Antifascismo

Como uma simples vaquinha online mostrou o privilégio de youtubers brancos

Spartakus, youtuber negro que fala sobre racismo, pediu ajuda aos seus seguidores para consertar seu computador, mas foi alvo de críticas que youtubers brancos não receberam

18/11/2018 10:02

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 

Este é o Spartakus, um youtuber que explica de maneira didática várias questões relacionadas à raça e sexualidade.


Um conteúdo necessário, mas menos popular que tantos outros, por isso não gera tanto lucro como o de outros youtubers.

Acontece que o computador que ele usa para editar seus vídeos quebrou. Spartakus contou o problema para os seus seguidores no Instagram, que sugeriram uma vaquinha para que pudessem ajudar de alguma forma para o conserto.


A vaquinha deu tão certo que arrecadou mais do que precisava. O Spartakus doou o dinheiro que sobrou para o projeto "Voz da Comunidade".


A história poderia ter terminado aí, mas o @bchartsbc, um fórum focado em cultura pop, fez um tuíte tratando o caso como se o Spartakus estivesse se aproveitando da militância para bancar seus luxos.


@pandlernews, da mesma linha do BCharts, também fez o mesmo. E, além desse tuíte, fez vários outros tirando sarro do Spartakus.



Os tuítes do BCharts e do Fórum da Pan viralizaram e as críticas ao Spartakus surgiram imediatamente.



Alegaram que é por conta de atitudes como a dele que a "militância" não é levada a sério.



O que ficou bem claro é que as algumas pessoas aproveitaram o momento para atacar o Spartakus por ser negro e falar de racismo. Outros youtubers já fizeram o mesmo e não receberam as mesmas críticas.



Como o caso da @Sybylla_, que mantém um site sobre ficção científica e já fez uma vaquinha para manter o projeto sem ter sido criticada por isso.



Ela contou que seus seguidores a apoiaram e que agora tem estrutura para manter o projeto por anos.



Muitos youtubers e produtores de conteúdo em geral pedem apoio financeiro aos seguidores por meio do Padrim, uma plataforma de financiamento recorrente. E o youtuber @bernardofala lembrou que essas pessoas também não são criticadas por essa atitude.



Por que o pedido de ajuda do Spartakus incomodou tanto?



A resposta é simples: o Spartakus incomoda porque fala de racismo e é negro.

Outro youtuber negro, o @musaraujo, decidiu explicar de forma bem didática por que o Spartakus quis consertar o seu computador, que é um da Apple, "para não ficar atrás dos brancos".



O Murilo contou toda a sua saga desde quando começou a participar de eventos do próprio YouTube e percebeu que a diferença de estrutura técnica entre youtubers negros e brancos era gritante.



Ele também lembrou do perrengue que passou quando precisou produzir conteúdo para uma marca. E falou como sente a desigualdade quando vê outros criadores de conteúdo que, além de equipamentos muito bons, possuem dinheiro para contratar uma equipe para editar os vídeos.



Por isso, quando o Spartakus fala sobre ficar atrás dos brancos, ele fala sobre uma questão real.



Os youtubers negros passam por muitos perrengues, mas se pudessem, não escolheriam passar por isso.

A @mslaryhill lembrou que a Nátaly Neri, outra youtuber negra, já contou que a mãe quase perdeu o apartamento por falta de pagamento do aluguel. E que muitos influenciadores negros, por mais que façam sucesso, passam por muitos problemas difíceis nos bastidores.



O próprio Spartakus decidiu gravar um vídeo explicando por que fez a vaquinha, contando como conseguiu comprar um computador caro como um MacBook e como viajou para a Europa.



Ele deixou claro que realmente não tem dinheiro e que não é rico, mas que faz de tudo para economizar e investir no seu canal, que atualmente é seu meio de vida.

Como acompanho o trabalho desses youtubers e já tive um blog para falar sobre raça e gênero, dei meu pitaco e expliquei por que não é fácil ser um youtuber negro:


Cansado por ter que passar por tudo isso justamente em novembro, um mês marcado pelo dia da Consciência Negra (20), o Spartakus fez um desabafo em seu Instagram falando como é ser um youtuber negro.


"Ser um youtuber negro é criticar o racismo, mas não demais, senão o opressor se incomoda e o criticado é você.

Ser um youtuber negro é ganhar visibilidade por colocar o dedo na ferida e não fechar contratos pelo mesmo motivo.

Ser um youtuber negro é, mesmo vivendo as consequências da escravidão, não ter o direito de pedir ajuda, afinal a empatia nesse país foi substituída pela meritocracia.

Ser um youtuber negro é não poder juntar dinheiro pra ter um equipamento de qualidade ou viajar pois esse é um luxo que só a casa grande pode ter.

Ser um youtuber negro é ver outros pretos darem mais credibilidade a páginas racistas do que a quem sempre esteve ao seu lado.

Ser um youtuber negro é ver seus irmãos se calarem diante da opressão com medo de virarem mais um alvo.

Ser um youtuber negro é ser obrigado a ser EXTREMAMENTE DIDÁTICO, porque se o outro não te entende você é automaticamente vitimista, mimimizento e oportunista.

Ser um youtuber negro é lutar sempre pela sua causa e mesmo assim ter sua militância questionada a todo momento.

Ser um youtuber negro é esperar acharem um motivo qualquer pra destilar o ódio e o racismo que sempre esteve guardado mas que é injustificado.

Ser um youtuber negro é ser alvo de outras minorias, dos racistas e da extrema direita, afinal nunca foi tão interessante descredibilizar a nossa luta.

Ser um youtuber negro é ir contra um país que tem orgulho de ser representado por gente racista.

Ser um youtuber negro é RESISTIR.

Orgulho de ser um youtuber negro.

#MêsDaConsciênciaNegra"

*Publicado originalmente no BuzzFeed

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