Antifascismo

Cabo Anselmo, famoso agente duplo da ditadura, agora é palestrante de direita

Ex-informante da ditadura militar se preocupa com ondas do celular, flúor na água e a doutrinação marxista que diz existir no Brasil

20/07/2018 15:41

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Créditos da foto: Reprodução

 
Por Danilo Thomaz

Na manhã do sábado 7 de julho, o Direita São Paulo aguardava por uma visita ilustre para o encontro semanal em sua sede, na Rua Vergueiro, na capital paulista. Baixo, magro, de cabelos brancos repartidos ao meio e barba, José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, o mais famoso agente duplo da ditadura civil-militar, desceu o lance de escadas que dava acesso ao subsolo do prédio. Cruzou a porta vermelha sem atentar para a ironia. Vestia camisa xadrez — azul, vermelha e amarela —, calça clara e sapatos escuros. Colocou-se próximo à mesa de café, do lado direito da porta. Respondeu a uma mensagem de WhatsApp com um áudio: “É no porão. No porão do Dops”, disse a um acompanhante que não sabia onde seria a palestra dentro do prédio. A ironia tirou risos da plateia — que chegaria a 31 pessoas até o fim da sessão, sendo cinco mulheres, oito negros e um gay.

“Muitas carinhas novas”, segundo Rose Limeira, coordenadora do movimento. Quase todas jovens. A exceção era o professor Antonio, de história e geografia. Alto, cabelos brancos, gordo e falastrão, de camisa e calça sociais, o professor ironizou a derrota do Brasil para a Bélgica na tarde anterior. “Como dizia a Dilma: o Brasil perdeu porque não ganhou.” A piada seria repetida outras três vezes até o início da palestra. Apresentou-se formalmente ao Cabo Anselmo, encostado numa pilastra, e engatou o papo. “O Brasil perdeu o rumo com a instalação do golpe de Estado em 15 de novembro de 1889”, disse. “O Brasil era uma potência mundial”, completou. “Com a monarquia, era”, disse Cabo Anselmo. Um garoto magro de óculos, jaqueta jeans e boina preta, sentado na primeira fileira, diante dos dois, concordou.

Hora da aula.

O tema do encontro ilustrava uma página de Powerpoint com um design tosco. “DIREITA SP / Origens da Lavagem Cerebral / Ferramentas do Controle Mental”, em três linhas separadas. Cabo Anselmo colocou-se ao lado do banner do Direita São Paulo e diante da plateia, disposta em carteiras estofadas. “Quem é que tem alguma curiosidade para saber quem é o velho que está diante de vocês?”

Apesar de os anos da ditadura militar serem um dos temas dos encontros de formação cultural do Direita São Paulo, o palestrante, como previa, era desconhecido de boa parte do público. Sua oportunidade para se apresentar como bem entendesse.

Órfão de pai, ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros em 1958. Cinco anos depois, fez o curso de formação profissional. Trabalhou em convés de navio. Por intermédio de um amigo, segundo contou, ingressou na Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais, que pleiteava direitos e garantias à classe. A conversão do coletivo em uma entidade parassindical — com influência do PCB — levou 12 colegas à prisão.

Em resposta às prisões, um grupo de sargentos, cabos e marujos ocupou a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, de onde sairiam cinco dias depois. O líder era o marinheiro de primeira classe que viria a ser conhecido como Cabo Anselmo, apesar de nunca ter chegado a cabo. “Aquele ato de indisciplina militar tornou-se o principal motivo para que o general (Olímpio) Mourão saísse das Minas Gerais e viesse para o Rio de Janeiro para obrigar os senhores (generais) Costa e Silva e Castelo Branco a assumir a responsabilidade para si.”

Presidindo a associação, Cabo Anselmo afirmou ter sido “absolutamente manipulado por um grupo ligado aos comunistas, aos trotskistas”. Atribuiu a manipulação a sua falta de experiência política. “Eu lia o Correio da Manhã, lia o Jornal do Brasil, mas me interessava pelo caderno de literatura.” Apesar de formalmente estar à esquerda em 1964, não citou o Última Hora, único jornal brasileiro que apoiava o presidente João Goulart. Não por acaso: documentos secretos do serviço de inteligência da Aeronáutica, revelados em 2012, reforçam a suspeita de que, já antes de 31 de março de 1964, Cabo Anselmo colaborava com os militares que dariam o golpe de Estado.

O cabo rebelde teve os direitos políticos cassados com a publicação do Ato Institucional nº 1, em abril de 1964. Foi o último da lista de 100 pessoas. Exilou-se na Embaixada do México com outros membros da associação dos marinheiros. Lá, seu nome foi sorteado na segunda rodada para deixar a embaixada e encaminhar-se ao Uruguai, onde se encontrou com Leonel Brizola, também exilado. “Você vai para Cuba aprender as táticas da guerrilha. Nós podemos usá-las ou não. Cuidado: não caia no discurso dos cubanos”, disse, tentando imitar o sotaque gaúcho de Brizola.

Em Cuba, comeu “muita lagosta, peixe”, conheceu intelectuais cubanos contrários à revolução castrista, trabalhou nas plantações de cana-de-açúcar e ouviu os discursos de Fidel.

Depois de Cuba, o relato de Cabo Anselmo mudou de rumo. Não abordou sua volta ao Brasil, em 1970, como membro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Nem os seis companheiros da VPR que delatou e que seriam mortos em Pernambuco em 1973 — incluindo sua mulher, a paraguaia Soledad Barrett, que estava grávida. Sim, ele delatou a mulher grávida.

Ele se referiu, então, em sua apresentação ao Direita São Paulo, à doutrinação marxista. Segundo ele, “a maior obra de engenharia mental”, a da União Soviética, “só foi superada em um país chamado Brasil”. O problema está nos “38 anos de gramscismo nas escolas”, nos jingles das propagandas de produtos e nas estatísticas de homicídios. “São 60 mil mortes por ano. Você acredita na estatística?” Trazendo a ciência para a fala, explicou: “Se você repete, repete, repete, cientificamente essa mentira se torna verdade”. Ele conhece o assunto. Hora do intervalo. Cabo Anselmo cruzou a porta vermelha novamente, subiu as escadas e parou em frente à porta do banheiro. Olhou para um retrato de Albert Einstein com a língua de fora e o imitou. Ao notar um filtro elétrico, perguntou se ele limpava todo o flúor que havia na água. Quando deixou o banheiro, sem ter à vista nenhuma placa que indicasse que era proibido fumar, acendeu um cigarro.

A relação do Direita São Paulo com o período de 1964 a 1985 é ambígua. Embora o grupo não proponha uma intervenção militar no país, o tema é assunto recorrente nas formações semanais do movimento, que reconhece pontos positivos nos anos que vão de Castelo Branco a João Baptista Figueiredo. No convite para o encontro com Cabo Anselmo, o 31 de março de 1964 é chamado de “contragolpe”.

Em fevereiro, o Direita São Paulo anunciou que desfilaria no Carnaval paulistano com o bloco Porão do Dops. A iniciativa era uma resposta ao Bloco Soviético. “Se uma turma pode criar um bloco para exaltar uma ideologia, nós podemos também fazer um contraponto para trazer a memória do que aconteceu no regime militar. Dar a outra versão. Fala-se da ditadura e tudo, mas queremos também trazer informação do regime. Não foi só ruim do jeito que falam”, afirmou o corretor de seguros Edson Salomão, presidente e fundador do Direita São Paulo. A participação do bloco foi proibida pelo Tribunal de Justiça.

Fundado em 1º de maio de 2016, o Direita São Paulo tem cerca de 1.200 membros em 31 cidades do estado. Além da capital, está presente em municípios como Guarulhos, Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Santos, São José do Rio Preto. Segundo a organização, há grupos de 20 diferentes cidades interessados em fundar núcleos locais. As 217 mil curtidas na página oficial no Facebook superam em quatro vezes a página do Agora! (52 mil), em cinco vezes a do RenovaBr (42 mil) e ganham do perfil do ex-ministro Henrique Meirelles (168 mil), pré-candidato à Presidência pelo MDB. O candidato do grupo é Jair Bolsonaro (PSL).

Além das redes sociais, o movimento se articula por meio de 40 grupos de WhatsApp, ações e eventos semanais e se mantém com a venda de camisetas e o curso “Política, governo e conservadorismo”, que ministra mensalmente. De acordo com Edson Salomão, “tiramos dinheiro do bolso muitas vezes para pagar o aluguel” do espaço na Vila Mariana, alugado pelo tempo de uso. “Somos o ‘povão’ mesmo.”

A segunda parte do simpósio começou com Cabo Anselmo segurando os óculos nas mãos. O Powerpoint do primeiro ato fora substituído por um documento em Word onde estava escrito: “Alexandre o grande (assassino), Darlo, Napoleão, Stálin, Hitler, Fidel Castro... Arrastaram milhares para a destruição, saque, morte...”. Afirmou: “O poder sempre foi exercido por aquelas pessoas que acharam um modo de você e os outros as seguirem”. Isso porque a visão dos humanos é limitada. “Os olhos das abelhas se movimentam separadamente”, disse, tentando imitá-los. “Os do camarão idem”, concluiu, abrindo as mãos para a direita e a esquerda.

Segundo explicou, “se sua mente não está de acordo com seu coração, se você deixa de estar na presença do Criador, você fica sem freios. É o que aconteceu, por exemplo, quando o Darwin chegou com a teoria da evolução. O Pavlov, o Freud, o Lênin e toda aquela turma, no começo dos anos 1900, fizeram o ateísmo tornar-se vigente e houve a separação entre a Igreja e o Estado, que já tinha começado com a Revolução Francesa”.

No Brasil, o caso é ainda mais grave, em sua opinião. “Apenas 17% das pessoas têm condições de manter o espírito crítico e fugir dos ataques que vêm da televisão, da música, do rádio, das propagandas dos jornais, daquilo que os formadores de opinião dizem, daquelas declarações lindas que os artistas fazem ou aquilo que as propagandas dizem.”

Diante de uma plateia jovem, como que esquecendo seu passado, revelou: “Os Exércitos no mundo inteiro recrutam o melhor da juventude. Nossos pracinhas foram enviados para a Europa para defender a democracia”, afirmou e, em seguida, deu uma risada. “Quando você olha para a história, vê que os interesses são outros. Se você não pensa, se você não tem convicção de quem você é, você é uma presa fácil para essa gente, que faz que você veja uma realidade diferente daquilo que é.”

Um garoto da plateia perguntou: “Esse espírito crítico não é a principal coisa que eles querem combater?”. Cabo Anselmo explicou como se estivesse em mãos com a cartilha da antiga Tradição, Família e Propriedade (TFP), grupo ultraconservador católico. “Esse espírito crítico é das pessoas que tiveram uma boa formação familiar e que se sentem na presença de Deus”, afirmou o homem que delatou a própria mulher. Voltou então aos militares. “Os serviços de informação distorcem tudo para que a imagem dos generais pareça bonitinha matando um monte de gente”, disse, como se não houvesse delatado cerca de 200 pessoas ao delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Cabo Anselmo vê com preocupação a atual situação do Brasil. “Nós temos uma Constituição comunista.” Para ele, o principal problema do país, hoje, é a segurança nacional de grandes potências, como os Estados Unidos e a Rússia. Silêncio entre os filhos temporãos da Guerra Fria. “Nós temos de ficar dançando samba, aplaudindo futebol, consumindo os punks, funks, rock pauleira, indo àquele show de guitarrista pelado, fumando cigarrinho de maconha, cheirando cocaína para ficar calminho. E bebendo água com flúor.” Comparou o consumo de água com flúor a um genocídio.

Aponta para um garoto negro e magro da plateia. “As dúvidas que ele tem hoje são bem maiores do que as que eu tinha”, disse, sem especificar a quais dúvidas se referia. “Você tem ondas eletromagnéticas de Wi-Fi que passam por sua cabeça como se você estivesse pensando sem ser consciente daquilo. Isso é usado na televisão, isso é usado no rádio, isso é usado nos grandes shows. Essa é uma tecnologia avançada que está sendo absurdamente utilizada. Onde você passa e tem uma daquelas torres de celular, você está exposto a ondas eletromagnéticas que podem estar dando comandos a você. Quando você está vendo a televisão, idem. Quando você está ouvindo música, a música pode ter uma segunda faixa que você não ouve, mas aquela segunda onda é que vai ecoar em seu inconsciente. É aquilo que aflora: ‘Viva o PT!’.”

Avisado de que teria de encerrar a palestra em virtude do horário, convidou a todos a comprar sua autobiografia, Cabo Anselmo — Minha verdade, para contribuir com sua sobrevivência. Alternando comentários como “sensacional”, “muito bom” e “quero ler o livro”, um grupo vai com avidez até a caixa de papelão sobre a mesa de café, onde os exemplares eram vendidos a R$ 40. A alegria seria maior se soubessem que a obra conta com prefácio de Olavo de Carvalho, ícone da extrema-direita.

Quem entrou ali sem conhecê-lo foi embora sem conhecê-lo. A explicação está em sua própria fala: “Quem vive no passado vive com uma porrada de culpa”.


Publicado originalmente na Revista Época




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