Antifascismo

Crianças tratadas como cachorros

O problema não são as crianças enjauladas como animais, nem as jaulas em si, nem os imigrantes ilegais em si, nem todas as leis desumanas e um sistema desumano que se mantém independente do partido que ocupa a Casa Branca. O problema é Trump

22/06/2018 13:53

 

 
Por David Torres
 
As formas, e não os fatos, são as que mais destroem a imagem de Trump. Deportar milhares de imigrantes ilegais é horrível, por isso ele deveria optar, nesses casos, por um estilo mais discreto e formal – como o da administração de Obama, que deportou mais imigrantes que qualquer outro presidente estadunidense nas últimas três décadas, inclusive somando as cifras dos mesmos, e ainda assim manteve uma imagem de quem nunca quebrou sequer um prato.

Obama deportou meio milhão de imigrantes, e jamais enfrentou nenhum tipo de constrangimento por isso. Às vezes, com sua pinta de cantor de jazz, parecia que o deportado era ele, não se sabia se do Havaí ou de Estocolmo, onde deveria ir para revender o Nobel da Paz que deram a ele, e assim devolver parte da credibilidade e integridade do prêmio, já que a distinção não lhe serve para nada.

Já Trump, muito pelo contrário. Se dedica a se fazer de imbecil valente, o que, claro, chama a atenção. Nesta semana, o mundo descobriu certos detalhes da política migratória dos Estados Unidos. As jaulas de isolamento onde mantêm crianças presas e separadas de seus pais, na instalação “Úrsula”, no Texas, um lugar infame que não por acaso é chamado pelos funcionários do local como “o canil”, e que lembra muito a série The Shield, especialmente as cenas dos presos no “celeiro” instalado dentro da delegacia. As fotos do lugar comoveram muito as pessoas como Jon Favreau (o sujeito que escrevia os discursos de Obama), Jake Silverstein (redator-chefe do The New York Times Magazine), Hadas Gold (destacada repórter da CNN) e um montão de gente importante e bem informada, e por isso as imagens estão dando voltas pelo mundo, para que até o último ser humano com uma pitada de sensibilidade perceba que tipo de canalha é Donald Trump.

O problema é que, entre as fotos atuais estão misturadas algumas que são de 2014, quando os Estados Unidos eram governados por Barack Obama, e todas as cenas naquele então já eram bem parecidas com as atuais: as cruéis condições de reclusão, e até mesmo o tratamento às crianças era semelhante ao que acontece agora na zona de controle de aduanas da fronteira mexicana. Alguns curiosos, bastante impertinentes, perguntaram a Gold, Silverstein e Favreau por que não se emocionaram naquele então, quando as crianças também eram arrancadas dos seus pais, mas pelas normas de Obama e não de Trump, mas só obtiveram como respostas alguns pigarros, assovios e “puxa, como faz calor por aqui”.

Não obstante, a resposta é muito clara. O problema não são as crianças enjauladas como animais, nem as jaulas em si, nem os imigrantes ilegais em si, nem todas as leis desumanas e um sistema desumano que se mantém independente do partido que ocupa a Casa Branca. O problema é Trump. Se o magnata presidente não tivesse esse bronzeado laranja, ou esse cabelo de castor, ou se soubesse dançar... se não fosse Trump poderíamos perdoar qualquer coisa, como perdoamos a Obama seus muitos e sanguinários pecados. Um golpe de estado em Honduras, outro no Brasil, uma Líbia devastada, um Guantánamo em pleno funcionamento, um Iêmen esfacelado. Mas é Trump o grande problema, o sujeito que é capaz de dizer ao presidente japonês, em plena cúpula do G7, no Canadá, que enviará a ele 25 milhões de mexicanos pelo correio, “para desequilibrar o mercado de mariachis”, e é claro que não é assim que se fazem as coisas. Não se pode colocar dois ou três mil crianças em jaulas e devolvê-las ao seu país aos chutes, a não ser que você se mostre contemplativo e somente preocupado com o tema. Yes, we can.

As formas, e não os fatos, são o mais importante. Lembro de uma noite em que tentei entrar em uma discoteca e o segurança, acho que era um islandês, me disse que com as minhas meias brancos eu não poderia entrar. Então eu apontei para um cara que já estava entrando, com seu topete generoso, sua camiseta polo com uma faixa sobre o peito, seus mocassins de couro e suas meias brancas sob as calças. O porteiro me respondeu com uma lógica irrefutável e pouco kafkiana: “mas você não é ele”. Me senti um pouco negro, como Trump ao lado de Obama. Numa das fotos publicadas esta semana se especifica que as crianças chorando atrás das grades são hondurenhas. Seria o caso de procurar também a Barack Obama e a Hillary Clinton o porquê.
 
David Torres é escritor espanhol e colunista do diário Público.es



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