Antifascismo

As guerras dos EUA levaram 37 milhões de pessoas ao exílio: o país precisa assumir a responsabilidade

Nova pesquisa aponta que, desde o início da campanha americana da guerra ao terror, cerca de 37 milhões de pessoas precisaram deixar suas cidades e países

22/09/2020 12:07

Refugiados e migrantes descansam perto da fronteira de Pazarkule enquanto tentam entrar na Grécia vindos da Turquia (Osman Orsal/Getty Images)

Créditos da foto: Refugiados e migrantes descansam perto da fronteira de Pazarkule enquanto tentam entrar na Grécia vindos da Turquia (Osman Orsal/Getty Images)

 
Desde que George W Bush declarou uma "guerra global contra o terrorismo" após os ataques da Al Qaeda de 11 de setembro, as guerras iniciadas e travadas por forças americanas deslocaram cerca de 37 milhões de pessoas, de acordo com um novo relatório que ajudei a produzir com equipes da American University e do Costs of War Project, da Brown University.

As 37 milhões de pessoas deslocadas incluem 8 milhões de refugiados e requerentes de asilo e 29 milhões de deslocados internos no Afeganistão, Iraque, Líbia, Paquistão, Filipinas, Somália, Síria e Iêmen. O deslocamento de 37 milhões de pessoas equivale a remover todos os residentes do Texas e da Virgínia ou quase todo o Canadá.

Dadas as lacunas existentes até mesmo nas melhores estatísticas internacionais de deslocamento, nossa estimativa de 37 milhões de deslocados é conservadora. O total real de deslocados pelas guerras dos EUA pós-11 de setembro pode estar mais perto de 48-59 milhões – mais pessoas do que toda população da Inglaterra.

É claro que o governo americano não é o único responsável pelo deslocamento de 37 milhões de pessoas. O governo do Reino Unido e de outros aliados dos EUA compartilham esta responsabilidade, assim como o Talibã, milícias iraquianas sunitas e xiitas, o ditador sírio Bashar al-Assad, o Estado Islâmico, a Al Qaeda e outros combatentes, governos e atores.

No entanto, as oito guerras em nosso estudo são conflitos em que o governo dos EUA tem responsabilidade significativa, seja de ter iniciado (Afeganistão / Paquistão e Iraque), escalado, enquanto um grande combatente (Líbia e Síria), ou alimentado através de ataques de drones, assessoria no campo de batalha, apoio logístico e outros tipos de ajuda militar (Iêmen, Somália e Filipinas). O deslocamento nessas guerras foi de:

• 5,3 milhões de afegãos;

• 9,2 milhões de iraquianos;

• 3,7 milhões de paquistaneses;

• 1,7 milhão de filipinos;

• 4,2 milhões de somalis;

• 4,4 milhões de iemenitas;

• 1,2 milhão de líbios;

• 7,1 milhões de sírios.

Alguns podem criticar a inclusão de países fora do Afeganistão e do Iraque em nossos cálculos. Alguns podem criticar a inclusão da Síria (embora nossa metodologia conservadora inclua bem menos da metade dos deslocados cumulativamente desde o início da guerra civil na Síria). Observamos que, mesmo que nos concentrássemos apenas nos 14,5 milhões de deslocados no Afeganistão e no Iraque, esse total ultrapassaria o deslocamento causado por qualquer guerra desde 1900, exceto a segunda guerra mundial.

Os danos sofridos por quem foi obrigado a abandonar suas casas são profundos. O deslocamento empobrece as pessoas econômica, psicológica, social e emocionalmente. O deslocamento em massa prejudicou comunidades e países de destino, que se sobrecarregam para acolher os refugiados. A migração em massa para a Europa alimentou a ascensão da extrema direita e dos movimentos racistas e nacionalistas em todo o mundo. Esses movimentos ajudaram a orquestrar reações violentas contra refugiados em lugares como Alemanha e França; desde 2016, grande parte da Europa bloqueou a entrada de refugiados, prendendo pessoas em condições quase sempre péssimas em lugares como Lesbos, na Grécia.

O governo dos Estados Unidos deu as costas à grande maioria dos deslocados. Desde 2001, o governo dos EUA admitiu pouco menos de 348.000 refugiados de todo o Oriente Médio. Em comparação, a Turquia acolhe atualmente 3,9 milhões de refugiados e outras populações deslocadas. Um em cada sete e um em cada quinze pessoas no Líbano e na Jordânia, respectivamente, são refugiados. Nos últimos anos, o Canadá recebeu mais de 10 vezes mais refugiados per capita do que os EUA. Sob o governo Trump, as admissões de refugiados nos EUA caíram para quase zero com a proibição de admitir refugiados e outros imigrantes de vários países de maioria muçulmana.

Os líderes americanos poderiam ter dado apoio a um número muito maior de deslocados. Governos republicanos e democratas já fizeram isso antes. Após a guerra no Vietnã, Camboja e Laos, o governo dos Estados Unidos recebeu mais de 800 mil refugiados do sudeste asiático.

Embora muitos presumam que os refugiados sejam um fardo financeiro para os países anfitriões, os líderes alemães atenderam quase 900 mil pedidos de asilo de refugiados em 2015, não apenas por sentimentos de obrigação histórica após o Holocausto nazista, mas também por entender que os refugiados são uma nova e importante força de trabalho, dado o envelhecimento da população alemã.

Como neto de refugiados judeus que fugiram da Alemanha nazista, acredito que os cidadãos americanos têm a obrigação de reparar os danos causados pelas guerras pós-11 de setembro, incluindo o deslocamento de dezenas de milhões de pessoas e os milhões de mortos e feridos. Depois de garantir que Trump deixe a presidência, devemos renovar o compromisso de acolher as massas "cansadas... pobres... amontoadas ansiosas por poder respirar em liberdade".

Devemos nos comprometer a acolher pelo menos 250 mil refugiados por ano, pelo menos na próxima década. Devemos aumentar significativamente o apoio aos refugiados após sua chegada aos Estados Unidos. Mesmo que país seja o principal doador da agência de refugiados da ONU, ACNUR, os EUA deveriam mais do que dobrar suas contribuições, chegando a pelo menos 5 bilhões de dólares (ainda uma pequena quantia). A Grã-Bretanha e outras nações que travaram guerras ao lado das forças americanas devem fazer esforços semelhantes de reparação.

Aqueles que estiverem preocupados com o custo de tais esforços devem olhar para o orçamento militar anual dos EUA, de 740 bilhões de dólares, maior do que a soma dos dez países seguintes na lista dos maiores orçamentos militares: o dinheiro existe. Pouparemos mais dinheiro do contribuinte se tivermos a responsabilidade de interromper as quase duas décadas de guerra e parar isto que se tornou uma máquina frenética de financiamento de guerra.

Se os EUA não quiserem lidar com os efeitos catastróficos de suas guerras – e se não questionarmos realmente a legitimidade e a eficácia da guerra, dados os 19 anos de resultados desastrosos – as guerras sem fim não terão fim. E continuarão a deslocar mais e mais milhões de pessoas, que se somarão aos 37 milhões que já foram obrigados a deixar sua terra.

David Vine é professor de antropologia na American University em Washington, diretor da Clínica de Antropologia Pública da American University e membro do conselho do Costs of War Project da Brown University.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

Conteúdo Relacionado