Antifascismo

Curso sobre o golpe na Ufrgs arranca propondo reflexão sobre a democracia

Painéis que mostram relação entre conquistas sociais e o crescimento de movimentos conservadores no país serão o mote das aulas de abril

04/04/2018 14:52

Guilherme Santos/Sul21

Créditos da foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Alguns dos mecanismos que caracterizam a democracia no Brasil – e a tornam mais suscetível à pressões e incertezas – estarão em debate nas aulas que ocorrem ao longo de abril no curso “O golpe de 2016 e a nova onda conservadora do Brasil”, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Proposto pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), recebeu a adesão de professores de diversas unidades e áreas. Serão 24 aulas ao longo do semestre (lista completa no final da reportagem), sempre no final da tarde e em formato curto, com mais tempo para o debate entre os participantes do que para as palestras.

A aula inaugural caberá ao professor da Faculdade Economia da Ufrgs, Róber Iturriet Avila, que apresenta a palestra “Rupturas de política econômica e o golpe de 2016. Secundado por gráficos, o economista promete mostrar “efeitos da política fiscal na inflação e no desemprego, além de variáveis de contas externas”. Aproveitando dados, Róber também deve alinhar três períodos recentes de instabilidade democrática: o suicídio de Getulio Vargas, a queda de João Goulart e o golpe militar e a o impeachment de Dilma Rousseff. Retomando um artigo publicado em Carta Maior em 2015, por exemplo, o professor promete mostrar que foram crises com graves consequências para a democracia, precedidas por momentos em que duas variáveis econômicas estavam presentes: crescimento do salário dos trabalhadores e redução da margem de lucro do patrão (o chamado excedente operacional bruto). “A exposição será muito rápida, só 18 minutos”, alerta, apesar da complexidade do assunto.

Na próxima segunda-feira, 9 de abril, a abordagem recairá sobre aquele que é considerado um dos pilares da democracia – a imprensa – mas que pelas características que adquiriu historicamente no Brasil, de concentração dos grandes veículos nas mãos de poucos grupos e famílias, tem impacto contrário, podendo influenciar decisivamente para a desestabilização política. É o que se pode depreender do título da palestra do historiador Luiz Alberto Grijó (História/UFRGS), “Capítulos de um golpe anunciado: a mídia empresarial brasileira”.

Três dias depois, no dia 12 de abril (uma quinta-feira), o sociólogo Marcelo Kunrath vai apresentar um cenário de análise da dinâmica entre os movimentos sociais e seus antagonistas como MBL, Vem prá Rua e afins – que vem polarizando o debate político brasileiro. “Enfatiza-se que as relações e interdependências entre movimentos e contramovimentos são fundamentais para entender como estes se estruturam e atuam. Neste sentido, pretendo demonstrar que conquistas de movimentos sociais progressistas nas últimas décadas, mesmo que limitadas em relação aos seus objetivos e demandas, ao mesmo tempo em que foram interpretadas como ameaças por segmentos conservadores da sociedade, constituíram condições e oportunidades para a organização e mobilização de contramovimentos conservadores”, resume.

Mulheres na tribuna

A terceira semana do curso “O golpe de 2016 e a nova onda conservadora do Brasil”, terá palestras de duas mulheres. Na quarta-feira, 18 de abril, a historiadora Clarice Speranza fala sobre “O trabalho golpeado: terceirização, reforma trabalhista e desemprego” ocorre no dia 18 de abril, uma quarta-feira. “A intenção é abordar os prejuízos aos quais os trabalhadores estão sendo submetidos, inseridos em uma perspectiva histórica, relembrando os conflitos em torno do trabalho no país ao longo das últimas décadas”, explica a pesquisadora.

No dia 20, será a vez da diretora do IFCH (e idealizadora do curso), Claudia Wasserman, que aborda o tema “A Democracia estressada: derrotas sucessivas”. A professora, que leciona a disciplina de História Contemporânea da América Latina e estuda o tema há mais de 30 anos vai ampliar o debate sobre o sistema democrático para além das fronteiras do Brasil.

As aulas da última semana do mês também estarão a cargo de professores do departamento de História da Ufrgs. No dia 23 (segunda-feira), Jurandir Malerba vai retomar o conceito de patriarcalismo para debater a política brasileira dos últimos anos. “Há alguns anos reitera-se que as matrizes interpretativas do Brasil apoiadas no conceito de patriarcalismo ficaram obsoletas, mas estou propondo reabrir esse debate, sugere.

O professor provoca, relembrando “o fatídico dia 17 de Abril de 2016”, data em que o Congresso Nacional votou a admissibilidade do impeachment da então presidenta presidenta Dilma Roussef. “Ali, os limites entre o público e o privado se esboroam no espetáculo midiático. Representantes eleitos que deveriam agir na esfera pública com base no cálculo racional, em valores republicanos abstratos como justiça e liberdade com vistas ao bem comum, deixam-se mover por paixões personalistas privadas e interesses escusos no momento dramático do julgamento do mais alto mandatário da política nacional”, explica. Além da constante evocação á família, contida nos discursos dos parlamentares, Malerba vê outros sinais da persistência do patriarcalismo na vida política e social brasileira: “O machismo e a misoginia são manifestações fortes delas. Outra seria a renitência das dinastias políticas familiais em nossa história”, concluiu.

Encerra o mês de abril a aula de Arthur Ávila, no dia 26, sob o título “O neoliberalismo e o golpe de 2016”. A proposta do professor é refletir filosoficamente sobre como o neoliberalismo se consolidou no Brasil para além das medidas na área econômica, tornando-se uma “razão neoliberal”, criada pela “progressiva e violenta desdemocratização da vida política brasileira”. “É a partir desse ponto de vista que pretendo discutir os desdobramentos do golpe de 2016”, assinala.

Inscrições podem ser feitas na hora

As aulas do curso do IFCH acontecem sempre às 17h30, no Auditório da SEAD, no campus do Vale da Ufrgs. Até a véspera do início do ciclo, a secretaria da unidade havia recebido 140 inscrições de alunos. Como o número ficou abaixo do esperado, foram liberadas as inscrições na hora das palestras e revogada a decisão de que cada aluno poderia acompanhar apenas cinco debates. Ainda assim, para receber certificado cada inscrito precisa estar presente em pelo menos cinco encontros.

Aluno do 5º semestre de História da Ufrgs, Pedro Grunberg assegurou seu lugar em palestras que tratam de economia e sociedade. “As rupturas na política econômica e o assunto do trabalho me interessam. Mas também escolhi duas palestras que me ajudassem a fazer uma leitura da conjuntura mais geral, como a da professora Claudia Wassermann, sobre democracia estressada. A bagunça é muito grande, fica difícil entender exatamente o que está acontecendo em um cenário mais amplo”, justifica o estudante.

A expectativa de Grunberg é que o debate, que neste curso se limita à comunidade acadêmica da Ufrgs, ganhe as ruas, coisa que ele acha bastante possível: “Só no meu meio familiar e de amigos que não frequentam a Ufrgs, muita gente queria assistir, mas não pôde porque é só para alunos e funcionários”.

Embora lamente a falta de vagas para público externo, o estudante admite que primeiro é preciso fazer a experiência na universidade, inclusive para compreender e agregar os diversos matizes e sutilezas de pontos de vista que existem mesmo entre quem defende que o impeachment foi um golpe, embora respaldado pela Constituição. “É diferente aqui dentro, o debate político puro, feito na sociedade, é muito mais suscetível a divisões antagônicas, enquanto a academia é mais livre para ter opiniões diferentes mesmo dentro de um campo”, sustenta.

PROGRAMA

04/04. Róber Iturriet Avila (Economia/UFRGS) - Rupturas de política econômica e o golpe de 2016.

09/04. Luiz Alberto Grijó (História/UFRGS) – Capítulos de um golpe anunciado: a mídia empresarial brasileira.

12/04. Marcelo Kunrath (Sociolgia/UFRGS) – Movimentos sociais, contramovimentos e o golpe de 2016.

18/04. Clarice Speranza (História/UFRGS) – O trabalho golpeado: terceirizacao, reforma trabalhista e desemprego.

20/04. Claudia Wasserman (História/UFRGS)– A Democracia estressada: derrotas sucessivas.

23/04. Jurandir Malerba (História/UFRGS) - O patriarcalismo na política brasileira e o golpe de 2016

26/04. Arthur Ávila (História/UFRGS) – O neoliberalismo e o golpe de 2016.

02/05. César Augusto Barcellos Guazzelli - Nas Pegadas de Brutus e Iscariotes: Temer, o Traidor.

04/05. Alfredo Gugliano (Ciência Política/UFRGS) – O Golpe de 2016 e a desdemocratização do Brasil.

07/05. Benito Schmidt (História/UFRGS) – Golpe, relações de gênero e pessoas LGBTTTQ.

09/05. Céli Regina Jardim Pinto (História/UFRGS) – A democracia estava indo longe: o golpe de 2016.

14/05. Fernando Nicollazi (História/UFRGS) – A educação golpeada.

16/05. James N. Green (Brown University, EUA) Solidariedade internacional: o golpe de 1964 e o golpe de 2016.

28/05. Natália Pietra Mendez (História/UFRGS)– As mulheres e a resistência ao golpe de 2016.

30/05. Caroline Bauer (História/UFRGS) – Os usos do passado e o (no) golpe de 2016.

04/06. Mara Cristina de Matos Rodrigues (História/UFRGS) – A BNCC e o golpe.

06/06. Jorge A. Quillfeldt (ICBS/UFRGS) - A Ciência Brasileira após o golpe.

08/06. Carla Brandalise (História/UFRGS) – Recorrência dos regimes autoritários.

13/06. Benedito Tadeu Cesar (Ciência Política/UFRGS) - Antecedentes e consequências sociais e políticas do golpe de abril de 2016.

18/06. Marilis Almeida (Sociologia/UFRGS) – Reconfigurações do trabalho no Brasil.

25/06. Francisco Marshall (História/UFRGS) - O golpe e os ataques à cultura.

27/06. Mauricio Assumpção Moya (Ciência Política/UFRGS) – Presidencialismo de coalizão e o Estado como butim: reflexões sobre o golpe de 2016

02/07. Paulo Brack (Botânica/UFRGS) - O meio ambiente brasileiro após o golpe de 2016.

05/07. Temístocles Américo Corrêa Cezar (História/UFRGS) - História e memória no presente.

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