Antifascismo

Cinema brasileiro vive ''o início de uma era de terror cultural''

Desde que chegou ao poder, Bolsonaro lidera a guerra ao setor da cultura, especialmente à sétima arte, que depende fortemente de financiamento público

27/09/2019 14:43

''Marighella'', de Wagner Moura, é uma biografia sobre um guerrilheiro comunista e negro eliminado pela ditadura militar em 1969 (O2 Filmes)

Créditos da foto: ''Marighella'', de Wagner Moura, é uma biografia sobre um guerrilheiro comunista e negro eliminado pela ditadura militar em 1969 (O2 Filmes)

 
Chico Buarque é para o Brasil o que Brassens ou Ferrat são para a França: um monstro sagrado da música. E, no entanto, o documentário Chico: Artista brasileiro acaba de escapar in extremis à censura da Embaixada do Brasil no Uruguai, que tentou impedir sua projeção em um festival planejado para o próximo mês em Montevidéu. O cantor é uma figura emblemática da esquerda e, como a maioria dos artistas brasileiros, um crítico do presidente Jair Bolsonaro. Que em represália os ataca. No poder desde o início do ano, o líder da extrema direita populista e ultraconservadora suprimiu o Ministério da Cultura (substituído por uma secretaria dependente de outra pasta) e reduziu drasticamente o teto de créditos em impostos que financiam a criação [cultural]. Mas é especialmente ao cinema que ele dirige sua vingança. "Como o cinema tem mais visibilidade e é mais dependente do apoio estatal do que outros campos artísticos, o governo fez dele a "vitrine" de seu empreendimento de destruição da cultura, analisa a jornalista especializada Maria do Rosário Caetano. Além disso, foi por essa via que ele atacou Chico Buarque." E acrescenta: "Estamos vivendo o início de uma era de terror cultural, onde tudo será feito para impor o pensamento único".

"Filtros"

Anunciado em 19 de setembro, o adiamento sine die do lançamento nos cinemas do tão esperado Marighella, aclamado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, não surpreendeu ninguém. Essa adaptação da biografia de um guerrilheiro comunista e ainda por cima negro, eliminado pela ditadura militar (1964-1985), não pode senão desagradar o chefe de Estado, que louva a junta e seus torturadores ... O filme obteve - antes de Bolsonaro - recursos da Agência Nacional de Cinema (Ancine, o CNC local), que financia e regula o setor. Mas a Ancine, em geral conciliadora, desta vez recusou-se a antecipar a agenda de seus pagamentos para permitir o lançamento do filme em 20 de novembro, data comemorativa da emancipação negra. Recusa publicamente comemorada por um filho do Presidente.

Fernando Meirelles, parceiro da O2 Filmes, produtora de Marighella, e também diretor do famoso Cidade de Deus (2002), quer acalmar o jogo: "A

 Ancine não era obrigada a aceitar", disse o cineasta ao Libération. "Eles não queriam apoiar o filme, é verdade, mas não era censura. Pelo menos não desta vez. Se o clima político fosse outro, a decisão da agência poderia ter sido diferente", insinua Wagner Moura, diretor de Marighella. Assim como a cinemateca brasileira, que se tornou um posto avançado na luta contra um suposto "marxismo cultural", a Ancine está no centro da ofensiva presidencial. Para controlar melhor a agência, dotada, em princípio, de uma grande autonomia, Bolsonaro quer transferi-la, pelo menos parcialmente, do Rio para a capital, Brasília. E nomear para sua direção um presidente "terrivelmente evangélico" para impor "filtros" à produção. "O dinheiro público não pode financiar pornografia", disse ele. Suas críticas às produções televisivas com temas LGBT levaram à suspensão de subsídios a elas destinados. "Para sobreviver, os cineastas terão que ceder à autocensura, teme uma fonte interna da Ancine. O cinema brasileiro corre o risco de novo estrangulamento", como após a extinção da empresa estatal Embrafilme em 1990.

Censura

A criação do Ancine, em 2001 (sob o ex-presidente centrista Fernando Henrique Cardoso), desempenhou um papel fundamental na retomada da produção: hoje, cerca de 170 longas-metragens por ano, além de mais 3000 horas de programação de TV. Sua principal fonte de financiamento é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), financiado por impostos pagos pelas operadoras de telecomunicações e TV paga. Para este ano, a FSA dispõe do equivalente a quase 160 milhões de euros ... sem que nenhum centavo tenha sido concedido. "Nenhum novo projeto pode ser aprovado até que o governo nomeie um comitê de gestão", diz a fonte interna, que fala de bloqueio deliberado. Resultado: as produtoras estão fechando uma após a outra. "E o pior ainda está por vir: as contribuições da FSA foram reduzidas em 43% para 2020.

"A solução para o cinema brasileiro é o fim do governo Bolsonaro", profere André Klotzel, produtor e diretor. "Enquanto isso, tentamos fazê-lo ouvir a razão, avançando na argumentação do peso econômico do setor. Mas não cederemos à censura, uma prática inconstitucional." Klotzel refuta o discurso presidencial de que "podemos produzir o que quisermos com a condição de não usarmos dinheiro público". "O cinema brasileiro possui apenas 14% de seu próprio mercado, dominado pela produção americana", diz ele. "É ainda mais enfraquecido pela falta de cotas de conteúdo nos serviços de streaming. Nesse contexto, apenas cineastas consagrados conseguem arrecadar fundos privados. O Estado deve investir para superar essa falta." "Se eu existo como cineasta, é graças aos mecanismos de apoio público", acrescenta Fernando Meirelles. Para ele, a ofensiva de Bolsonaro pode levar a uma corrente de solidariedade internacional, através de coproduções, principalmente porque o cinema brasileiro está em plena irradiação. E Meirelles ironiza: "É um péssimo momento para trabalhar".

*Publicado originalmente no Libération | Tradução de Aluisio Schumacher



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