Antifascismo

A perseguição internacional aos protetores de Assange

 

24/04/2019 10:38

 

 
Em entrevista recente com o La Jornada, o ex-chanceler equatoriano Ricardo Patiño afirmou que é vítima de uma perseguição política por parte do governo do seu país, encabeçado por Lenín Moreno. Efetivamente, as autoridades de Quito emitiram recentemente uma ordem de detenção e solicitaram uma ficha vermelha à Interpol, com o pretexto de um suposto delito de “instigação à violência”. Na verdade, o político e diplomata sul-americano, que passou por ministérios como Finanças, Litoral, Gestão Política, Defesa e Relações Exteriores – sempre durante os períodos presidenciais do ex-presidente Rafael Correa –, participou de iniciativas em favor da resistência pacífica e promoveu um abaixo assinado a favor de uma revogação do mandato de Moreno, que deu uma guinada de 180 graus em seus alinhamentos políticos, rompendo com o projeto popular, social e soberanistas de Correa, e aproximou o Equador da política exterior estadunidense.

Num cenário diferente, em Washington, uma corte se negou a conceder a liberdade sob fiança à ex-analista militar Chelsea Manning, presa desde 8 de março, apesar de ter recebido um indulto outorgado pelo ex-presidente Barack Obama – o qual veio após sete anos de prisão, acusada de divulgar centenas de milhares de documentos secretos do governo através do Wikileaks, deixando em evidência os crimes contra a humanidade e atos de intervenção e corrupção cometidos pelo governo dos Estados Unidos mundo afora.

O vínculo entre ambas as situações é o portal de vazamentos fundado por Julian Assange, que se encontra prisioneiro do governo britânico e enfrenta um pedido de extradição por parte dos Estados Unidos. Como se recordará, o informador australiano permaneceu quase sete anos refugiado na Embaixada do Equador em Londres, para impedir que se concretizasse a sua entrega a Washington, e o artífice do seu asilo foi precisamente o chanceler Ricardo Patiño, que dirigia a política exterior equatoriana na época, e trabalhou para convencer o então presidente Rafael Correa.

Certamente, o acosso judicial ao ex-chanceler não se relaciona única ou principalmente com o seu papel na proteção diplomática outorgada a Assange. Tal hostilidade é só um capítulo da virulenta perseguição empreendida por Lenín Moreno contra todos os ex-colaboradores de Correa, começando por quem foi seu vice-presidente, Jorge Glas, atualmente preso sem provas nem argumentos verossímeis que sustentem a acusação contra si. Porém, mais absurda que as montagens judiciais contra Patiño é a série de denúncias relacionadas à abertura de contas secretas em paraísos fiscais por parte de Edwin Moreno, irmão do atual governante, para ocultar fundos que este recebeu, como comissões de empresas estrangeiras.

Pelo que se pode ver, a corrupção de Moreno não foi considerada um obstáculo por Washington, que fez um acordo com o Equador para a abertura de créditos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, condicionados à adesão de Quito à uma aliança continental contra a Venezuela, ao seu boicote ao processo de integração regional que teve lugar na América do Sul durante os governos progressistas, e, claro, à entrega de Julian Assange.

O fato é que a vingança estadunidense contra Assange, a restauração da hegemonia da superpotência no subcontinente e a trágica regressão política, econômica e social que o Equador vem sofrendo se unem num cenário nefasto, caracterizado pela criminalização da informante Manning, do informador Assange e do diplomata Patiño. Nessa caçada humana, orquestrada pela Casa Branca, Londres e Quito participam como aliados menores. Em suma, estamos assistindo a um exemplo esclarecedor e terrível do que significa o avanço das direitas autoritárias, antidemocráticas e opacas no mundo.

*Publicado originamente em La Jornada | Tradução de Victor Farinelli

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