Antifascismo

Como os norte-americanos lutam pela democracia brasileira há 50 anos

Diretor do departamento de estudos sobre o Brasil da Brown University, James Green falou na Ufrgs sobre movimentos de solidariedade aos golpes de 1964 e 2016

18/05/2018 09:14

 

Por Naira Hofmeister, de Porto Alegre

James Green ficou famoso na internet no ano passado quando começou a circular uma notícia de que estaria namorando Dilma Rousseff. Na verdade, Green – que é diretor do maior departamento de estudos brasileiros nos Estados Unidos, na Brown University – estava ciceroneando a ex-presidenta brasileira em uma turnê norte-americana para divulgar as “medidas antidemocráticas” envolvidas no processo de impeachment que a afastou de suas funções, conduzido pelo congresso nacional sob o comando do ex-deputado Eduardo Cunha.

Era mais uma entre inúmeras iniciativas liderada pelo historiador em defesa da democracia tupiniquim desde a época da ditadura militar: em 1973, Green marchou ao lado de brasileiros contra o regime. “As pessoas me viam gritar ‘abaixo a ditadura’ com sotaque e se animavam: ‘olha, tem até gringo contra os milicos”, contou o professor à uma plateia de estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Ele foi o 13º palestrante do curso “O golpe de 2016 e a nova onda conservadora no Brasil”, proposto pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da universidade, que segue até o início de julho.

Sua participação, na noite de 16 de maio, fez um breve apanhado das ações do movimento de solidariedade internacional diante das rupturas institucionais no país – ele obviamente considera o impeachment um golpe, e apontou semelhanças no tratamento que os governos dos Estados Unidos destinaram às mudanças em 1964 e 2016.

O historiador lembrou que o uso do termo “golpe” não era usual entre autoridades norte-americanas ao longo do primeiro ano de governo militar, a ponto de parlamentares de oposição ao então presidente Lyndon Johnson se convencerem de que a mudança de governo era positiva para os brasileiros – postura que foi se modificando com o passar do tempo. “Hoje todos chamam pelo que foi: golpe”, resumiu.

Ele usou a introdução para contextualizar falas como a do embaixador do Estados Unidos junto à OEA (Organização dos Estados Americanos), que em maio de 2016 assegurou que o processo de impeachment de Dilma não seria “um golpe suave ou de outro tipo. O que ocorreu no Brasil seguiu o processo legal constitucional e respeitando completamente a democracia”.

O historiador contesta essa afirmação. “Há uma lógica de incluir discurso legalista para justificar o que aconteceu em 2016 muito semelhante à de 1964”, provocou.

Ele elencou alguns fatos que mostram que um dos princípios básicos do regime democrático – a separação de poderes – está em risco no país: o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, responsável por colocar o processo do impeachment em votação na Casa foi afastado de suas funções uma semana depois da derrubada de Dilma Rousseff. “Isso mesmo havendo questionamentos a ele no Supremo Tribunal Federal há mais de um ano, sobre os quais estavam sentados os ministros”, criticou.

Também condenou a passividade com que a Justiça acolheu a formação de um governo repleto de ministros sob investigação – que aos poucos foram caindo – e apontou contraste quando a corte suprema impediu a nomeação de Lula como ministro do governo Dilma em seus meses finais. “O STF se enredou na política ao invés de se separar dela”, avaliou.

Mobilização voltou em 2016

Assim como foi feito nos anos subsequentes ao golpe de 1964, quando o movimento de solidariedade ao Brasil nos Estados Unidos emitiu comunicados, realizou protestos e batalhou para dar visibilidade internacional ao que ocorria em território brasileiro, a comunidade de apoio voltou a mobilizar-se em 2016.

Vários intelectuais vinculados à Associação de Estudos Brasileiros (BRASA, na sigla em inglês) tem feito esforços para pressionar a comunidade internacional a se manifestar contra a troca de governo no país. Já enviaram comissões de estudiosos norte-americanos para observar o que ocorria no Brasil, emitiram comunicado rechaçando as falas de deputados na sessão do impeachment que homenageavam torturadores e o regime militar. Até que no ano passado, levaram a ex-presidenta Dilma Rousseff duas vezes ao país para que ela promovesse conferências nos principais centros acadêmicos norte-americanos. Eles também enviaram uma missiva ao então ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), quando ele tentou impedir a Universidade de Brasília (UnB) de realizar o curso de extensão que trazia no título a palavra golpe – se referindo aos eventos de 2016. Esse foi o estopim para que mais de 30 outras instituições de ensino superior no país organizassem atividades semelhantes, entre elas, o curso ao qual compareceu no IFCH da Ufrgs.

Curso “O golpe de 2016 e a nova onda conservadora no Brasil”

Próximas aulas

 Maio

28/05. Natália Pietra Mendez (História/UFRGS)– As mulheres e a resistência ao golpe de 2016.

30/05. Caroline Bauer (História/UFRGS) – Os usos do passado e o (no) golpe de 2016.

 Junho

04/06. Mara Cristina de Matos Rodrigues (História/UFRGS) – A BNCC e o golpe.

06/06. Jorge A. Quillfeldt (ICBS/UFRGS) - A Ciência Brasileira após o golpe.

08/06. Carla Brandalise (História/UFRGS) – Recorrência dos regimes autoritários.

13/06. Benedito Tadeu Cesar (Ciência Política/UFRGS) - Antecedentes e consequências sociais e políticas do golpe de abril de 2016.

18/06. Marilis Almeida (Sociologia/UFRGS) – Reconfigurações do trabalho no Brasil.

25/06. Francisco Marshall (História/UFRGS) - O golpe e os ataques à cultura.

27/06. Mauricio Assumpção Moya (Ciência Política/UFRGS) – Presidencialismo de coalizão e o Estado como butim: reflexões sobre o golpe de 2016

 Julho

02/07. Paulo Brack (Botânica/UFRGS) - O meio ambiente brasileiro após o golpe de 2016.

05/07. Temístocles Américo Corrêa Cezar (História/UFRGS) - História e memória no presente

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