Antifascismo

Como o grito 'Black Lives Matter' tomou os EUA

 

02/06/2020 19:34

Manifestante segura placa com os dizeres

Créditos da foto: Manifestante segura placa com os dizeres "Black Lives Matter" contra policiais atirando gás lacrimogêneo após uma marcha na Filadélfia, em 1º de junho. (Mark Makela/Getty Images)

 
"Black Lives Matter" é uma hashtag que se transformou em movimento, que ressurge nas ruas dos EUA sempre que as mortes de afro-americanos pela polícia alcançam repercussão. O BLM, como também é conhecido, se nutre da história e do poder dos vídeos de celulares compartilhados nas mídias sociais. O estopim mais recente para os protestos inflamados em todo o país foi a morte, em 25 de maio, de um homem de Minneapolis, George Floyd, depois de ter sido contido por um policial, que depois das manifestações foi preso e indiciado pelo assassinato.

1. De onde vem o termo?

Em 2013, um vigia de bairro voluntário na Flórida matou a tiros Trayvon Martin, jovem negro de 17 anos, desarmado, enquanto este caminhava em direção à casa de seu pai vindo de uma loja de conveniência onde havia comprado chá gelado e balas. Quando o vigia foi absolvido pelo assassinato, uma ativista em Oakland, Califórnia, chamada Alicia Garza, escreveu um post emocionado no Facebook que terminava com “Our lives matter” (nossas vidas importam). Foi compartilhado nas redes sociais por uma amiga também ativista, Patrisse Cullors, com uma mudança e uma hashtag: #blacklivesmatter.

2. Como se espalhou?

O termo viralizou um ano depois, quando imagens das mortes de Michael Brown, em Ferguson, Missouri, e Eric Garner, em Nova York, ambos homens negros mortos por policiais, impulsionaram o movimento. No mesmo ano, houve protestos por mortes causadas pela polícia em Cleveland, Baltimore, Chicago e Cincinnati, entre outras cidades.

3. E antes do BLM, o que havia?

Incidentes de brutalidade policial têm gerado indignação e manifestações há décadas, como o espancamento do motorista negro Rodney King, em Los Angeles, em 1992, que desencadeou seis dias de protestos, e a tortura, em 1997, do imigrante haitiano Abner Louima por policiais no Brooklyn. Os dois episódios resultaram em processos federais e condenações de policiais. Antes do BLM, porém, estava menos claro o sentido de um movimento que ia além de casos isolados.

4. Qual a dimensão do problema?

De acordo com o Washington Post, que acompanha e contabiliza a violência policial desde 2015, a polícia matou 1.004 pessoas em 2019, das quais 370 eram brancas, 235 eram afro-americanas e 158 eram hispânicas (202 foram classificadas como de etnia desconhecida). Um coletivo de ativistas, Mapping Police Violence, chegou a números semelhantes, cobrindo todas as formas de assassinatos cometidos por policiais. O grupo mostra que 24% dos mortos pela polícia em 2019 eram negros, que representam apenas 13% da população. Também constatou que 99% dos policiais envolvidos em mortes entre 2013 e 2019 não foram indiciados.

5. O que o BLM pede?

O movimento é descentralizado e não tem agenda formal, mas os manifestantes pressionam por políticas que aumentem a transparência e reduzam as mortes de afro-americanos em abordagens da polícia. Isso inclui: apelos para que os policiais usem câmeras corporais que documentem a sequência de eventos até um disparo de tiros; o abandono do uso equipamentos de estilo militar, como uniformes “de choque”, de armas de assalto e veículos blindados usados por forças municipais; a transferência da supervisão do departamento de polícia para os conselhos comunitários locais; e uma legislação para rever decisões judiciais que, segundo os ativistas, tornam quase impossível processar policiais por atos cometidos em serviço. Nos últimos protestos, também houve pedidos de corte nos orçamentos dos departamentos de polícia.

6. Houve algum resultado?

O uso de câmeras corporais tem sido amplamente adotado, inclusive em Nova York e Los Angeles. O Departamento de Justiça sob Barack Obama conduziu dezenas de investigações sobre supostas violações de direitos civis das minorias pela polícia, chagado aos chamados decretos de consentimento, supervisionados por tribunais federais, que exigiam mudanças em alguns departamentos de polícia locais. Obama também restringiu a venda de equipamentos militares à polícia. Com Donald Trump, o Departamento de Justiça desmantelou essas iniciativas de monitoramento das polícias e restringiu o uso de decretos de consentimento. O Departamento de Justiça também reduziu investigações abrangentes dos “padrões e práticas” dos departamentos de polícia locais, com o argumento que prejudicavam o moral da polícia e faziam uso inadequado do poder federal.

7. Que tipo de oposição o BLM encontra?

Nos primeiros anos do movimento, algumas autoridades da segurança pública responsabilizaram o movimento BLM por tumultos e violência contra a polícia. Um contramovimento conhecido como Blue Lives Matter defendia que os condenados pela morte de policiais respondessem por crimes de ódio. Alguns críticos criaram a hashtag #alllivesmatter, levando os apoiadores do BLM a responder que não buscavam tratamento especial para os afro-americanos, apenas tratamento igual. Alguns grupos nacionalistas brancos promoveram o #whitelivesmatter. Na campanha à presidência em 2016, Trump chamou o BLM de "muito desagregador".

*Publicado originalmente em 'Bloomberg' | Tradução de Clarisse Meireles

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