Antifascismo

Curso sobre o golpe: setor financeiro foi decisivo para a queda de Dilma

Aula inaugural do ciclo que debate impeachment na Ufrgs ficou a cargo do economista Róber Iturriet Avila que relacionou indicadores com movimento político

06/04/2018 10:54

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Uma afirmação repetida muitas vezes de forma genérica quando o assunto é o impeachment de Dilma Rousseff – a de que sua queda teve relação com interesses não atendidos de setores poderosos da nação – ganhou indicadores que permitem sustentar a teoria na noite de quarta-feira, 4 de abril, em Porto Alegre.

Foi durante a abertura do curso “O golpe de 2016 e a nova onda conservadora do Brasil”, promovido pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCH) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Munido de números, gráficos e declarações retiradas da imprensa, o economista Róber Iturriet Avila narrou os passos que levaram à queda de Dilma Rousseff – segundo o professor, vítima do rompimento de um pacto com o sistema financeiro nacional que vigorava desde de o primeiro governo Lula.

O assunto era árduo – indicadores econômicos complexos e vocabulário retirado do jargão específico, como a expressão “spread bancário”, que é basicamente o lucro dos bancos com operações. Mas a performance do professor, que dramatizou gráficos e enfatizou fragmentos de declarações de forma irônica e divertida manteve a atenção plena dos estudantes, a maioria de cursos de de sociologia, história e afins.

O roteiro do golpe, segundo a versão apresentada por Róber inicia em 2011, no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Eleita no ano anterior, a ex-presidenta assumiu seu mandato em um cenário favorável: externamente, a valorização das commodities colocou o Brasil em posição vantajosa no comércio internacional, aumentando as reservas do país. Internamente, a economia estava aquecida com o aumento real do salário mínimo promovida sob Lula (50,47%) e seu impacto no salário médio brasileiro.

Com popularidade em alta – a avaliação do governo entre regular e ótimo somava 93% - Dilma anunciou, em abril de 2012, o rompimento de um pacto que vigorava desde o primeiro governo Lula, angariando apoios às gestões petistas, mas atravancando a vida da população real, uma espécie de pacto com o setor financeiro. Em um pronunciamento em cadeia nacional, a então presidenta afirmou: “é inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos continue com um dos juros mais altos do mundo. Estes valores não podem continuar tão altos. O Brasil de hoje não justifica isso. Os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor […]. O setor financeiro, portanto, não tem como explicar esta lógica perversa aos brasileiros”.

“Nas eleições de 2004, Lula escreve a Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometeu a manter a política econômica conservadora: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante”, explicou o professor. O comprometimento com o segmento bancário foi tamanho que houve a nomeação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central.

Para contrabalançar, Dilma decidiu ampliar o pacto com o setor industrial – esse, segundo Róber, aliado dos sucessivos presidentes desde a década de 30. Houve uma redução de juros real que colocou as taxas em um patamar inédito, menores inclusive, do que estão hoje, em 1,25% ao ano. A presidenta promoveu desonerações, barateando os custos de contratação, por exemplo. Determinou também a redução e 20% no preço da energia elétrica e ainda anunciou um grande programa de investimentos em logística.

“Ela atendeu plenamente a pauta histórica da Fiesp, esperando que o setor respondesse e fizesse girar a economia”, observa – isso porque naquela altura, o preço das commodities já havia estagnado no mercado internacional, acendendo um alerta na equipe econômica.

Jornadas de junho levaram a perda de poder

Aí veio o “divisor de águas” que derrubou a popularidade de Dilma: as jornadas de junho de 2013. Milhares de pessoas foram às ruas cobrar desde que o investimento em serviços públicos tivesse recursos semelhantes aos que estavam sendo destinados à organização da Copa do Mundo de futebol, a redução nos preços das passagens de ônibus e até o fim da corrupção do PT.

Os índices de aprovação do governo, que até então eram altíssimos – mais de 60% o consideravam excelente ou bom – caíram pela metade em poucos meses. Segundo o economista Róber Iturriet Avila, o setor financeiro, insatisfeito com as medidas econômicas que reduziram sua margem de lucro, soube aproveitar essa insatisfação e desencadeou uma campanha de oposição à reeleição da petista, abraçada por “setore empresariais conservadores” e pela mídia. “Vocês se lembram bem daquela notícia de que a inflação sairia do controle, que circulou nos noticiários exaustivamente, mas não se concretizou?”, provocou o professor da Ufrgs.

A confiança do consumidor, que em abril de 2012 havia alcançado seu ápice, começou a cair e durante o período eleitoral cruzou a faixa dos 100 pontos (havia chegado quase a 130 meses antes). Em dezembro, já com Dilma reeleita, ela era de 82,9.

Para piorar, além do cenário econômico internacional ter se deteriorado rapidamente, com as commodities perdendo mais de 60% do valor em razão da desaceleração da China, as desonerações oferecidas ao setor industrial começaram a fazer falta ao governo. “Foram 324,4 bilhões de reais, mas não houve aumento nas taxas de investimento privado, a indústria não respondeu”, sublinhou Róber.

Os escândalos de corrupção aumentam a insatisfação da população e após uma eleição apertadíssima, a presidente Dilma Rousseff se rende a um novo pacto com o setor financeiro, em busca da estabilidade política. “Ela nomeia Joaquim Levi como ministro da Fazenda, e assim começa o governo Dilma 2, que parece igual, mas é bem diferente do primeiro”, assinalou.

Levi era emissário direto dos bancos, havia trabalhado no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Central Europeu. Até a nomeação, ele trabalhava no Banco Bradesco. “Nessa repactuação, ela cede em níveis até maiores à agenda financeira do que havia antes do rompimento de 2012”, comparou o palestrante.

A intenção, segundo Róber, era criar as condições para que a “fada da credibilidade” aparecesse, uma expressão cunhada pelo prêmio Nobel de Economia Paul Krugmann para ilustrar o sentimento de confiança do mercado. Seria essa sensação que faria os investidores privados voltarem a investir.

Conquistas sociais geraram pressão contrária

Com uma reflexão publicada em 1942 pelo economista polonês, de vertente marxista, Michal Kalecki, o professor da Ufrgs Róber Iturriet Avila, iniciou uma segunda parte de sua apresentação, que mostrou como a opção por priorizar políticas sociais foi fator de pressão desses setores poderosos contra o governo.

“Tentativas de [... ] manter o alto nível de emprego [... ] haverá uma forte oposição  por parte dos ‘líderes empresariais’ [... ] um poderoso bloco de grandes empresários e rentistas, que encontraria mais de um economista para declarar que a situação  é claramente enferma. A pressão de todas essas forças [... ] induziria o Governo a retornar à política ortodoxa de corte do déficit orçamentário. Seguir-se-ia uma recessão [...]”.

No Brasil, a taxa de desemprego que em 2002 era de 12,2%, reduziu sistematicamente até 2014, quando o indicador apontou 4,8% de desempregados no país, naquela que foi considerada a época do pleno emprego.

À frase do pensador polonês, Róber opôs diversas declarações recolhidas em órgãos de imprensa entre 2013 e 2015. Eram falas de diretores e porta-vozes do setor financeiro, como o de Ilan Goldfajn – atual presidente do BC, mas que em 2013, era economista chefe do banco Itaú-Unibanco, quando escreveu, em artigo no Estadão: “Não está claro se há consciência na sociedade de que para manter a inflação sob controle possa ser necessário temporariamente reduzir o consumo e desquecer o mercado de trabalho”.

Em janeiro de 2015, o empresário Luiz Carlos Mendonça de Barros, que tambpem foi presidente do BNDES, disse, em entrevista ao jornal O Globo: “Depois d eum longo período de crescimento, o desemprego é 4,6%. Temos pressões horríveis no mercado de trabalho. Os sindicatos, cumprindo a função deles, aproveitam para impor reajustes e ganhos sociais que acabaram pressionando o custo das empresas e criando na indústria uma situação dramática. O que ela vai ter de fazer – e a nova política já está fazendo: flexibilizar o mercado de trabalho. Em outras palavras, gerar algum desemprego. Isso já está ocorrendo no setor automobilístico. Os sindicatos vão perder força e negociar coisas mais razoáveis”.

Um ex-assessor da área econômica de Aécio Neves foi mais preciso, em plena campanha: “a gente tem que cortar salário real em 10%. A vida é dura, economista é um bicho ruim”. Um ano depois, ele diria: “em maio, em junho, eu fiquei super feliz, por que? Porque o salário real tinha caído 5%. Eu fiquei feliz...”.

Já o então economista chefe do Santander, Alexandre Schwartsman foi categórico em entrevista ao Globo em março de 2013: “A saída é frear a economia. É demitir mesmo”.

Em 2015 Joaquim Levi implementa a nova política econômica com ajuste fiscal, aumento de juros e desvalorização cambial, gerando desemprego e consequente redução real dos salários médios”, anotou o palestrante. O custo unitário do trabalho caiu 38,2% em um ano e meio, voltando ao nível que tinha em 2009. “Mas a fada da credibilidade não seguiu o script e não houve reação positiva industrial”, prosseguiu.

Ponte para o futuro

Ao mesmo tempo em que repactuou com o setor financeiro, Dilma Rousseff cedeu mais espaço para partidos aliados e ampliou a participação do PMDB no governo. Porém, sem a resposta econômica à medidas implementadas, o centrão político rompe com a presidenta e o PMDB propõe a famosa “Ponte para o Futuro” – “o programa derrotado nas urnas e que está sendo implementado agora pelo governo Temer”.

Róber selecionou fragmentos do documento e os grifou, para demonstrar sua afirmação:

“As despesas públicas primárias, ou não financeiras, tem crescido sistematicamente acima do crescimento do PIB, a partir da Constituição de 1988”. Logo que toou posse, Temer conseguiu aprovar a PEC do Teto dos Gastos, que congela valores destinados aos setor público pelos próximos 20 anos, fazendo com que o investimento seja reduzido e os serviços piorados.

“É preciso ampliar a idade mínima para a aposentadoria, de sorte que as pessoas passem mais tempo de suas vidas trabalhando e contribuindo, e menos tempo aposentadas”.

“Permitir que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais”.

A eliminação da indexação do salário mínimo, o corte de subsídios aos programas sociais e a revisão do modelo de exploração do petróleo (também já implementado) constavam do documento.

“O próprio Temer disse, depois do impeachment, que Dilma tinha caído por não apoiar a Ponte para o Futuro. Está no youtube. Quem está pagando o pato é quem vive de seu trabalho”, lamentou Róber.

Debate qualificado apesar da tensão inicial

Após a palestra, que tomou metade da hora destinada à atividade, houve um breve debate entre os presentes, que fizeram perguntas ao palestrante, algumas bastante complexas como ele próprio admitiu. “Essa era a nossa expectativa, que houvesse discussão de alto nível”, comemorou a diretora do IFCH, Claudia Wassermann, organizadora do ciclo.

Apesar do clima de tranquilidade dentro do auditório, houve cuidados especiais de segurança. A entrada só era permitida mediante identificação do estudante com carteirinha da universidade e assinatura da lista de presença. Por esta razão, se formou uma fila na porta e quando os últimos alunos ingressaram no local, a aula já havia iniciado. Quatro seguranças da Ufrgs vigiavam a entrada.

A lotação da plateia estava quase esgotada, mas ainda assim, o IFCH está aceitando inscrições de alunos na hora, pouco antes das palestras. A próxima ocorre na segunda-feira, 9 de abril, com o pesquisador Luiz Alberto Grijó, que vai fazer a crítica da imprensa e sua participação no impeachment.

PROGRAMA COMPLETO

09/04. Luiz Alberto Grijó (História/UFRGS) – Capítulos de um golpe anunciado: a mídia empresarial brasileira.

12/04. Marcelo Kunrath (Sociolgia/UFRGS) – Movimentos sociais, contramovimentos e o golpe de 2016.

18/04. Clarice Speranza (História/UFRGS) – O trabalho golpeado: terceirizacao, reforma trabalhista e desemprego.

20/04. Claudia Wasserman (História/UFRGS)– A Democracia estressada: derrotas sucessivas.

23/04. Jurandir Malerba (História/UFRGS) - O patriarcalismo na política brasileira e o golpe de 2016

26/04. Arthur Ávila (História/UFRGS) – O neoliberalismo e o golpe de 2016.

02/05. César Augusto Barcellos Guazzelli - Nas Pegadas de Brutus e Iscariotes: Temer, o Traidor.

04/05. Alfredo Gugliano (Ciência Política/UFRGS) – O Golpe de 2016 e a desdemocratização do Brasil.

07/05. Benito Schmidt (História/UFRGS) – Golpe, relações de gênero e pessoas LGBTTTQ.

09/05. Céli Regina Jardim Pinto (História/UFRGS) – A democracia estava indo longe: o golpe de 2016.

14/05. Fernando Nicollazi (História/UFRGS) – A educação golpeada.

16/05. James N. Green (Brown University, EUA) Solidariedade internacional: o golpe de 1964 e o golpe de 2016.

28/05. Natália Pietra Mendez (História/UFRGS)– As mulheres e a resistência ao golpe de 2016.

30/05. Caroline Bauer (História/UFRGS) – Os usos do passado e o (no) golpe de 2016.

04/06. Mara Cristina de Matos Rodrigues (História/UFRGS) – A BNCC e o golpe.

06/06. Jorge A. Quillfeldt (ICBS/UFRGS) - A Ciência Brasileira após o golpe.

08/06. Carla Brandalise (História/UFRGS) – Recorrência dos regimes autoritários.

13/06. Benedito Tadeu Cesar (Ciência Política/UFRGS) - Antecedentes e consequências sociais e políticas do golpe de abril de 2016.

18/06. Marilis Almeida (Sociologia/UFRGS) – Reconfigurações do trabalho no Brasil.

25/06. Francisco Marshall (História/UFRGS) - O golpe e os ataques à cultura.

27/06. Mauricio Assumpção Moya (Ciência Política/UFRGS) – Presidencialismo de coalizão e o Estado como butim: reflexões sobre o golpe de 2016

02/07. Paulo Brack (Botânica/UFRGS) - O meio ambiente brasileiro após o golpe de 2016.

05/07. Temístocles Américo Corrêa Cezar (História/UFRGS) - História e memória no presente.

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