Antifascismo

Cada um sabe de si

Não podemos seguir permitindo que nossa condescendência nos transforme em cúmplices

11/04/2021 10:25

(Sérgio Lima/Poder360)

Créditos da foto: (Sérgio Lima/Poder360)

 
Quando a Advocacia Geral da União defende a liberação dos cultos presenciais em plena pandemia é preciso acender um sinal de alerta. Ao dizer "os verdadeiros cristãos não estão dispostos, jamais, a matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e de culto" seu representante André Mendonça, está nos dizendo que essa instituição está sob o comando, ou de um fanático, ou de um homem que põe, aquilo que diz ser sua fé, muito abaixo de sua ambição.

A argumentação de Augusto Aras, Procurador Geral da República, vai no mesmo caminho quando diz “que a liberdade de culto é elemento primordial da liberdade religiosa, que o Estado deve assegurar principalmente em momentos de grande aflição social, como é o caso do agravamento de epidemias que atingem não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e espiritual da população”. O que o Estado deve assegurar, meu senhor, é saúde. Que cada um reze onde puder.

Ambos disputam uma vaga no Supremo Tribunal Federal, ignorando que a Constituição nos assegura liberdade de culto e um estado laico.

Fica evidenciado o fato de que mais duas instituições foram corrompidas por Bolsonaro. Este assim avança em seu projeto de poder, o qual todos sabemos para onde nos levará.

Às mais de 350.000 mortes por efeito direto da Covid-19, devemos acrescentar as perdidas para a miséria, para o desencanto e a desesperança. Não é num recinto de culto, seja de que religião for, que se encontra a solução para o desmonte do país em todos os setores. Do econômico ao moral, a continuarmos assim, nada sobrará. Não podemos seguir permitindo que nossa condescendência nos transforme em cúmplices.

Que cada um sabe de si é uma grande verdade. De mim sei que sou católica praticante – daquelas que há anos não entra em uma igreja, não se confessa e não comunga. Minha prática é com meu próximo, tentando seguir à risca o mandamento mais importante e mais difícil de ser seguido: ama a teu próximo como a ti mesmo. Minha confissão é uma tentativa honesta de autocrítica e minha comunhão é com aqueles que lutam por um mundo mais justo.

Tenho uma pena infinita dos que não conseguem ver o Cristo no homem caído na calçada, na criança esfarrapada, no rosto da mulher com fome. Tenho uma pena infinita daqueles que não olham para o lado. Seguem impávidos seus caminhos na certeza de que, ao chegar ao templo - esquecidos de que Cristo de lá expulsou os vendilhões - tudo lhes será perdoado. Esquecem apenas que a História não perdoa.

Esperemos que se forem indicados para as vagas que se abrirão em breve no Supremo Tribunal Federal, o Senado tenha a hombridade de, após este episódio que desmascarou o caráter de ambos, não aprovar nenhum dos dois nomes.



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