugerindo que a pressão exercida pela rejeição declarada de fatos, alimentada pela direita, ainda está muito presente - e é improvável que sucumba tão cedo a um padrão jornalístico de tempos normais.

Vários professores de jornalismo - entre 151 acadêmicos que contribuíram para uma nova e ampla coleção de ensaios, "U.S. Election Analysis 2020: Media, Voters and the Campaign" [Eleições nos EUA 2020: Mídia, Eleitores e Campanha] - argumentam que se é para o jornalismo se colocar à altura do desafio do momento, ele tem que mudar.

Seth C. Lewis da University of Oregon, Matt Carlson da University of Minnesota e Sue Robinson da University of Wisconsin-Madison escrevem que "as práticas jornalísticas tradicionais permanecem mais ou menos intactas" mesmo que "o ambiente geral da mídia tenha mudado radicalmente" com o advento de uma poderosa máquina de mídia de direita que espalha desinformação maciçamente.

Isso não vai funcionar, eles escrevem. Os jornalistas "nunca reconstruirão a confiança entre as pessoas que se sentem marginalizadas pelas notícias simplesmente oferecendo mais do mesmo - mais porções de 'notícias boas e precisas'."

E eles colocam (ao invés de responder) uma questão crucial:

“Dobrar o esforço em informações de alta qualidade tem mérito, mas perde a essência do desafio à frente: Como se faz jornalismo de uma forma que apela às identidades centrais das pessoas, especialmente quando essas identidades rompem, divergem e confundem conceitos universais tradicionais?”

Nikki Usher, que leciona na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, argumenta que os resultados da eleição deixam claro que a mídia institucional precisa parar de se esquivar das questões raciais - e precisa abraçar o antirracismo como um valor fundamental do jornalismo.

“Este comparecimento de 71 milhões de pessoas endossando o racismo é um lembrete de que os Estados Unidos não interrogaram seu passado e a mídia institucional, em grande medida, evitou fazê-lo”, escreve ela.

A "relutância em ver a equidade racial como um valor básico de notícia em vez de uma orientação política", escreve ela, "é o lado errado da objetividade".

Usher termina com uma citação poderosa de uma importante jornalista dissidente:

“Wendi Thomas, premiada jornalista investigativa e editora do canal de notícias de justiça social MLK50, escreveu-me depois que eu pedi maneiras de apresentar esse mesmo argumento a meus outros colegas: 'as redações sempre operaram sob algumas verdades fundamentais: é bom que as pessoas tenham comida suficiente. É importante ter um abrigo. Educação de qualidade é importante. … então a constatação de que expandir essas verdades - em face da evidência quantitativa e qualitativa inegável e incontestável de que a vida das pessoas negras é desvalorizada e ameaçada de todas as maneiras que se possa medir - atinge a velha guarda como uma violação da objetividade, mostra que os fatos não importam tanto a seus colegas seniores quanto eles afirmam'."

Usher tem mais a dizer, em um post no Medium esta semana, sobre a necessidade geral dos repórteres de tomar uma posição mais firme sobre as questões centrais. Ela argumenta que "a informação por si só não consegue vencer a batalha contra a desinformação que vem de fontes confiáveis de notícias do Partido Republicano".

Em suma, os jornalistas baseados na realidade precisam lutar em nome da verdade tão duramente quanto a mídia de direita luta em nome da desinformação. (Veja meu ensaio sobre o colapso final do jornalismo político "objetivo".)

Usher pede aos repórteres que coloquem "valência moral" em suas reportagens. Chamar eufemisticamente as mentiras de "falsidades", por exemplo, é "uma forma muito mais fraca de jornalismo do que o jornalismo encorajado pela disposição de usar força moral para fazer uma afirmação".

(O jornalista reformador Wesley Lowery descreveu esse estado desejado como "clareza moral". Como escrevi em apoio ao argumento de Lowery: "os jornalistas não deveriam fingir que sabem as respostas. Eles deveríamos simplesmente parar de fingir que não sabemos quais são os problemas".)

Por último, Victor Pickard, professor da Universidade da Pensilvânia, vê a mídia corporativa adotando um status quo pré-Trump como uma desculpa para continuar sua "dependência permanente de fontes oficiais e deferência ao poder".

Mas isso significa deixar de confrontar a conduta desastrosa da mídia durante a era Trump:

“Embora seja revigorante que muitas organizações de mídia tenham finalmente parado de se submeter a Trump, devemos olhar seriamente para o papel que elas desempenharam na normalização da política fascista - bem como devemos olhar seriamente para os fatores estruturais que fazem com que essas instituições fracassem previsivelmente em promover objetivos democráticos.”

E isso significa deixar de atender às reais necessidades do povo norte-americano em um momento de múltiplas crises:

“Se os EUA querem atacar os problemas assustadores que enfrentam - mudanças climáticas, profundas desigualdades estruturais, poder dos monopólios, encarceramento em massa e outras formas de racismo sistêmico - o status quo não deve ser preservado; deve ser radicalmente mudado.”

Eu suspeito que os líderes das principais redações corporativas estão respirando aliviados não apenas porque a eleição acabou, mas porque eles esperam que os reformadores parem de pressioná-los a se tornarem mais agressivos no combate ao racismo e à desinformação e a outros desafios urgentes à nossa democracia e nossa nação .

Mas acho que a pressão está apenas começando.

Dan Froomkin é editor da Press Watch. Ele escreveu a coluna diária chamda "White House Watch" para o Washington Post durante o governo George W. Bush, depois serviu como chefe do escritório de Washington e redator sênior do Huffington Post, cobrindo a presidência de Barack Obama, antes de trabalhar como editor de Washington no Intercept.

*Este artigo foi coproduzido com o Press Watch, um site independente que monitora e critica a cobertura política norte-americana.

**Publicado originalmente em Salon | Traduzido por César Locatelli

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