Antifascismo

Como andam os Cursos sobre o Golpe 2016 nas Universidades Federais?

Acompanhamos os cursos sobre o golpe em algumas das universidades brasileiras

26/04/2018 08:33

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Créditos da foto: Divulgação

 

Os cursos sobre o “Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia no Brasil” seguem em andamento em todo o país. Um montante de 23 instituições entre elas federais e estaduais oferecem a disciplina. Iniciativa que partiu em retaliação ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), que declarou vir a acionar a Advocacia-Geral da União (AGU), o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF) para que seja apurada “improbidade administrativa” por parte dos responsáveis pela criação da disciplina.

O curso inicialmente ofertado pelo professor Luiz Felipe Miguel do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), foi fortemente perseguido para que não entrasse do currículo 2018 da instituição. O que deu início a onda de mobilizações que representa não só uma resistência acadêmica em meio ao quadro político atual, onde temos uma ex-presidente impeachmada e um ex-presidente preso em um processo que ainda corre de maneira, no mínimo obscura, sob a bandeira do combate a corrupção.

Hoje, a Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, também soma sua sigla as mobilizações, reforçando a necessidade da defesa da liberdade de cátedra acadêmica, que protege os direitos da instituição de administrar seus conteúdos. Com uma ementa pautada por: Regimes autoritários: estudos de caso; A crise de representatividade nas democracias modernas; O poder judiciário e a sociedade de classes; Memórias da ditadura civil militar na América do Sul; O golpe de 2016: farsa e tragédia; Neoliberalismo e novos pactos políticos: a retirada de direitos e acumulação de capital; Intervenção militar no Rio de Janeiro e o Golpe de 2016; A extrema direita sai do armário: censura, ataque às minorias e o apoio ao golpe; A democracia tem futuro?; forma-se assim a proposta da disciplina ministrada todas as quintas-feiras das 16h às 18h no Instituto de Ciências Sociais (ICHS).

Em entrevista com a professora Andréa Lisly, do departamento de História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da UFOP, e uma das percursoras do projeto, conversamos sobre o andamento da disciplina.

 Qual a motivação para aderir a mobilização do curso na UFOP?

“A ideia da disciplina se relaciona não só com a iniciativa do professor Luís Felipe Miguel, mas também com a perseguição por parte do ministro da educação (Mendonça Filho) aos conteúdos da mesma, onde entra em questão a nossa liberdade de cátedra, a questão da autonomia universitária em definir os seus conteúdos. Entorno desses acontecimentos achamos oportuno o momento para se criar a disciplina”.

Existe alguma troca de informações sobre as grades curriculares entre os cursos?

“Mantemos um contato de maneira informal divulgando os cursos. Os mesmos já variando já que muitos dão oferecidos como disciplinas, e outros como cursos de extensão. Professores dos demais departamentos e universidades estão sendo convidados a compor as nossas mesas, é um movimento dentro da universidade”.

Qual a estrutura do curso?

“No nosso caso ele é realmente uma disciplina eletiva de leitura dirigida de 45 créditos, com um número muito grande de inscritos que não é muito comum nas disciplinas eletivas, são regularmente 95 alunos matriculados, sem contar os ouvintes que tem participado de cada encontro. Foi oportuno apesar das circunstâncias que desencadearam terem sido os piores, mas o resultado que essa oportunidade nos resultou acabou sendo muito bom, essa oportunidade de refletir sobre as questões contemporâneas com as mesas e seus convidados”.

Qual foi a importância das redes sociais para a mobilização para este curso?

“As redes sociais são muito importantes, num caso mais específico e prático, é claro que elas são importantes para a divulgação e criação, para esse contato mesmo com as outras universidades o que não seria possível em um outro contexto. A possibilidade da participação por vídeo conferencia, questões essas que não seriam possíveis em outras realidades”.

Houve alguma resistência por parte de grupos dentro da universidade, já que a palavra golpe demarca uma posição?

“Estamos abertos a discutir com aqueles que divirjam de que teria sido golpe. Nós reproduzidos o título do Luís Felipe Miguel, não tinha o porquê mudar daquilo que é quase uma forma de movimento e estamos no caso sempre abertos a discursões”.

A localização da UFOP dá alguma característica particular para o curso?

“Não sei exatamente, não posso falar em nome da UFOP como um todo, mas pelo departamento. Pelo fato de ser um curso consolidado com mestrado, e doutorado, apesar de não estarmos num grande centro somos uma universidade cosmopolita, e reflete a qualidade do departamento”.

Qual o principal saldo espera-se dessa experiência?

“O movimento espontâneo das universidades em defesa da universidade pública, em defesa de definir os nossos conteúdos como historicamente fôssemos e a garantia do ensino público de qualidade. E cumprido o nosso papel que é como professores e como educadores e pessoalmente me sinto muito satisfeita de pode intervir e refletir ativamente sobre o nosso tempo”.

O curso planeja sintetizar alguma forma de material?

“O programa ainda não está consolidado, mas está tudo indo muito bem, tem a previsão de avaliação por meio de material audiovisual ou de um artigo cientifico. Essa experiência é uma pratica já adotada pelos professores, vamos nos basear nela para produzir vídeos, entrevistas e construir o projeto com os demais alunos de outras áreas que vão auxiliar”.

Em outras universidades

Na Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF, o curso tem sido oferecido sob o formato de extensão. Dividido em três momento, as aulas norteiam os eixos, Matrizes Autoritárias Brasileiras: Produção Intelectual e Experiências Autoritárias, O Golpe de 2016: Atores, Conjunturas e sua Arquitetura, O Golpe e suas Repercussões.  Com aulas ministradas as quartas-feiras a partir das 19hrs, o curso tem sua duração prevista até o mês de junho de 2018. As inscrições já estão encerradas, mas é possível acompanhar as atividades como ouvinte.

Já na Universidade Federal de São João del Rei, UFSJ, a disciplina foi aprovada em colegiado recentemente, como disciplina extemporânea “Tópicos Especiais: Golpe de Estado 2016 no Brasil: perspectivas multidisciplinares” de 36h. As aulas terão início no próximo dia 02/05/2018 às 14hrs, na sala 2.13 do prédio de Ciências Econômicas, no Campus Tancredo de Almeida Neves, CTAN, na cidade sede de São João del Rei.  As inscrições estão sendo realizadas presencialmente na coordenadoria do curso.

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