Antifascismo

A supremacia branca é o vírus, a polícia é o vetor

 

01/06/2020 16:08

(Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Nathaniel St. Clair)

 
A tensão é alta, quando a polícia de Minneapolis assassinou um homem negro chamado George Floyd, não com um tiro, mas com um agonizante joelho contra seu pescoço; que pressionou por sete minutos, vários dos quais o homem não respirava. O protesto é um lugar para emergir no coletivo e tornar-se indistinto, para deixar a vaidade em silêncio, enquanto outros mais conscientes da referida experiência lideram. No entanto, a escrita deve ser o lugar da originalidade. Um lugar onde resolvemos os problemas da teoria que influencia a ação.

É aqui que eu gostaria de abordar uma espécie de Outro [Othering]. Não é a forma de colocar o Outro como a minoria dócil, santa e martirizada, mas, mais ainda, marcar o Outro da brancura e suas insatisfações. Sou da opinião de que todas as pessoas, especialmente as brancas, devem começar a viver uma vida que admita totalmente a vergonha.

Quanto mais merda racista acontece, mais culpa branca se acumula no fundo de sua cabeça má. Vou sustentar que a divisão primária na sociedade é entre a classe dominante e a classe trabalhadora. Os trabalhadores não administram crises; os trabalhadores são a crise que deve ser resolvida pela indústria farmacêutica, pelo complexo industrial militar, pela polícia e mesmo por aqueles que trabalham na área social, médico e professor, lamento dizer. Esses grupos se cruzam? Claro. E os policiais são geralmente as pessoas mais racistas da sociedade? Claro.

Mas não é assim tão simples. A polícia está protegendo alguma coisa aqui. Podemos não gostar quando se torna viral, quando a verdadeira natureza da classe dominante é transmitida nas telas. E, no entanto, mantenho duas afirmações controversas que não são tanto pró-policiais quanto antirracismo, por mais estranho que essa frase possa parecer.

É muito tentador se envolver em pensamentos de grupo. E um dos desafios que enfrentei é me desvencilhar do pensamento de grupo até da esquerda e ver aonde isso me leva. Eu ouço essa declaração o tempo todo: “você acha que há bons policiais? Todos os policiais são maus”.

Isso pode ser verdade, eu realmente não me importo se é. A realidade é que se estou com sérios problemas ligo para o 911 [o 190 dos EUA], mas se vejo um policial, em geral imagino o pior, não acho realmente importante se os policiais são bons ou ruins. Nos faz sentir bem chamá-los de maus, e talvez seja verdade. Mas me preocupo com a finalidade de qualquer ideologia.

Se os policiais são o problema, somos absolvidos. Isso me horroriza. Talvez sim, seja um horror privilegiado, mas mesmo assim é um horror. Eu temo muito a morte da culpa branca. Por mais tóxica que seja, é o melhor que conseguimos.

Perdoe-me, mas, assim como vejo o prisioneiro como totalmente humano, também vejo o policial na mesma luz. Em quem eu mais confiaria? Como você, querido esquerdista, é no prisioneiro. Quem tem mais chances de ser culpado, como você, querido esquerdista, eu sei que é a polícia.

No entanto, não estamos todos apenas representando os papéis? Sim, podemos e devemos julgar uns aos outros através dos papéis que escolhemos interpretar. Da mesma forma que nos beneficiamos do mal que fazemos aos outros e coisas similares. E, no entanto, vejo o policial fazendo seu trabalho quando mata o homem negro. Para mim, isso é muito mais horrível do que ele ser mau, o que ele pode muito bem ser.

É o mesmo que o fenômeno Trump ou a COVID. Nos sentimos melhor quando externalizamos o mal. Mas nós somos o sistema, não somos? A questão é como mudamos os incentivos? Todos sabemos que o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, conhecido, por boas razões, como Gentri-Fry [NT: por seu apoio enfático à gentrificação do centro da cidade], não teria demitido os quatro policiais sem anos do movimento Black Lives Matter, rearranjando, efetivamente, os desejos.

É neste tipo de progresso que devemos ter esperança. Não extraditar o problema lavando as mãos, mas admitir que, talvez, se tivesse sido criado da mesma maneira que esse policial foi criado, ou se eu tivesse o mesmo emprego que ele ou se tivesse a mesma doença mental que ele ou o que quer que seja, bem, poderia ter sido eu. Esse é o tipo de horror que a América Branca deve abraçar. Assim como os negros podem tremer de medo quando vão ao supermercado, devemos tremer com a possibilidade de estarmos nessa situação em que temos que fazer uma escolha entre oportunismo e amor.

Mudança climática não é brincadeira. Quem pode limpar suas mãos pelos milhões que já estão morrendo por causa disso? A xenofobia e o complexo industrial prisional resolvem esses problemas naturais para nós. Os policiais podem operar sem hipocrisia. Nós não podemos.

Eu vejo a polícia como classe trabalhadora. Eles operam na linha de frente dos capitalistas e dos supremacistas brancos, enquanto tentamos nos distanciar socialmente dos dias em que eles, acidentalmente, satisfazem nossa própria ideologia e ódio. Digo isso não como uma conspiração, mas como um crente no racismo subconsciente. Sei que a maioria dos brancos da classe dominante mataria um negro rapidamente se passassem pela academia de polícia.

Falo como comunista, como alguém que odeia a austeridade e como alguém que acredita que, embora seja fácil culpar o Estado por seus pecados, é muito mais difícil reconhecer o poder que temos coletivamente quando abandonamos a liberdade individual e, em vez disso, adotamos a responsabilização de um governo. Eu sei que muitas das pessoas brancas de Minnesota terão muito a reclamar do governo após esse assassinato, mas em meio à pandemia de coronavírus quem salvou os mais vulneráveis, as minorias e as pessoas pobres com maior probabilidade de morrer na pandemia? O governo o fez. O governo que é um dos poucos governos estaduais e locais sem muita corrupção. As pessoas são apenas hipócritas. Essa mentalidade de ‘faça você mesmo” para não precisar ser protegido é a posição mais privilegiada.

Quem precisa de um governo forte, incluindo uma potente força policial controlada pela comunidade mais do que pessoas negras e pardas? Quem é mais devastado pelo crime do que essas comunidades? E o crime que quero dizer não é apenas crime de rua, como a dupla de pai e filho McMichael, mas também crimes como a água de Flint. Não podemos ter as duas coisas aqui e dizer que todo governo é ruim quando quem mais consegue sobreviver sem ele é o branco e privilegiado.

É por isso que mais do que nunca precisamos responsabilizar a polícia, esse é o ponto. Dizer que não precisamos de polícia, que eles são todos maus, bem, é fácil para algumas pessoas dizerem. Sem a polícia, quem diria que os assassinos do MAGA [Make America Great Again, slogan da campanha de Trump, tornar os EUA grandes novamente] não estariam linchando pessoas nas ruas? Temos de abordar a óbvia intersecção que as pessoas com maior probabilidade de linchar são o bando empresarial e os próprios policiais. Mas esse é o poder do capital, do indivíduo e do lucro. Verdadeiramente poderosos. Não podemos combater isso nesse paraíso dos coronavírus, onde todos estamos vigilantes e lutamos por nós mesmos. Precisamos do poder de comunidade.

A polícia está empilhando corpos. Eles são os vetores. Para vencer o vírus da supremacia branca, devemos controlar os vetores. Nós devemos responsabilizá-los. Mas o vírus é a supremacia branca. Não podemos resolver essa praga nos distanciando socialmente do problema. Nós somos o vírus. Então, em vez de culpar os mais doentes, vamos ser responsáveis pelo futuro da sociedade. Nenhum sentimento é nos torna mais poderosos. Não devemos ter medo da polícia. Deveríamos ter medo de nos tornarmos eles.

A visão de Slavoj, de que Trump é odiado porque é a última coisa que a esquerda liberal vê antes de ver a luta de classes, também se aplica aqui. O assassinato a sangue frio dessa pessoa, muito semelhante ao coronavírus, convida à indignação, mas nunca a uma conclusão, exatamente. Trump chega e ouvimos "os Democratas nos deixaram na mão", coronavírus vem e ouvimos "o capitalismo nos deixou na mão" e então outro assassinato de um homem negro chega e ouvimos " o privilégio branco nos deixou na mão". Nenhuma dessas é solução. Todas elas são servidas a nós como populares, descoladas e modernas, mas nenhuma resolverá o problema.

A ameaça à ordem social foi exibida por milhares de pessoas que saíram às ruas. Eu acho que temos que parar de externalizar tudo. Vamos assumir o controle sobre nossos próprios destinos aqui. Ninguém está aqui para dizer que qualquer um dos males padrão do dia, sejam democratas falsos, brancos irados, capitalistas ganaciosos ou policiais assassinos, deva ser redimido em sua forma atual. Mas, assim como um governo forte pode regular as leis e deve ser adotado, uma cidadania forte pode regular o governo e deve ser adotada.

A mudança virá. Não será por que alguém é uma pessoa boa ou má. Eu acho que essa é a ideologia genial do Black Lives Matter. Esse movimento não visa nenhum dos altruísmos ou banalidades da esquerda liberal sobre como o capitalismo é tão insensível ou como todos nos importamos tanto ou o que quer que seja. Simplesmente diz: nossas vidas são importantes.

O espírito é este: isso já é o que está sendo dito. Os Estados Unidos têm os maiores direitos humanos, odiamos o racismo, etc. etc. Na verdade, estamos dando um passo atrás em relação a todos os ditos e afirmando algo mais profundo no processo que não foi cumprido, expondo toda a série de mentiras ao invés de apenas o nosso fracasso atual.

A crítica é para idiotas. Agora é a hora de mudar o mundo. Mas aqui estou um pouco mais de pessimista. Se mudássemos o mundo, o que mobilizaria os liberais de esquerda? A coisa boa, porém, é que mesmo as pessoas mais famintas por poder podem ficar entediadas. Um novo projeto será encontrado para a classe dominante e uma nova resistência à sua colonização terá que ser alcançada. Um por um, podemos eliminar a necessidade desses projetos.

É importante resistir às formas mais explícitas de dominação, como Trump, a polícia ou o vírus. Se não fizermos isso, arriscamos que essa forma de crise se torne a única forma de engajamento que conhecemos. É um perigo igual apenas se opor a uma crise sem abordar sua causa, porque então resistimos ao retorno contínuo ao local da crise.

Devemos fazer a pergunta crucial sobre por que o autoritarismo surge. Ele se expressa quando a ordem tradicional não pode mais ser legitimada em termos sutis. Isso pode ser em parte devido à pressão exercida sobre a classe dominante pelos pobres, mas, infelizmente, é ainda mais uma parte da incapacidade dos pobres de lidar com as pressões da classe dominante.

Embora seja tentador dizer que as coisas continuam piorando ou melhorando, acho mais preciso dizer que é a mesma merda em um dia diferente, com diferentes ferramentas, recursos e desejos de todos os lados que continuam em luta. Devemos adotar completamente nosso lado nesta batalha histórica e aceitar seu desafio ao longo da vida. Imaginar a história como fixada a um estado de fascismo, capitalismo ou qualquer outro prisma ideológico sem esperança limita nossa chance de surpreender o mundo. Embora assassinatos de negros e lamentações de brancos possam ser tão previsíveis quanto o sol e a lua, podemos olhar para aquela doença horrível, chamada COVID-19, para dizer que nada está realmente gravado em pedra. Um novo dia está aqui, para aqueles de nós ainda de pé. Não vamos perder mais um momento dele.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de César Locatelli

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