Antifascismo

Banir o beijo gay da Marvel? Então vamos banir também a Capela Sistina

As tentativas do prefeito do Rio de Janeiro de censurar uma história em quadrinhos dos Vingadores não são apenas intolerantes, mas também ignora o fato de que os artistas cristãos foram pioneiros a representar beijos de pessoas do mesmo sexo

10/09/2019 11:06

Amoroso e terno: duas melhores se beijam em 'In Bed. The Kiss', de Henri Toulouse-Lautrec (Alamy Stock Photo)

Créditos da foto: Amoroso e terno: duas melhores se beijam em 'In Bed. The Kiss', de Henri Toulouse-Lautrec (Alamy Stock Photo)

 
Ele é um bispo evangélico, mas é necessário se perguntar o quanto da arte cristã o prefeito do Rio de Janeiro conhece. Marcelo Crivella ordenou que uma revista em quadrinhos dos Vingadores fosse removida de uma feira de livros porque nela aparecia dois homens se beijando - uma ação que desencadeou uma drástica resposta do maior jornal do Brasil, a Folha de S. Paulo, que reproduziu a imagem em primeira página, para destacar essa tentativa de censura.

O prefeito ficou tão irritado com Vingadores: A Cruzada das Crianças, que ele insistiu que o livro deveria estar “lacrado e embalado por um plástico preto”. Em um vídeo postado no Twitter, ele disse que não era certo que as crianças “tivessem acesso precoce a conteúdos impróprios para a idade”. No entanto, repreender este beijo não é apenas intolerância, é também uma amostra da ignorância das origens do beijo entre pessoas do mesmo sexo na arte.

Os artistas cristãos foram os pioneiros na representação de beijo gay. Muito antes de Dmitri Vrubel retratar os líderes comunistas Leonid Brezhnev e Erich Honecker se beijando no Muro de Berlim, ou antes mesmo de Banksy que grafitou O Beijo dos Policiais (Kissing Coppers) na parede de um bar em Brighton; foi a arte católica que primeiro explorou as alegrias dos homens que beijavam outros homens. Em vez de tentar censurar a Marvel, talvez Crivella devesse desviar os olhos facilmente ofendidos para a Capela Sistina, no Vaticano. Assim, no coração do mundo católico, Michelangelo retratou homens se beijando, quase 500 anos atrás.

No afresco do Juízo Final, as almas dos abençoados estão se abraçando e se beijando. Essas almas são masculinas e musculosas, e alguns de seus beijos são qualquer coisa menos casto: eles se entrelaçam entre braços fortes, olham nos olhos um do outro e apaixonadamente encostam bocas com bocas.

Michelangelo era conhecido, como reconheceu ao seu biógrafo Ascanio Condivi, por amar o corpo masculino, e foi acusado de transformar o teto da Capela em uma "casa de banho" com todos aqueles nus masculinos. Está na hora de a igreja reconhecer o lugar central da homossexualidade em sua arte. Um católico fervoroso, Michelangelo , também foi um poeta filosoficamente inclinado, cujos escritos tentavam reconciliar o cristianismo com sua sexualidade. Nos poemas dirigidos a seu amado Tommaso dei Cavalieri, ele argumenta que, ao amar a beleza masculina ele adora a Deus. Os casais se beijando na Capela Sistina são seu ultimato ao preconceito. Esses homens expressam seu amor de maneira aberta e orgulhosa - na casa de Deus. Faria um bem a igreja de hoje, assim como ao prefeito do Rio, reconhecer e acolher a mensagem gay do maior de todos os artistas Católico.

A Itália renascentista foi quem permitiu que Michelangelo pintasse da forma que pintava, uma vez que o período teve um surpreendente e moderno entendimento da identidade sexual. Logo em 1304, Giotto representou um momento inflamado entre Judas e Cristo em seus afrescos na Capela Arena em Pádua. Enquanto Judas entra com seus lábios decidido a plantar um beijo na boca de Jesus, o Senhor olha direto em seus olhos com uma intensidade ardente. Este é um beijo de traição, o sinal para prender Jesus Cristo - mas é surpreendentemente íntimo.


Tradição artística … a ilustração de Wiccan e de Hulkling dos Avengers: a Cruzada das crianças. (Jim Cheung/Marvel)

O olhar nos olhos de Cristo não era apenas um olhar aborrecido ou condenatório, é também amoroso e acolhedor - e comovido pela paixão. Giotto deve ter ao menos visto algum beijo entre homens, ou tê-los beijado, para ter pintado da forma como pintou. E de maneira alguma estava em uma fase pré-moderna, ou pré-sexual. Dante, contemporâneo de Giotto, escreve explicitamente sobre homens que amam homens em seu Cristão épico o Inferno. Bem, o poeta encontra-se com estes homens no inferno. Porém, ele inclui seu próprio professor de poesia Brunetto Latini, por quem não sente nada menos que gratidão e amor “que doce imagem, delicado e paternal/você me era no mundo quando hora a hora/você me ensinou como o homem se faz eterno.” A mesma lucidez com que Dante descreve a identidade gay no Inferno dá a obra de arte de 700 anos de Giotto seu frisson erótico.

Os beijos lésbicos levaram mais tempo para serem incorporados no mainstream artístico, incontestavelmente porque mulheres não tiveram a oportunidade de se tornarem artistas até recentemente. Mas no final do século 19 - em Paris, Henri Toulouse-Lautrec viveu entre dançarinas e prostitutas em Montmartre e mostrou simpaticamente suas vidas reais. Na sua obra, Na cama: O beijo, descreve duas de suas amigas que compartilham de um beijo amoroso e carinhoso.

O fato de que o desejo sobre pessoas do mesmo sexo, é tão pouco falado durante muito tempo e em muitos poucos espaços, deixou um enorme vazio que tem sido preenchido por ambiguidades. “Beije-me Hardy,” diz Nelson deitando pálido e morrendo na vitória, um momento capturado nas pinturas por Benjamin West e muitos outros. Mas o que ele quis dizer? O fato que os artistas evitaram os beijos reais que Hardy deu em seu melhor amigo, sugeriu a muitas pessoas e não foi algo tão inocentes em relação as suas implicações, e tem sido argumentado que Hardy e Nelson eram amantes.

O beijo gay da Marvel faz parte de uma tradição artística enorme que data desde antes de Giotto e Michelangelo. O Cristianismos precisa acolher essa herança do amor, e não negá-la.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Cristiane Manzato

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