Antifascismo

Angela Davis: ''Sabíamos que o papel da polícia era proteger a supremacia branca''

A veterana ativista dos direitos civis fala sobre crescer num país segregado, a oportunidade do movimento 'Black Lives Matter' e o que a inspira a continuar lutando

19/06/2020 13:09

Angela Davis fala em uma manifestação, em 1974 (Bettmann/Bettmann Archive)

Créditos da foto: Angela Davis fala em uma manifestação, em 1974 (Bettmann/Bettmann Archive)

É 1972, e Angela Davis está respondendo a uma pergunta sobre se aprova o uso da violência pelos Panteras Negras. Ela está sentada contra um fundo de tijolos azul-claro, a parede de uma cela da prisão estadual da Califórnia. Vestida com um suéter vermelho de gola rolê, com o cabelo afro que é sua marca registrada e um cigarro aceso, ela olha para o entrevistador sueco – quase através dele – enquanto responde: “Você me pergunta se eu aprovo a violência? Isso não faz nenhum sentido. Se eu aprovo as armas? Cresci em Birmingham, Alabama. Alguns amigos muito, muito próximos, foram mortos por bombas – bombas plantadas por racistas. Lembro-me, desde que era muito pequena, do som de bombas explodindo do outro lado da rua e da casa tremendo... Por isso, quando alguém me pergunta sobre violência, acho incrível porque significa que a pessoa que faz essa pergunta não tem a menor ideia do que os negros vivem e pelo que passam neste país desde o momento em que a primeira pessoa negra foi sequestrada na costa da África.”

Assistir ao pequeno trecho explica o ícone Davis em um instante: a imagem, a intenção, a inteligência. Ela foi imortalizada no documentário de 2011 The Black Power Mixtape, e trechos da entrevista foram compartilhados nas redes sociais desde que o assassinato de George Floyd por um policial de Minneapolis provocou protestos globais contra a violência policial. Seu livro de 1981, Mulheres, Raça e Classe, está sendo largamente compartilhado como uma leitura essencial para quem quer aprender sobre ser ativamente antirracista, ao lado de Da próxima vez, o fogo, de James Baldwin, e da autobiografia de Frederick Douglass.

Aos 76 anos, ela fala, via Zoom, de seu escritório na Califórnia. Pergunto se ela sente que hoje, depois de tantos anos, mudanças significativas são possíveis? “Bem, é claro que (as coisas) podem mudar", diz. "Mas não é garantido”. Seu tom é compreensivelmente cauteloso, já que ela viu tudo, desde a rebelião de Watts e a guerra do Vietnã até Ferguson e a guerra do Iraque. "Depois de muitos momentos de tomada de consciência dramática e tantas possibilidades de mudança, os tipos de reformas instituídas nos períodos subsequentes impediram o potencial radical de se concretizar."

Ela está, de forma geral, entusiasmada pelos vastos protestos desencadeados pela morte de Floyd. Embora tenha havido grandes protestos em 2014 – após a morte de Michael Brown, entre outros, como Tamir Rice, Sandra Bland e Eric Garner – Davis acha que, desta vez, algo mudou. Desta vez, os brancos estão começando a entender.

"Nunca vimos manifestações contínuas, deste tamanho e tão diversas", diz Davis. “Acho que é isso que está dando muita esperança. Muita gente, recentemente, em resposta ao slogan Black Lives Matter, perguntou: ‘Mas não deveríamos na verdade dizer que todas as vidas importam?’ Agora, finalmente, estão entendendo. Que enquanto os negros forem tratados dessa maneira, enquanto a violência do racismo existir, ninguém estará seguro.”

Se alguém é capaz de fazer uma análise da situação atual é Angela Davis. É uma intelectual que milita há cinco décadas pela justiça racial, mas as causas que defende – reforma penitenciária, desfinanciamento da polícia, reestruturação do sistema de fiança – eram até recentemente consideradas radicais demais para o pensamento político dominante. Havia o sentimento de que ela estava parada no tempo; que pertencia a uma categoria dos anos 60, chamada radical chique, e que suas ideias estavam ultrapassadas. Em um perfil escrito em 2016, um entrevistador do Wall Street Journal perguntou aos colegas se sabiam quem era Angela Davis. Ninguém com menos de 35 anos sabia.

Angela Davis pode ter se tornado um ícone da luta por justiça social 50 anos depois de se tornar conhecida, mas ela afirma que a troca com a nova geração de manifestantes e pensadores políticos é de mão dupla. "Vejo esses jovens tão inteligentes, que aprenderam com o passado e trazem novas ideias", diz ela. “Vejo-me aprendendo muito com pessoas 50 anos mais novas que eu. Para mim, é motivo de entusiasmo. E me faz querer continuar na luta”.

"Acho realmente importante ressaltar que, embora a imensidão dessa resposta seja nova, as lutas não são novas", diz. Davis não quer que o impacto da organização comunitária, das oficinas educacionais e dos bancos de alimentos – o trabalho de base iniciado pelos Panteras Negras nos anos 1960 – seja ignorado agora. "As lutas estão sendo travadas há muito tempo", acrescenta. "O que vemos hoje é resultado de um longo trabalho que não recebe necessariamente a atenção da mídia".

Davis cita a militarização da polícia dos EUA após o Vietnã e o potencial para uma reforma penitenciária após a rebelião na prisão de Attica, em 1971, que não se materializou, pelo menos não da forma como ela imaginou. A população carcerária dos EUA explodiu de cerca de 200 mil, na época dos eventos de Attica, para mais de um milhão de prisioneiros em meados dos anos 1990. “Olhando para trás, percebemos que as reformas na verdade ajudaram a consolidar a própria instituição e a torná-la mais permanente”, diz ela. “Esse é o medo agora”.

Então, que conselho daria ao movimento Black Lives Matter? "A coisa mais importante, do meu ponto de vista, é começar a expressar ideias sobre o que podemos fazer a seguir", diz.

Esta é, obviamente, uma grande questão e difícil de responder no calor dos crescentes protestos em todo o mundo. Uma coisa que Davis deixa clara é que momentos como o incêndio de uma delegacia em Minneapolis ou a remoção da estátua de Edward Colston em Bristol não são a resposta final. "Independentemente do que as pessoas pensem, isso não trará mudanças reais", diz ela sobre a remoção da estátua. "É a organização. É o trabalho. Se as pessoas continuarem esse trabalho, se continuarem se organizando contra o racismo e propondo novas formas de pensar a transformação de nossas respectivas sociedades, haverá mudanças”.

Angela Yvonne Davis nasceu em Birmingham, Alabama, em 1944. Na época, o Alabama era controlado pelo político e notório supremacista branco Bull Connor. Davis era amiga de algumas das meninas mortas no atentado à igreja Batista da 16th Street, em 1963 – um ato de terrorismo da Ku Klux Klan que matou quatro meninas e pelo qual nenhum processo foi instaurado até 1977. “Nós sabíamos que o papel da polícia era proteger a supremacia branca”, diz Davis.

Ela se mudou para Nova York aos 15 anos para fazer o ensino médio, foi para a Alemanha Ocidental estudar filosofia e marxismo com Herbert Marcuse na escola de Frankfurt e, de volta aos EUA no final dos anos 1960, atuava nos Panteras Negras e era membro do Partido Comunista. Seu vínculo com o comunismo fez com que o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, a demitisse do cargo de professora assistente de filosofia da UCLA.

Então, em 1970, as coisas mudaram bruscamente. Uma espingarda comprada legalmente por ela foi usada em uma tentativa de fuga de um tribunal. Um juiz, que havia sido feito refém, foi morto, assim como Jonathan Jackson – o estudante que armou a tentativa de fuga – e os dois réus. Davis foi acusada de "sequestro agravado e assassinato em primeiro grau" por ter comprado a arma. Ela entrou na clandestinidade e foi presa em Nova York. Aretha Franklin ajudou a dar visibilidade a seu caso, oferecendo-se para pagar sua fiança, os Rolling Stones e John Lennon escreveram canções sobre ela, ela se tornou uma causa célebre em todo o mundo e foi absolvida das acusações após passar 18 meses na prisão. O episódio transformou Davis de uma líder acadêmica e comunitária radical em uma figura internacional de todo tipo de ativismo político. "Agradeço muito por ainda estar viva", diz Davis. "Porque sinto que testemunho tudo isso por todos aqueles que não chegaram até aqui."

Ela sabe o quão perto chegou de não sobreviver. Quando a entrevista de 1972 aconteceu, ela ainda estava presa e era acusada de assassinato, e poderia – em tese – ter sido executada. Muitos dos companheiros Panteras de Davis tiveram mortes violentas nas mãos do estado: Fred Hampton foi morto em uma invasão policial em Chicago, enquanto Bobby Hutton foi baleado enquanto se rendia em Oakland (Marlon Brando fez um discurso em sua homenagem). Muitos ainda estão na prisão (Mumia Abu-Jamal) ou no exílio (Assata Shakur). "Sei que eu poderia ser um deles... vários sucumbiram", diz Davis. “Eu poderia estar na prisão, poderia ter sido condenada a passar o resto da vida atrás das grades. E minha vida foi salva apenas por causa de um movimento e organizado no mundo todo. Então, de certa forma, meu trabalho permanente se baseia na consciência de que eu não estaria aqui se muitas pessoas não tivessem feito o mesmo tipo de trabalho por mim. E continuarei a fazer este trabalho até o dia da minha morte".

Um dos princípios fundamentais da vida de Davis após a prisão é garantir que a contribuição das mulheres para a luta pelos direitos civis não seja ignorada. É algo que ela vê ecoando hoje, quando se luta para que as mulheres vítimas da violência policial – pessoas como Breonna Taylor, baleada e morta pela polícia em Louisville, Kentucky, depois de arrombarem seu apartamento – ganhem a mesma visibilidade que os homens. "Essa masculinização da história remonta a décadas e séculos", diz Davis. "Discussões sobre linchamento, por exemplo, geralmente deixam de registrar não apenas que muitas das vítimas de linchamento eram mulheres negras, mas também que quem lutava contra o linchamento eram mulheres negras, como Ida B. Wells."

"Acho que é importante entender por que acontece essa tendência às representações masculinas de luta, e por que não reconhecemos que as mulheres sempre estiveram no centro dessas lutas, seja como vítimas ou como organizadoras".

Não são apenas as ideias de Davis sobre reforma da polícia e justiça social que estão ocupando espaço; suas ideias sobre como essa mudança pode ocorrer vêm se mostrando igualmente influentes. Há décadas, ela promove o pensamento feminista que rejeita uma liderança política e formas de resistência hipermasculinas. Ela acha que os movimentos Occupy e Black Lives Matter, que não deram ênfase a um líder ou, em alguns casos, até formaram grupos de liderança reconhecíveis, abrem novos caminhos.

"Tem gente que pergunta: 'Onde está o Martin Luther King de hoje?', 'Onde está o novo Malcolm X?' ',' Onde está o próximo Marcus Garvey? '", diz. “E, é claro, quando pensam em líderes, pensam em carismáticos homens negros. Mas a forma de organização radical mais recente entre os jovens, que tem sido um tipo feminista de organização, enfatiza a liderança coletiva.”

Mas não haveria uma tensão entre os ideais de coletividade de Davis e seu próprio status? "Não consigo me levar muito a sério", diz ela. “Digo isso sempre. Nada teria acontecido se dependesse só de mim como indivíduo. Foi o movimento e o impacto do movimento.”

Davis já tentou levar esse movimento para o mainstream antes. Ela foi candidata a vice-presidente pelo Partido Comunista dos EUA em 1980. Em uma palestra em 2006, ela se desesperou com o governo George W. Bush, e hoje nem consegue dizer o nome de Trump, optando pelo "atual morador da Casa Branca". Será que a democracia americana tem espaço hoje para ideias radicais sobre mudanças sociais? "Acho que não", diz Davis. "Não com a liderança das atuais formações políticas – não com os Democratas e certamente não com o Partido Republicano."

Mas e os democratas se ajoelhando e vestindo tecidos kente para mostrar solidariedade? Nancy Pelosi e outros democratas proeminentes usaram o tecido ganês, dado a eles pela bancada negra do Congresso, para mostrar “solidariedade” com os afro-americanos, uma base eleitoral crucial da qual seu candidato à presidência, Joe Biden, vem tentando se aproximar. "Isso é porque eles querem estar do lado certo da história", diz Davis, com desdém. "Não necessariamente porque farão a coisa certa."

Às vezes, Davis conta em suas palestras que, quando criança em Birmingham, perguntava à sua mãe por que não podia ir ao parque de diversões ou bibliotecas segregadas. Sua mãe, ativista igualmente, explicava como a segregação funcionava, mas não parava aí. "Ela sempre nos dizia que as coisas mudariam", diz Davis. “E que eles mudariam, e que poderíamos fazer parte dessa mudança. Assim, quando criança, aprendi a viver sob a segregação racial, mas ao mesmo tempo, a viver em um novo mundo imaginado e a perceber que as coisas não seriam para sempre como eram”.

"Minha mãe sempre nos dizia: 'Não é assim que as coisas deveriam ser, não é assim que o mundo deveria ser.'"

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles



Conteúdo Relacionado