Antifascismo

Conto distópico nº 2: O futuro segundo Bolsonaro

 

13/09/2019 12:40

 

 
Era uma pequena cidade, com cidadãos pacatos e ordeiros. Seguindo as instruções do líder máximo do país, e a exemplo do que já ocorria nas grandes cidades, os habitantes dessa cidadezinha também saiam à rua com arma na cintura. Alguns levavam duas armas, já que estavam autorizados a possuir quatro. Não apenas a posse, mas também o porte de armas estava autorizado.

Diziam a más línguas que tudo isso foi feito para atender os interesses da indústria de armas. O líder máximo, e alguns de seus ministros, sempre foram lobistas da indústria armamentista. Outros, recém-chegados ao poder, perceberam que havia esgotado o número necessário de lobistas de armas e tornaram-se lobistas da indústria de tabaco, que andou sofrendo perdas no passado.

Nessa pequena cidade – vamos chamá-la de X – os cidadãos tinham orgulho de sair armados. Desde o dia em que o governo autorizou o porte de armas, só houve um incidente fatal. Um cidadão, embriagado, brigou com outro e atirou, despachando-o para o outro mundo.

É verdade que houve vários incidentes, sem vítimas fatais, graças à presença da polícia ou de guardas de trânsito que impediram um desfecho irreparável. Batidas de carro no trânsito, altercações no bar sobre futebol, ciúmes com ou sem base em fatos reais, quase terminaram em mortes, mas a turma do “deixa disso” conseguiu intervir a tempo de evitar o pior.

Assim, pelo menos na cidade X, andar armado na rua não era o principal problema de segurança pública, como já começava a acontecer nas grandes cidades. Mas isso ainda não era percebido, o líder máximo escondia as estatísticas criminais e manipulava os dados econômicos, ocultando o aumento do desemprego e apregoando um crescimento inexistente.

Na cidade X, porém, havia um grave problema de segurança. Tratava-se da rebelião de jovens que se recusavam a obedecer às ordens do governo que havia proibido a leitura de livros em lugares públicos. Carregar livros na rua tornou-se um crime previsto na nova legislação penal do país.

Muitos jovens passaram a usar casacos e a esconder livros na cintura, como se fossem armas. Muitos tiveram sucesso e não foram incomodados. Outros, porém, foram abordados e revistados na rua por policiais. Encontrados com livros, eram presos e recolhidos à delegacia para interrogatório. A punição dependia do livro encontrado.

Livros de autoajuda e biografia de santos eram tolerados e seu portador, liberado. Outros livros, como os científicos e literários, e também história em quadrinhos, por exemplo, eram encaminhados ao delegado para decisão. Já os livros políticos, de filosofia e ciências sociais, bem como qualquer livro de relato ou análise de algum problema social, era objeto de abertura imediata de inquérito que seria posteriormente encaminhado à Justiça.

Esses crimes, em geral, eram afiançáveis. Dependendo da cabeça do promotor e do juiz, a fiança podia ser baixa ou alta. Mas o decreto presidencial listava os autores de livros cujo porte configurava crime inafiançável. Ao lado dos clássicos do socialismo, algumas tragédias gregas, consideradas subversivas, autores do Renascimento, como Copérnico e Galileu, malvistos pelos Terraplanistas, biólogos evolucionistas como Darwin, inimigo mortal dos criacionistas, e muitos outros.

Entre os brasileiros, a lista incluía pensadores sociais e cientistas de diversas áreas. Destaque para Paulo Freire, admirado em Harvard e Oxford – é um dos autores mais citados na produção acadêmica anglo-saxã – mas odiado pelos seguidores do grande chefe.

Quanto maior a repressão, maior o medo, mas também maior o desejo. Muitos jovens passaram a levar livros escondidos para encontros coletivos de leitura, em geral com a orientação de um professor desempregado. A maioria dos professores foi demitida das escolas e universidades acusados de pensamento crítico.

Outro problema bem resolvido foi o do planejamento familiar. Todo indivíduo com mais de 15 anos de idade tinha um microchip implantado que emitia um sinal quando fazia sexo. A cota de cada um era sexo três vezes por mês. Os recalcitrantes eram devidamente punidos.

Um caso interessante foi o dos que haviam feito vasectomia que reivindicaram exclusão da cota, já que não podiam ter filhos. Mas a Sociedade Evangélica da Pureza Política, muito influente no Governo, vetou o pedido, alegando que sexo tem por único objetivo a procriação, e três vezes por mês é o máximo de concessão que podiam tolerar, muito a contra gosto, em respeito à decisão do líder máximo. Em relação a aborto, porém, a pena era draconiana: 5 anos de prisão para a mulher.

Ninguém ousava criticar, pois era proibido fazer críticas à doutrina oficial. Grupos de jovens alistados nas milícias governistas estavam atentos e presentes em quase todos os bairros. Esses jovens espiões denunciavam as sessões de leituras coletivas para as milícias armadas que tinham o bom hábito de avisar antes de eliminar os leitores recalcitrantes.

A cidade X era tranquila. Uma cidade ordeira, que respeitava os poderes constituídos e as sagradas tradições da família. Um modelo para todo o país.



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