Antifascismo

A maldição do eurocentrismo

 

11/07/2021 10:46

Centenas se reuniram em uma vigília no local da antiga Escola Residencial Indiana Marieval em Saskatchewan (Getty Images)

Créditos da foto: Centenas se reuniram em uma vigília no local da antiga Escola Residencial Indiana Marieval em Saskatchewan (Getty Images)

 
Escrevo no Dia do Canadá e este lindo país nortista, que tem sido meu lar por mais de 40 anos, está abalado pela descoberta de dois cemitérios clandestinos contendo cerca de mil corpos que se acredita sejam de crianças, em terrenos de antigas “Escolas Residenciais”, construídas para receber indígenas. A descoberta confere evidências a várias denúncias de comunidades indígenas dando conta que muitas das crianças tiradas delas à força desapareceram. O sistema de escolas residenciais, espécie de internatos, para crianças indígenas foi uma política formal, legal do governo canadense, uma tentativa incrivelmente cruel de “assimilação” forçada. Elas funcionaram por mais de 100 anos e cerca de 150 mil crianças indígenas foram nelas jogadas. A bela terra desenterrou um horrível segredo.

Crianças indígenas foram separadas à força de suas famílias e comunidades, colocadas em escolas mal administradas onde eram proibidas de falar a própria língua e submetidas a toda sorte de abusos físicos e mentais, como testemunharam sobreviventes. Milhares delas desapareceram, suas famílias ficando sem respostas, e sobreviventes carregando profundas cicatrizes emocionais,

Outro aspecto chocante é que a última dessas escolas foi fechada apenas recentemente: em 1996. Por que nenhum governo em todos esses anos promoveu supervisão judicial, educacional ou mesmo humana? Que cristianismo é esse que os professores anglicanos e católicos praticavam enquanto sádicos, mesmo estupradores e pedófilos, talvez até assassinos, eram permitidos perto de crianças vulneráveis?

A questão mais sinistra desses cemitérios é que eles eram secretos, não havia uma única lápide ou cruz marcando as covas. Os cemitérios foram descobertos não pelo governo, que se recusou a financiar uma busca, mas pela iniciativa de comunidades indígenas desesperadas em busca de respostas. As crianças podem ter morrido de doenças, da Gripe Espanhola, sarampo, negligência ou, pior, foram assassinadas. Será difícil atestar, mas o que é claro é que elas não receberam um enterro apropriado, humano, o que é escandaloso e suspeito, e suas famílias não foram informadas sobre doença nem morte. Elas foram jogadas na terra como dejetos, uma vergonha, privadas de sua dignidade humana, enterradas secretamente. Por que a morte delas não foi devidamente registrada? Por que foi mantida em segredo?

Como imigrante, sempre fui consciente de que o Canadá consolidou sua identidade com a narrativa de ser um país bilíngue, bi cultural, onde ingleses e franceses formaram sua governança. Isto é um fato já que os povos originários não foram “parceiros” nessa empreitada. Eles mal tiveram participação no processo da Confederação Canadense de 1867, com uma exceção. O único indígena envolvido foi o extraordinário líder métis Louis Riel, fundador da província de Manitoba, que a levou para a Confederação. Hoje em dia seu papel é diminuído. Ele foi, no fim, escandalosa e publicamente enforcado sob acusação de traição em 1885.

Tendo vindo da América Latina, eu percebi que um profundo problema na vida política do Canadá é que ela é mergulhada no eurocentrismo, assim como em outro “filho” da Europa, os Estados Unidos. A Europa foi no geral uma terra sem indígenas por séculos (com exceção talvez dos lapões e dos ciganos). É emblemático que os mais famosos pintores do Canadá, conhecidos como O Grupo dos Sete, celebrados por suas fascinantes reproduções de paisagens do norte de Ontário entre 1920-1933, produziram trabalhos completamente desprovidos de indígenas que viviam na região. Eles pintaram uma terra “vazia”.

A vida política internacional da Europa está envolvida em violento colonialismo e exploração de povos não europeus. É esquecido que os belgas na década de 1880 mataram cerca de 11 milhões de africanos e cortaram as mãos daqueles que não cumpriam uma cota estabelecida de borracha. Eurocentrismo se perde na arrogância da superioridade que produziu mais especificamente o racismo estrutural nos EUA contra os negros e no Canadá contra os povos indígenas.

A maldição não é a Europa em si, mas o eurocentrismo, a crença que apenas as culturas europeias são civilizadas. Faz parte de uma tradição: os gregos consideravam bárbaro quem não falava a língua deles e os romanos tinham como bárbaro qualquer grupo fora de seu império mediterrâneo. A cultura norte-americana (Canadá e EUA) está firmemente enraizada no eurocentrismo, tudo fora dela é considerado grosseiro, indigno, até perigoso: muçulmanos, chineses, latinos, negros e, mais dolorosamente, seus próprios povos originários, as nações indígenas da América do Norte, Central e do Sul.

Ao contrário de povos latinos americanos que travaram sangrentas batalhas para se libertarem do infame Império Espanhol, o Canadá nunca se rebelou contra seus laços britânicos/franceses para se afirmar como uma entidade diferente, nova. Sua elite governista se satisfez em criar apenas uma continuação. Como George Grant declarou em 1965, a elite canadense buscava os benefícios como parceiro menor do Império Britânico. O Canadá trocou a bandeira britânica por uma própria apenas em 1965, e sua constituição não vinculada ao Parlamento britânico ainda mais recentemente, em 1982 - mas ainda mantém como chefe de Estado sua majestade a rainha Elizabeth.

Mas uma rápida olhada na política externa do Canadá nos oferece fortes evidências de que as elites governistas hoje não assumem uma posição idiossincrática própria, que continuam querendo ser um parceiro menor de um império, agora dos EUA. Na América Latina, a questão da soberania é imperativa no discurso político, seja ela respeitada ou não. Ela é raramente mencionada no discurso político canadense.

Portanto, infortunadamente, o colonizado Estado do Canadá, por seu lado, se tornou colonizador em relação aos povos originários de sua terra. Aqueles que governavam em 1894, que deram início às infames escolas residenciais indígenas, eram na verdade nascidos na Europa ou se identificavam mais com a Grã-Bretanha ou França do que com o Canadá. O primeiro-ministro canadense John A. McDonald, fundador do sistema de escolas residenciais, nasceu na Escócia. Ele declarou que o objetivo das escolas era separar as crianças de seus pais selvagens:

“Quando a escola está dentro da reserva, a criança vive com seus pais, que são selvagens, e apesar de ela poder aprender a ler e escrever, seus hábitos e modo de pensar são indígenas. Ela é simplesmente um selvagem que pode ler e escrever... Crianças indígenas deviam ser retiradas o máximo possível da influência parental... (e colocadas) onde elas vão adquirir hábitos e modos de pensar do homem branco”.

Hector-Louis Langevin, um francófilo, outro arquiteto do sistema residencial, afirmou em 1883 que as crianças indígenas deveriam ser separadas de suas famílias para “adquirirem... apenas os bons hábitos e gostos de pessoas civilizadas”.

E já em 1920, o vice-ministro do Departamento de Assuntos Indígenas, Campbell Scott, explicou:

”Quero me livrar do problema indígena. Nosso objetivo é continuar até que não haja um único indígena no Canadá que não tenha sido absorvido no corpo político e não exista mais a questão indígena”.

A Comissão da Verdade e da Reconciliação do Canadá (2008-2019) foi criada como resultado do Acordo de Instalação das Escolas Residenciais Indígenas e foi um passo bastante positivo que tentou reconhecer e assumir um débito histórico com os povos indígenas. Ela colheu mais de 7 mil testemunhos de indígenas e concluiu que a política de assimilação do governo foi um genocídio cultural. Agora, com a descoberta dos cemitérios clandestinos, parece haver evidências de que se tratou também de genocídio físico. O relatório da comissão concluiu que as autoridades não acreditaram quando os indígenas denunciaram que centenas de crianças estavam desaparecidas, e que “o legado do sistema tem sido relacionado com uma aumento no estresse pós-traumático, alcoolismo, uso de drogas e suicídio, que persistem nas comunidades indígenas até hoje”.

O primeiro-ministro Pierre Eliot Trudeau talvez tenha sido o mais importante líder a ter um senso de “canadianismo”, ao afirmar a independência do país na Constituição de 1982 e declarar o Canadá um país multicultural, o primeiro país a fazê-lo, reconhecendo desta forma a pluralidade étnica de uma nação construída com o trabalho de imigrantes, além de apenas dos franceses e ingleses. Infelizmente, isso não incluiu os indígenas do Canadá que permaneceram marginalizados numa teia de complicações legais. Eles não são imigrantes, eles são os povos originários desta terra, e nada menos do que esse reconhecimento é aceitável para eles.

Eurocentrismo não é uma questão do passado. Em julho de 2013, o avião presidencial do primeiro presidente indígena das Américas, Evo Morales, numa violação das leis internacionais, foi detido por horas contra sua vontade pela Áustria, França, Espanha e Itália a mando dos EUA, que suspeitavam – falsamente – que Snowden estava a bordo. Não houve um pingo de preocupação entre políticos e a grande imprensa e certamente nenhuma conversa de sanções. O avião de Evo era um alvo justo. Mas houve histeria e ameaças quando em maio último um avião da Bielo-Rússia com um blogueiro de oposição branco a bordo recebeu ordem para retornar. Sem qualquer hesitação, sanções foram impostas à Bielo-Rússia. Dois pesos e duas medidas era a ordem do dia.

Hoje muitos canadenses estão despertando para o fato de que de muitas formas a nação tem vivido com as costas voltadas para os povos indígenas locais e do resto das Américas, todos os que estão vivendo hoje, negligenciados hoje, abusados hoje por corporações e Estados.

A América Latina é uma região que tem sabido desde o fatídico desembarque de Cristóvão Colombo que os europeus – sim, é uma grande generalização, mas tem sido europeus e sua influência europeizadora – têm sido responsáveis por indescritíveis torturas, roubo generalizado de terras, tentativa de fazer desaparecer culturas indígenas e violências para apagar da história todos os seus crimes. Os EUA assumiram a posição das monarquias ibéricas e desde a independências das nações latinas, todos os reformadores, todas medidas ou governos progressistas têm sofrido ativa oposição – sendo assediado, invadido ou derrubado pelas mãos estadunidenses. Recentemente, o governo de Evo Morales foi derrubado pela elite racista apoiada amplamente tanto pelos EUA quanto pelo Canadá. A batalha do povo indígena hoje é pela terra, contra sua exploração e destruição ambiental e abusos dos direitos humanos por parte de gananciosas corporações multinacionais, de tendenciosos tribunais internacionais, potências estrangeiras e ricas elites latino-americanas amigadas a elas.

Quando os estadunidenses forem em férias ao México, eles deveriam esquecer os resorts praianos e passearem pelo centro da Cidade do México para verem os murais de Diego Rivera retratando a Conquista e Colonização Espanholas. Não se trata apenas de história do México pintada por esse brilhante artista, mas a história dos povos indígenas de todas as Américas, sim, incluindo o Canadá. Esses assustadores murais estão no mesmo nível, ou até acima, do de Guernica, de Picasso.

As imagens pintadas por Rivera não são fantasias ou exagero do artista. Elas foram baseadas em fatos históricos com testemunhos em duas obras: “O paraíso perdido: brevíssima relação da destruição das Índias” (1552) de frei Bartolomé de Las Casas, que protestou contra as crueldades dos conquistadores infligidas aos povos indígenas e, posteriormente, aos negros escravos africanos; e os arquivos oficiais da Coroa Espanhola, as “Cronicas de las Indias” (arquivos dos séculos XV e XVI). Ambas são leituras aterrorizantes.

O presidente venezuelano Hugo Chávez rebatizou o Dia do Descobrimento da América para Dia da Resistência Indígena e venezuelanos derrubaram a estátua de Cristóvão Colombo em Caracas “… a fim de destruir os símbolos de nossos opressores”.

Até hoje não houve um reconhecimento formal, muito menos um pedido de desculpas ou reparação por parte da Coroa Espanhola pelos horrores que causou a grande parte deste continente.

No Canadá, as igrejas diretamente envolvidas nas escolas apresentaram suas desculpas nas décadas de 1980 e 1990 e em 2008, e o governo do premiê canadense Stephen Harper fez o mesmo. Entretanto, é preciso hoje mais do que pedidos de desculpas porque os índices de vida dos indígenas canadenses (educação, emprego, saúde, mortalidade e suicídio, disponibilidade de água potável, moradia precária, expectativa de vida e taxa de encarceramento) são muito piores do que os dos outros canadenses.

O primeiro-ministro Justin Trudeau, um habilidoso orador, é dado a pedidos de desculpas, mas não as fazem acompanhar de medidas concretas para conter o débito social, político e econômico do governo do Canadá para com seus indígenas a fim de melhorar suas vidas.

E bem provável que agora, com as chocantes descobertas das covas secretas das crianças, os canadenses vão se identificar com os povos indígenas do hemisfério, tão despossuídos, assaltados e marginalizados pelas atitudes eurocentristas de superioridade, delírio de grandeza, ganância e preconceitos absolutos.

Se o Canadá quiser ter raízes no continente americano, a elite canadense tem de perceber que essa terra é mais do que uma Europa sem indígenas. A luta dos povos originários das Américas por suas terras, identidade, liberdade cultural e política é uma só. Não é com simples pedidos de desculpas, mas não os marginalizando e reconhecendo sua legítima posição nas questões nacionais e na divisão de sua prosperidade, é que Canadá poderá encontrar sua verdadeira identidade, soberania e paz consigo mesmo e com os vizinhos hemisféricos no sul do continente.

María Páez Victor, doutora em Sociologia, é uma venezuelana vivendo no Canadá

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



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