Antifascismo

Cursos sobre golpe de 2016 mostram que a resistência está nas universidades, acredita professora gaúcha

"Marca uma posição sim e é o que incomoda, mas para a gente tanto faz o nome que se dê: golpe, impeachment, destituição. O que queremos é discutir as consequências do que aconteceu", afirma Claudia Wasserman, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

07/03/2018 10:39

 

 
Já fazia tempo que Claudia Wasserman, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), pensava uma maneira de colocar à serviço da comunidade o conhecimento produzido pelos pesquisadores da instituição. Chegou a formar um grupo de curadores para propor uma programação de palestras curtas, nos moldes do TED Talks para executar em 2018. Mas ao se deparar com uma tentativa de veto do ministro da Educação, Mendonça Filho, sobre uma oferta de disciplina na Universidade Nacional de Brasília (UnB) que discutiria “O Golpe de 2016 e a Democracia no Brasil”, ela achou que era preciso direcionar esse conhecimento para entender o momento político brasileiro. Foi assim que a Ufrgs se somou a outras 15 universidades brasileiras a ofertar um curso sobre a atualidade política brasileira que traz a palavra “golpe” no título. “Marca uma posição sim e é o que incomoda, mas para a gente tanto faz o nome que se dê: golpe, impeachment, destituição. O que queremos é discutir as consequências do que aconteceu”, afirma a docente. Em menos de uma semana, Claudia recebeu oferta de participação de duas dezenas de docentes da universidade federal - considerada uma das melhores do Brasil -, não apenas do seu instituto, mas de áreas como Direito, Economia e até Medicina. “A gente se habituou a ouvir críticas, e descobrir que existe um movimento de médicos da Ufrgs crítico ao governo Temer me surpreendeu”. A adesão dos docentes reforçou um movimento que no ano passado foi protagonizado pelos alunos, organizadores de ocupações estudantis em todo o território nacional, que deixa a diretora do IFCH orgulhosa: “Foi uma grata surpresa que demonstra que a universidade é um foco de resistência: foi com os alunos e agora vai ser com os professores. Esse movimento se espalhou como rastilho de pólvora pelo Brasil inteiro”.

Ao contrário da UnB, que oferta uma disciplina optativa, aprovada pelo Conselho Universitário, na Ufrgs não houve tempo para incluir o tema na grade formal. A saída foi optar por um curso de extensão, que, entretanto, deverá ser restrito aos estudantes da universidade. “Não temos espaços com grande capacidade no IFCH: 150 lugares no máximo, então acho que não vai dar para abrir para a comunidade”, acredita a professora. O programa completo sai no dia 12 de março - todo o dia chegam novas propostas de aulas - e as aulas deverão se estender além do semestre letivo que iniciou na primeira semana do mês. Já há oposição fora da instituição: o deputado estadual Marcel Van Hattem ingressou com representação no Ministério público federal contra a realização das aulas e convocou outros insatisfeitos a acionarem a Justiça. Carta Maior conversou com a historiadora sobre os detalhes do curso e os objetivos do instituto em ofertá-lo. Abaixo, os principais trechos da conversa.

O curso vai abordar temáticas pesquisadas pelos professores?

Sim, a temática do golpe será sempre relacionada com as pesquisas dos professores. Por exemplo, temos um especialista em mídia aqui no IFCH, o Luis Alberto Grijó. Ele fez mestrado e doutorado sobre a imprensa, discute essa dita neutralidade dos meios de comunicação desde o século XIX. Então sua proposta é de uma palestra sobre a mídia empresarial e o golpe. Por outro lado, temos professores muito dedicados à pesquisa sobre Educação - há um especialmente dedicado a discutir a proposta ‘Escola Sem Partido’, então esse tema estará presente em sua palestra. A Educação é uma área na qual há muitas consequências do golpe, vários programas foram cortados pelo novo governo. Tem também um professor do Instituto de Biociências que sugeriu uma aula sobre Meio Ambiente, o que aconteceu depois e como pode se desenrolar o golpe nesse âmbito...

Então há participantes de fora do IFCH, de outros setores da Ufrgs?

Tem gente da Economia, do Direito, um professor do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS). Professores que vão abordar reflexos do que aconteceu em áreas da cultura, do trabalho, essa reforma da Previdência. À medida que os professores foram sabendo, tomando conhecimento do curso, começaram a perguntar se podiam contribuir. Todos os dias recebo contribuições, não é brincadeira! Até uma professora da Medicina me escreveu dizendo que havia um grupo de lá querendo participar, sugerir nomes... Pensei: como assim? Só conheço médicos contrários aos governos do PT, ao Mais Médicos. A gente se habituou a ouvir críticas, e descobrir que existe um movimento de médicos da Ufrgs crítico ao governo Temer, que considera o impeachment ilegítimo, me surpreendeu. Começamos com nove contribuições e já estamos em 20, talvez a lista ainda aumente até o dia 12, quando vou fechar a programação. Em função do grande interesse dos professores em ofertar uma palestra, a proposta inicial, de que o curso tivesse duração de um semestre, talvez precise ser modificada, ampliada.

Essa adesão tão rápida demonstra que havia interesse prévio, só faltava um catalisador?

Te confesso que me surpreendeu para dizer bem a verdade; eu levei um susto com esse movimento. A sociedade brasileira ficou muito paralisada com tudo o que aconteceu, apesar de termos tido vários atos de contestação ao impeachment - comícios, passeatas, greves - eles foram diminuindo, o que é natural: as pessoas comuns, que não são militantes regulares, não mantém essa chama de mobilização por muito tempo. Então estávamos com a sociedade brasileira muito quieta.

A universidade já havia se movimentado com vigor ano passado, com as ocupações estudantis.

Tivemos as ocupações, que foi um movimento importante, organizado especificamente contra medidas de corte orçamentário nas áreas da Educação e da Saúde. Foi extraordinário, mas também acabou, depois de três meses os estudantes não conseguiram sustentar. Incomodou (o governo), foi como uma luz no fim do túnel. Isso aconteceu também durante a ditadura militar, o movimento estudantil foi super importante especialmente no momento final, quando CUT, CGT, os movimento dos trabalhadores e até de intelectuais estava muito calado - claro, porque haviam sido cassados, mortos, torturados, exilados. Foi o movimento estudantil que reacendeu a chama da resistência à ditadura e depois teve muita importância no processo de redemocratização brasileiro. No ano passado, as ocupações cumpriram novamente esse papel.

Agora os professores se somam a este movimento...

Digo que foi uma grata surpresa essa adesão de professores porque demonstra que a universidade é um foco de resistência: foi com os alunos e agora vai ser com os professores. Esse movimento se espalhou como rastilho de pólvora pelo Brasil inteiro, já temos 15 universidades propondo cursos sobre o golpe de 2016.

Mas havia um precedente, uma mobilização entre docentes universitários anterior?

Para mim, tudo começou com a visita que fizemos à ex-presidenta Dilma, em 7 de junho de 2016. Ela estava afastada, mas seguia no Palácio da Alvorada, ainda antes da decisão do Senado pelo impeachment. Reunimos 64 historiadores do país e levamos à ela um manifesto. Essa resistência baseada na intelectualidade não é tão comum. Por exemplo, durante a ditadura militar, a universidade foi conivente. Tivemos professores cassados, sim, mas uma das instituições que mais cresceu sob a ditadura foi a universidade. Ninguém gritou aqui dentro contra os expurgos na época. Hoje, claro, temos gente que estuda isso, a anistia, a universidade naquele período. As universidades brasileiras são tradicionalmente conservadoras, em sua maioria, e por isso surpreende tanto que estejam se mobilizando dessa forma. Claro que tem diferenças (entre a resistência nos anos de chumbo e a de hoje); a gente faz essa analogia porque são governos que desrespeitaram as regras do jogo - com um agravante no caso atual, que é esse revestimento de legitimidade, de legalidade.

Por que houve o processo legislativo...

Exatamente, mas isso não impede que os direitos sejam cancelados. Historicamente, temos vários modelos de regimes autoritários revestidos de legalidade. Hitler foi eleito, Mussolini também. No regime militar, o próprio fato de ter militares no poder, e não civis, deixava mais claro isso que chamamos de cancelamento das liberdades democráticas. Eles romperam com as eleições, cassaram opositores, fecharam o Congresso nacional, impedindo que um dos poderes funcionasse. Foi um golpe tradicional. O que estamos vivendo hoje é mais difícil de entender, de encontrar o argumento para se manifestar, para resistir.

Qual o perfil de aluno vocês esperam ter: o que está convencido que foi golpe ou alguém em dúvida e até mesmo contrário à essa perspectiva?

Estou esperando a confirmação da aula de um professor que discutiria esse tema - impeachment ou golpe - no nosso curso. Claro que tem gente que pode achar que o impeachment foi legítimo, com todos os requisitos que a Constituição determina. Na verdade, o que incomodou na proposta foi o uso da palavra ‘golpe’; foi isso que provocou a manifestação do ministro da Educação - ou de alguém acima dele, que o mandou enquadrar. Para a  gente, não interessa a palavra que se use, pode ser impeachment, golpe, destituição da presidenta. O que queremos discutir nessas palestras são as consequências desse processo, independente de como ele se chame.

Mas o uso da palavra ‘golpe’ marca uma posição.

Marca posição. Mas não é isso que a gente quer discutir, a nossa posição, e sim as consequências desse processo na Educação, na mídia, para os trabalhadores, a população LGBTTTQ ou as mulheres – teremos uma aula sobre o processo misógino pesado que houve contra a Dilma. Vamos discutir inclusive o Legislativo brasileiro e sua participação no momento político atual. Quem assistiu aquela sessão (da Câmara de Deputados, que afastou a presidenta Dilma de suas funções) ficou com vergonha. O Brasil inteiro se envergonhou, desde a esquerda até os mais conservadores, porque ninguém imaginava que o Congresso era assim, que tinha a bancada da bala, dos evangélicos, dos ruralistas... A aquele circo de horrores ficou estampado. Então vamos tentar entender porque o nosso Legislativo é assim, como ele se constitui e quais as consequências disso para nossa vida cotidiana.

Levantar o debate sobre o parlamento neste ano eleitoral em que todas as atenções estão voltadas para a sucessão presidencial é importante?

O Congresso tem um papel fundamental (na política brasileira). Foi lá que aprovaram as PECs, por exemplo, que cortam orçamentos para áreas essenciais para a população. Não queremos fazer proselitismo político, impor nossa visão de mundo. Queremos discutir o processo. Eu fui bastante ofendida por um blogueiro que disse que eu queria “plasmar uma verdade” enquanto o que eu deveria era “ter compromisso com a verdade por ser historiadora”. Meu compromisso é com a reflexão sobre a sociedade, temos que pensar daqui para diante, o que vai fazer com isso.

Vocês temem perseguições de movimentos contrários, inclusive de alunos da universidade?

Durante o processo das ocupações houve manifestações contrárias, algumas bastante violentas; em um dia mais tenso, professoras do IFCH precisaram formar uma barreira humana para impedir um confronto entre alunos que queriam ter aulas e os que estavam ocupando o instituto. Muitos hoje estão respondendo processo, inclusive por porte de armas dentro da universidade. Por outro lado, fizemos em 2017 uma aula magna com a presidenta Dilma Rousseff que lotou o Salão de Atos da Ufrgs e não registramos nenhum problema. E eram 1200 lugares. Foi super legal. Claro que pode acontecer de alguém ter opinião diferente, mas vamos estar preparados para isso, a gente lida com isso em sala de aula diariamente.

Esse grupo de professores é partidário, dá para dizer que são petistas?

Não é um grupo partidário. Tem gente do PT, mas não apenas. Tem gente de outros partidos de esquerda, de direita não tem obviamente. Estamos esperando manifestações, debate, perguntas: veja que as aulas são de 20 minutos e depois há outros 40 minutos reservados ao debate com a plateia, com os alunos. Na sala de aula o professor vem sendo questionado cada vez mais. Eu dou aula de história da América Latina contemporânea, que mexe muito com os problemas que a gente tem no continente. São mais de 30 anos trabalhando com este tema e sempre tive alunos discordando de mim, questionando, discutindo. Agora mais que nunca, porque há visões distintas sobre um mesmo fato; antes era a visão do homem branco heterosexual. Alguns questionamentos de alunos me alertam para estudar outras coisas, há outros simplesmente são contra o que digo e a gente debate, com uns eu aprendo, para outros eu ensino. A gente tá super acostumado. Por isso não estou muito preocupada. Agora, se tiver manifestação de rua, xingamentos, perseguição, a segurança da Ufrgs vai saber lidar com isso.

Como vocês separam o militante do estudioso?

Eric Hobsbawm dizia que era historiador, comunista e judeu, mas que ao praticar seu ofício, deixava de lado as paixões. É o que fazemos. Agora, a paixão é uma coisa, a convicção é outra: a História não é neutra, nem o jornalismo, nem a ciência é. Os cientistas escolhem seu objeto de pesquisa, o lado para o qual irão e isso não é neutro, aleatório. Um cientista não é isento de ideias, de convicções, mas a gente deixa as paixões de lado. Quando estudo o período militar brasileiro, por mais que conceba como um período autoritário, não posso deixar de fora documentos que deponham a favor do regime - é o caso que citei antes, do investimento nas universidades. No caso desse curso, estamos propondo uma reflexão que, futuramente, será material de pesquisa para outros colegas. Esse momento será estudado com documentação produzida nos poderes Legislativo e Executivo, nos movimentos contra e a favor, no MBL, no PSOL. E esses pesquisadores também vão reunir as nossas reflexões. Tucídides estava presente na guerra quando escreveu seus tratados sobre as guerras gregas, ele estava vendo tudo acontecer. Hoje usamos isso como um documento para entender o pensamento, a visão daquele momento.

Então pretendem sistematizar o material do curso em algum momento?

Seria legal uma publicação, mas vamos definir se são textos executivos, que os órgãos de imprensa pudessem reproduzir, se vai ter um caderno com textos mais longos e reflexivos. Mas vamos tentar divulgar de alguma forma, com certeza.

PROGRAMA - O Golpe de 2016 e a nova onda conservadora no Brasil

O conjunto final de aulas será divulgado no dia 12 de março, quando tambpem serão abertas as inscrições para estudantes da Ufrgs.

Aula 1: O Golpe de 2016 e a desdemocratização do Brasil - Alfredo Gugliano (Ciência Política/UFRGS)

Aula 2: O neoliberalismo e o golpe de 2016 - Arthur Ávila (História/UFRGS)

Aula 3: Golpe, relações de gênero e pessoas LGBTTTQ - Benito Schmidt (História/UFRGS)

Aula 4: Recorrência dos regimes autoritários - Carla Brandalise (História/UFRGS)

Aula 5: Os usos do passado e(no) golpe de 2016 - Caroline Bauer (História/UFRGS)

Aula 6: A democracia estava indo longe: o golpe de 2016 - Céli Regina Jardim Pinto (História/UFRGS)

Aula 7: O trabalho golpeado - Clarice Speranza (História/UFRGS)

Aula 8: A Democracia estressada: derrotas sucessivas - Claudia Wasserman (História/UFRGS)

Aula 9: A educação golpeada - Fernando Nicollazi (História/UFRGS)

Aula 10: O golpe e os ataques à cultura - Francisco Marshall (História/UFRGS)

Aula 11: A Ciência Brasileira após o golpe - Jorge A. Quillfeldt (ICBS/UFRGS)

Aula 12: O patriarcalismo na política brasileira e o golpe de 2016 - Jurandir Malerba (História/UFRGS)

Aula 13: Capítulos de um golpe anunciado: a mídia empresarial brasileira - Luis Alberto Grijó (História/UFRGS)

Aula 14: A BNCC e o golpe - Mara Cristina de Matos Rodrigues (História/UFRGS)

Aula 15: Movimentos sociais, contramovimentos e o golpe de 2016 - Marcelo Kunrath (Sociolgia/UFRGS)

Aula 16: Reconfigurações do trabalho no Brasil - Marilis Almeida (Sociologia/UFRGS)

Aula 17: As mulheres e a resistência ao golpe de 2016 - Natália Pietra Mendez (História/UFRGS)

Aula 18: O meio ambiente brasileiro após o golpe de 2016 - Paulo Brack (Botânica/UFRGS)

Aula 19: Rupturas de política econômica e o golpe de 2016 - Róber IIturriet (Economia/UFRGS)

Aula 20: História e memória no presente - Temístocles Américo Corrêa Cezar (História/UFRGS)

Aula 21: Nas Pegadas de Brutus e Iscariotes: Temer, o Traidor - César Augusto Barcellos Guazzelli



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