Antifascismo

Antraz pode ter vazado de pesquisas militares dos próprios EUA, diz cientista

A revelação foi feita por um cientista que participou de grupos da ONU para inspeções militares. Segundo ele, os EUA possuem pelo menos um programa oficial que produz a bactéria

15/10/2001 00:00

Em outubro de 2001, cinco pessoas morreram nos EUA, vítimas do uso criminoso de antraz (Reprodução/bit.ly/3bVdV6K)

Créditos da foto: Em outubro de 2001, cinco pessoas morreram nos EUA, vítimas do uso criminoso de antraz (Reprodução/bit.ly/3bVdV6K)

 
Todos os jornais têm reservado manchetes para o bioterrorismo, mas nenhum se lembra de investigar porque os Estados Unidos rejeitaram o protocolo de verificação de armas biológicas, que estava para ser assinado em Genebra em agosto passado, e a eventual relação dessa recusa com o bioterrorismo.

Uma reportagem do Wall Street Journal, reproduzida no Estadão nesta segunda-feira, historia os programas de armas biológicas do Iraque e de países comunistas, mas omite os programas americanos.

JB, Folha e Estadão reproduzem o relato da jornalista do New York Times, Judith Miller, sobre o momento em que ela abriu o primeiro envelope com o antraz, mas omitem o livro que a própria Judith Miller acaba de publicar revelando programas secretos norte-americano com armas biológicas, chamado: “Germs, biological weapons and America’s Secret War”.

Revelações de um cientista

Para descobrir do que está por trás desta história, contatamos e conseguimos entrevistar um dos principais participantes das reuniões de Genebra e integrante das comissões de inspeção da ONU. Eis um resumo do que esse cientista nos disse: quando a delegação americana rejeitou a proposta que já vinha sendo elaborado há dez anos, causou tanto espanto que até a CNN foi lá reportar.

Os Estados Unidos deram três pretextos para a recusa: “razões de segurança nacional”, “proteção dos direitos de propriedade industrial” e a alegação absurda de que, como as inspeções não protegeriam contra o bioterrorismo, seriam inúteis. Mas a verdadeira causa da recusa poderia ser o reengajamento dos Estados Unidos em programas de armas biológicas, proibidos pela convenção de 1975. O protocolo propunha instrumentos de verificação do cumprimento da convenção, como já existe para armas químicas.

Já vazaram informações de dois programas secretos de guerra biológica levados a cabo nos últimos anos pelos Estados Unidos, em violação do tratado de proibição de armas biológicas. Um deles é conduzido por uma Defense Threat Reduction Agency (DETRA), que coincidentemente fica em Nevada, local de um dos ataques com antraz. Seu objetivo é justamente o de verificar se grupos terroristas poderiam fabricar armas biológicas e, para isso, organizou uma operação que consistia em tentar obter todos os meios para produzir um agente biológico de modo clandestino, como se fosse um grupo terrorista.

Não se sabe que agente biológico foi produzido, mas é provável que tenha sido o antraz, porque esse foi o agente biológico mais usado nos programas anteriores das grandes potências e no do Iraque. Fotos desse laboratório chegaram a ser publicadas em reportagens da Judith Miller.

Um segundo programa americano é conduzido pela CIA e comprovadamente mexe com o antraz. Foi provocado por um artigo científico russo relatando a produção de uma variedade geneticamente modificada do antraz resistente às atuais vacinas. Os americanos pediram amostras aos russos e, frente a sua recusa, desenvolveram um programa secreto para reproduzir a experiência russa. Mas enquanto a experiência russa, por ser publicada em revistas científicas, poderia estar dentro do permitido pela convenção, a americana certamente não, por ser secreta e conduzida pela CIA.

Há, portanto, a possibilidade de que o antraz dos ataques de bioterrorismo tenha escapado de um desses grupos, do interior do próprio estabelecimento militar. O cientista com quem conversamos chega a formular a hipótese de que poder existir uma relação entre a forma como os despachos de antraz vem sendo noticiados de modo direcionado, e as tentativas do grupo dos falcões em torno do vice-presidente Cheney de estender a guerra ao Iraque.



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